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Vício Inerente
(Inherent Vice)
Policial - 2014 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 19/02/2015
Distribuidora: Warner Bros.
Na Los Angeles dos anos 60, o detetive Larry Doc Sportello se envolve em uma série de mistérios, enquanto o julgamento de Charles Manson se desenrola ao fundo.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido e roteirizado por Paul Thomas Anderson. Com: Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Katherine Waterston, Joanna Newsom, Jeannie Berlin, Benicio Del Toro, Reese Witherspoon, Owen Wilson, Jena Malone, Eric Roberts, Serena Scott Thomas, Maya Rudolph, Michael Kenneth Williams, Hong Chau, Martin Short, Sasha Pieterse, Martin Donovan, Peter McRobbie, Keith Jardine.

Vício Inerente é um Chinatown no qual o detetive Jake Gittes foi substituído pelo Dude de Jeff Bridges. Não que este conceito seja novo, já que basicamente é o que ocorria em Um Perigoso Adeus (e o fato de que este foi realizado 25 anos antes de O Grande Lebowski não invalida a comparação) – mas, ainda assim, o novo trabalho de Paul Thomas Anderson consegue se estabelecer como uma experiência atípica e original, sendo apenas apropriado que siga de certa forma os passos de Robert Altman, uma influência óbvia na carreira do cineasta desde seus primeiros longas. Assim, P.T. Anderson opta, como seu mestre, por se importar menos com a trama de seu próprio roteiro (baseado em livro de Thomas Pynchon) e mais na atmosfera da época em que a história se passa e, principalmente, na personalidade de seu protagonista.

Aliás, tentar descrever a trama de Vício Inerente seria perda de tempo. Em primeiro lugar, porque esta, como já dito, não importa de fato; em segundo, porque seriam necessários todos os parágrafos disponíveis para relembrar o que ocorre ao longo de seus 148 minutos, que apresentam personagens novos (e importantes) até mesmo no terceiro ato, descartando qualquer estrutura narrativa convencional e apostando num tom de “vamos ver aonde isso nos levará” que perdura até os créditos finais. Basta dizer que as primeiras cenas acompanham o detetive particular Doc Sportello (Phoenix) que, constantemente dopado, é visitado por uma ex-namorada, Shasta (Waterston, filha de Sam), que pede sua ajuda para lidar com um problema relacionado ao namorado, o milionário Michael Wolfmann (Roberts), que pode estar prestes a se tornar vítima de sua esposa (Scott Thomas) e do amante desta. Quando Shasta e Wolfmann desaparecem no dia seguinte, Sportello passa a investigar o que ocorreu enquanto enfrenta seus próprios obstáculos graças à perseguição do tenente Bigfoot (Brolin) e de agentes do FBI.

A partir daí, o detetive encontra uma infinidade de figuras com motivações geralmente obscuras enquanto tenta compreender exatamente a relação entre elas – uma tarefa que se torna ainda mais difícil graças à névoa química que dispersa sua atenção e o torna mais inquieto a cada nova coincidência que surge em seu caminho (e, ao interrogar um cliente, Doc anota a palavra “Paranoia” em seu caderninho, mas referindo-se não ao sujeito e sim a si mesmo, o que não é um sinal dos mais promissores). Como se não bastasse, o sujeito parece propenso a experimentar alucinações, como ao enxergar dezenas de índios caminhando sorrateiramente no deserto em torno de Los Angeles – e o mais fascinante é perceber que nem o próprio filme parece estar muito certo do que é realidade ou fantasia, já que a narradora sintomaticamente batizada como Sortilège (Newsom) parece surgir no e sumir do carro do herói de maneira aparentemente aleatória.

Com isso, Vício Inerente revela uma personalidade paranoica e tão propensa a estados alucinatórios e conspiratórios quanto Sportello – uma tendência que se repete em praticamente todos os demais personagens, que (com exceção de Bigfoot) parecem estar sempre drogados e buscando lidar com um período no qual a era do “amor livre”, do “paz & amor” e do constante estímulo químico era obrigada a lidar com a realidade chocante dos crimes da família Manson e com o conservadorismo do governo Nixon. Desta maneira, ao mesmo tempo em que Sportello abraça carinhosamente uma cliente que busca seu auxílio (Malone), Bigfoot (autêntico representante do establishment repressor) habitua o filho a servir automaticamente o uísque que o mantém funcional em um mundo que insiste em ignorar seus gritos de ordem.

Neste sentido, o filme de Paul Thomas Anderson não é apenas sobre um período, mas sobre um confronto ideológico e político entre as autoridades e aqueles que se recusam a vê-las como dignas de obediência – e, como resultado, o roteiro constantemente parece se esquecer da investigação que supostamente deveria ocupar o centro da trama, entregando-se a divagações similares às que cruzam a mente do herói. Não é de se estranhar, portanto, que em meio aos encontros de Sportello subitamente sejamos surpreendidos por uma recriação de A Última Ceia envolvendo músicos que dividem pizzas movidos pela mais óbvia das laricas (algo que pode ser encarado como mais uma homenagem a Altman, que fez algo quase idêntico em M*A*S*H*). Tudo isso, claro, ocorrendo em um universo criado com cores intensas, penteados absurdos e que mistura o estilo psicodélico da época às névoas e sombras do noir.

Porém, o segredo de Anderson para manter seu filme sob controle mesmo com uma narrativa aparentemente (e vale enfatizar o “aparentemente”) tão dispersa reside na performance magnética de Joaquin Phoenix, que, com a fala enrolada e os modos pacíficos mesmo diante da hostilidade alheia, parece sempre olhar para o mundo ao seu redor com um misto de surpresa e doce encantamento. Surpreendentemente eficaz para alguém cuja atenção soa sempre dividida entre os fatos que investiga e as tangentes que sua mente insiste em fazer, Sportello adota uma estratégia de trabalho que deve mais ao improviso do que à diligência – e, assim, é apenas natural que ele visite um suspeito para só pensar no que está fazendo ali ao ser indagado por este. Enquanto isso, Josh Brolin transforma Bigfoot no contraponto ideal ao espírito livre do protagonista: sempre tenso, raivoso e frustrado, o policial é uma colagem de repressões internas, revelando, aqui e ali, sua dor por não ter a fama que busca, a família que deseja e por não seguir a orientação sexual que o faria feliz. E se seria impossível comentar as atuações de um elenco tão extenso, ao menos devo apontar a ponta fabulosa de Martin Short e, ainda mais importante, a revelação representada por Katherine Waterston, que protagoniza uma cena, rodada em uma longa tomada, na qual se expõe não apenas fisicamente, mas emocionalmente de maneira intensa, corajosa e inesquecível.

Aliás, Paul Thomas Anderson, que não é amador no que diz respeito a longos planos, aqui parece utilizá-los primordialmente para beneficiar seus atores, frequentemente aproximando sua câmera lentamente dos rostos expressivos de seu elenco enquanto os personagens se entregam a monólogos reveladores, tornando-os grandiosos de maneira discreta, mas contundente. E se em Magnólia o cineasta espalhava os números 8 e 2 por quase toda a narrativa, aqui é fascinante reparar como ele ocasionalmente percorre o cenário com um rápido reflexo luminoso que parece perseguir (sem alcançar) o personagem de Phoenix – uma rima visual sutil que finalmente revela suas intenções no plano final, quando sugere, ao encontrar o olhar de Sportello, um foco que até então faltava ao sujeito e que, em maior ou menor grau, foi alcançado graças às experiências vividas nos dias anteriores.

Um foco que, diga-se de passagem, jamais deixou de existir na filmografia de Paul Thomas Anderson, que, com sete excelentes longas realizados, já pode certamente ser considerado um artista digno do mestre que tanto o inspira.

13 de Abril de 2015

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