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Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada é Impossível
(Tomorrowland)
Aventura - 2015 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 04/06/2015
Distribuidora: Disney
Na trama, o destino de um homem desiludido que já foi um gênio na infância está ligado com o de uma otimista jovem que adora descobertas científicas. Quando ela descobre um broche que, ao ser tocado, a transporta subitamente para a "Terra do Amanhã" do título, ele precisa ajudá-la a desvendar os mistérios daquele mundo paralelo.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Brad Bird. Roteiro de Bird e Damon Lindelof. Com: George Clooney, Britt Robertson, Raffey Cassidy, Hugh Laurie, Tim McGraw, Thomas Robinson, Pierce Gagnon, Kathryn Hahn, Keegan-Michael Key, Judy Greer.

Boa parte das ficções que abordam o futuro envolve distopias. Nem sempre foi assim, claro: a não ser que lidassem com ataques alienígenas, as ficções científicas até as décadas de 40 e 50 costumavam trazer futuros repletos de luzes brilhantes, tecnologia que beirava a magia e uma visão geralmente otimista. Sim, aqui e ali havia Morlocks dispostos a capturar Elois, mas normalmente os cineastas e roteiristas mostravam-se mais interessados nas possibilidades de retratar invenções fantásticas do que em retratar a destruição da humanidade. Isto começou a mudar rapidamente a partir da década de 60 – e, desde então, o futuro virou um lugar sombrio, ameaçador e que, se não era pós-apocalíptico, trazia sociedades distópicas (não raro, era ambos).

Neste contexto, Tomorrowland é um filme que sente profunda nostalgia de um futuro promissor. Concebido por Brad Bird, que co-assina o roteiro (ao lado do geralmente problemático Damon Lindelof) e também dirige o projeto, o longa parece dizer que, caso consigamos abandonar nosso fascínio pela catástrofe, talvez possamos construir algo que se assemelhe à visão otimista que costumávamos ter antes que a Guerra Fria dominasse de vez a imaginação dos realizadores. Assim, não é coincidência que a história tenha início durante a Feira Mundial de 1964, que, sediada em Nova York, buscava apresentar possibilidades imaginativas de um mundo avançado e pacífico. É ali que conhecemos o pequeno Frank Walker (Robinson), que inventou um jato propulsor portátil – ícone das sociedades futuristas ficcionais. Embora o aparelho não funcione de fato, a postura do garoto atrai a atenção de Athena (Cassidy), uma garota que acompanha um dos avaliadores do evento, Nix (Laurie) – e, assim, ela dá um jeito de levar o menino para Tomorrowland, uma cidade habitada apenas pelos melhores e mais criativos integrantes da Humanidade. No entanto, como logo descobrimos, algo dá terrivelmente errado e, anos depois, passamos a seguir a jovem Casey Newton (Robertson), que também desperta o interesse de Athena (ainda com seu visual de pré-adolescente) e, por algum motivo, passa a ser perseguida por agentes determinados a destruí-la – o que a obriga a buscar o auxílio de um Frank Walker agora envelhecido e amargo (Clooney).

Estruturalmente concebido como uma aventura de ação com toques de thriller, Tomorrowland se apresenta como uma narrativa ágil e leve que se mostra tão interessada na jornada de Casey quanto no universo que ela descobre. Assim, quando visitamos Tomorrowland ao lado da garota, Bird nos insere na cidade em um longuíssimo plano-sequência que vai descortinando aos poucos a beleza daquele mundo, desde as pessoas com roupas coloridas e as citações de grandes cientistas que adornam muros até as fabulosas piscinas multinível e os prédios gigantescos e brilhantes que parecem desafiar a gravidade. Por outro lado, este primeiro contato com o lugar é importante para estabelecer também um contraste com sua versão posterior, quando as paredes brancas surgem encardidas e a cor parece ter sido drenada – num excepcional trabalho de design de produção de Scott Chambliss, que também concebeu o visual futurista das duas recentes versões de Star Trek.

Da mesma maneira, os objetos criados para ilustrar a tecnologia avançada empregada por aqueles personagens conseguem ser ao mesmo tempo divertidos e verossímeis no contexto em que surgem, destacando-se, neste aspecto, a sequência que se passa na casa de Frank e que se apresenta como uma espécie de Esqueceram de Mim em modo “extreme”, já que cada aposento parece trazer uma armadilha mais curiosa que a outra. Ainda assim, confesso que os elementos visuais que mais me fascinaram ao longo da projeção foram aqueles mais sutis usados na composição de personagens, como a piscada levemente fora de sincronia de certo casal (isto mesmo antes de ficar completamente fora de sincronia) e o sorriso estranho e artificial dos agentes que perseguem Casey.

Porém, Brad Bird é um diretor que sabe que espetáculo visual não é o suficiente para segurar uma narrativa – e que sempre iremos buscar uma referência humana em meio ao desfile de efeitos visuais. Assim, é sábio o bastante para criar personagens que conquistam nosso interesse e que enfrentam dilemas com os quais podemos facilmente nos identificar – a começar por Casey Newton (ok, Bird, mas não precisava trazê-la atirando uma maçã logo em seus primeiros minutos na tela; já era clara a referência). Vivida pela jovem Britt Robertson com energia e carisma admiráveis, a moça é o ponto de referência do espectador naquele universo ficcional, apresentando-se também como síntese dos temas principais que o diretor pretende desenvolver ao mostrar-se determinada a não aceitar o pessimismo de todos que a cercam (e a sequência na qual vários de seus professores atiram uma enxurrada de fatalismo sobre a turma é divertida, mas também incômoda por refletir a realidade). Convicta de que sempre há uma saída possível, Casey surge, assim, como representante das gerações que serão responsáveis por consertar os estragos deixados pelas anteriores, ao passo que o Frank Walker de Clooney encarna seu contraponto inevitável: o do adulto contemporâneo que há muito deixou de acreditar na possibilidade de um futuro promissor. E se Hugh Laurie pouco pode fazer com um tempo limitado de tela (e durante o qual ainda consegue recitar um monólogo importante que comentarei logo abaixo), a pequena Raffey Cassidy se apresenta como uma megaestrela em potencial ao conferir dimensão emocional a uma personagem que poderia facilmente ter se estabelecido como um bloco de frieza – além, claro, de se mostrar capaz de conferir a Athena não só inteligência e humor, mas também convincente nas sequências de ação (quando rivaliza com o que Chlöe Grace Moretz fez em Kick-Ass).

Não que o longa não tenha seus problemas – e poucas vezes vi um diretor se importar tão pouco com o incômodo clichê dos motoristas que parecem jamais olhar para a frente durante as conversas mantidas enquanto dirigem. Se este é um tropeço menor, contudo, o mesmo não pode ser dito sobre o conceito do broche que transporta aqueles que o seguram para uma visita instantânea a Tomorrowland – o que, pelo que posso concluir, deve ter o único propósito de provocar a morte dos escolhidos para a viagem. (Vejam o filme e entenderão.)

Seja como for, problemático ou não, o longa no mínimo não pode ser acusado de fechar os olhos para a realidade: ao declarar suas ressalvas (para usar um eufemismo) ao nosso mundo, o governador Nix interpretado por Laurie faz uma articulada exposição de nossas principais falhas, apontando que somos um mundo capaz de, ao mesmo tempo, sofrer epidemias de fome e obesidade. O pior, porém, é que o sujeito tem razão ao concluir que parecemos incapazes de lidar com nossos problemas mais graves: por mais que o aquecimento global seja um consenso entre os cientistas (e, sim, é), uma contranarrativa estúpida é vendida por lobistas determinados apenas em defender o interesse de grandes corporações, que, por sua vez, contam com verba suficiente para eleger políticos que votarão em legislações favoráveis à sua busca por lucros e contrários ao interesse do restante do planeta. E é por isso que me incomoda que o roteiro (e vou culpar Lindelof por hábito) decepciona ao de repente transformar Nix em um bandido unidimensional com direito a destino típico de vilão de animação da Disney, já que isto parece anular a propriedade de boa parte do que havia dito.

Porque o fato é que o filme não precisava tratar Nix como vilão; o otimismo de Brad Bird é tamanho que seria perfeitamente possível aceitar o discurso pessim... realista do sujeito e ainda assim contrapor a este a postura confiante e esperançosa do cineasta. Afinal, Bird não é um realizador que se intimide em expor sua visão de mundo, mesmo que esta atraia (injustas) críticas. Ao lançar Os Incríveis e Ratatouille, por exemplo, não foram poucas as acusações que recebeu de “elitismo” por defender que somos indivíduos únicos e que nem todos têm talentos e capacidades similares para as mesmas atividades. Se no primeiro ouvíamos o Sr. Incrível lamentando como passáramos a “celebrar a mediocridade”, no segundo Ego explicava que Gusteau não defendia de fato que “qualquer um poderia ser um grande artista, mas sim que um grande artista poderia vir de qualquer lugar”. Da mesma maneira, aqui ele concebe Tomorrowland como uma congregação de indivíduos especiais, mas não numa visão de superioridade aynrandiana ou flertando com o Übermensch de Nietzsche – tanto que uma das principais crises enfrentadas por aquela comunidade reside na ideia de muitos de abri-la para o resto do mundo.

Não. No universo de Brad Bird, o talento de indivíduos únicos sempre tem, como objetivo, melhorar a existência de toda a humanidade – algo que ele defendeu de forma consistente em O Gigante de Ferro, em Os Incríveis e em Ratatouille. Aí reside também seu otimismo; em acreditar que a atração exercida pelo dinheiro pode não ser tão forte quanto o simples e humano impulso de ajudar o próximo.

E é também por isso que Tomorrowland é um filme que deve ser visto com olhos infantis. Não por estes serem ingênuos, mas por ainda serem capazes de enxergar algo que o longa defende com paixão contagiante: a ideia de que, se quisermos, podemos, sim, construir o mundo promissor que o Cinema vem se esquecendo de retratar.

06 de Junho de 2015

Videocast (sem spoilers):

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