Bem-vindo!
 
Publicidade
Publicidade
Sin City - A Cidade do Pecado
(Sin City)
124 min - Ação - 2005 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 29/07/2005
Data de Estreia Original: 01/04/2005
Situado na fictícia e corrupta Sin City, o filme interliga três histórias que envolvem os desagradáveis habitantes da cidade: Hartigan, um policial prestes a explodir, deve proteger a stripper Nancy; Marv, o misantropo errante, quer vingar a morte da única mulher que realmente amou; e Dwight defende Gail e suas garotas da mira de Jackie Boy, um policial corrupto e violento.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Robert Rodriguez, Frank Miller e Quentin Tarantino (uma cena). Com: Bruce Willis, Mickey Rourke, Jessica Alba, Rosario Dawson, Clive Owen, Nick Stahl, Rutger Hauer, Elijah Wood, Powers Booth, Jaime King, Benicio Del Toro, Devon Aoki, Brittany Murphy, Michael Clarke Duncan, Carla Gugino, Alexis Bledel, Josh Hartnett, Marley Shelton, Michael Madsen, Tommy Flanagan, Makenzie Vega, Frank Miller.

Sin City – A Cidade do Pecado é um filme habitado por personagens secos, cruéis e violentos, para os quais a idéia de `redenção` envolve, necessariamente, a morte (preferencialmente dolorosa) de seus inimigos. Amorais por princípio, são figuras que sequer buscam justificativas internas para seus atos; matar é lugar-comum, quase uma questão de bom senso. Aliás, esta visão profundamente distorcida do mundo já pode ser percebida na breve introdução do longa, numa cena em que a sensualidade e a compaixão também revelam-se atributos que servem como mero disfarce para o crime.

Dividido em três histórias (quatro, se contarmos a breve introdução), o longa assume o caráter de antologia com tranqüilidade, sem se preocupar em unir as tramas que lhe serviram de inspiração (todas originadas nos quadrinhos de Frank Miller) em uma única narrativa coesa – o que provavelmente comprometeria o resultado final. Além disso, embora conte histórias distintas, há dois elementos, bem mais importantes, que unem os `curtas`: o tom noir adotado por Miller e Robert Rodriguez e, é claro, o caráter ambíguo de seus anti-heróis – todos personagens claramente `malditos’. Da mesma forma, é fascinante perceber como o roteiro é hábil ao entrecruzar as várias narrativas, utilizando figuras proeminentes em uma como figurante das outras. Mas não há dúvida de que o traço mais marcante de Sin City é mesmo a maneira sem compromissos com que retrata a violência em cenas que envolvem de tiroteios a decapitações e até mesmo canibalismo. Aqui, a tortura é um pré-requisito do assassinato – e, depois que uma personagem golpeia alguém com uma faca, ouvimos a narração: `Você não sentirá nada a não ser que ela queira. Ela torce a lâmina. Ele sente.`

As narrações que acompanham as histórias, diga-se de passagem, são um atrativo à parte, sendo feitas por personagens diferentes, de acordo com o foco da trama abordada em cada instante. Utilizando sempre frases curtas e objetivas, elas refletem com precisão o ritmo específico dos quadrinhos, onde a própria limitação de espaço nos balões exige uma concisão maior por parte de seus autores. Assim, quando o policial interpretado por Bruce Willis surge na tela, ouvimos as seguintes palavras: `Falta só uma hora. Meu último dia como policial. Aposentadoria precoce. Não foi minha idéia. Ordem do médico. Problema de coração. Angina, diz ele.` Esta opção do roteiro resulta em uma cadência não apenas interessante, mas bastante diferente do que estamos habituados a escutar no Cinema.

Adotando o mesmo recurso empregado em filmes como Capitão Sky e o Mundo de Amanhã, Immortel (ad vitam) e Casshern, Robert Rodriguez rodou todo o longa em estúdio, utilizando, como cenário, apenas uma tela verde que foi posteriormente substituída por elementos criados em computador. No entanto, ao contrário do que ocorreu em vários de seus trabalhos anteriores, o cineasta desta vez não coloca a estética acima da narrativa: sim, a elaboração digital dos cenários permite que Rodriguez tenha controle absoluto sobre o visual do longa, mas, felizmente, ele consegue controlar seus ímpetos de grandiosidade (tão prejudiciais à Era uma Vez no México, por exemplo) e se concentra no que realmente pode servir à narrativa. Assim, Sin City – A Cidade do Pecado assume sem timidez sua natureza noir (especialmente o aspecto expressionista do gênero), abusando das sombras marcadas, da divisão pronunciada do claro-escuro, e, é claro, dos cenários assimétricos. E, além de lindamente compostos, os quadros concebidos por Rodriguez (que divide os créditos com Miller) ainda encontram espaço para utilizar cores esporádicas como símbolos de sentimentos intensos, como amor, paixão e luxúria.

Outro ponto forte do projeto diz respeito ao seu impressionante elenco, a começar por Mickey Rourke, cuja presença física imponente e voz marcante transformam Marv em um ser aparentemente assustador que, com o tempo, revela traços mais suaves em seu temperamento, adicionando-o à clássica galeria da `fera com coração de ouro` (levando-se em conta, claro, que, em Sin City, ter um `coração de ouro` significa apenas que você não mata indiscriminadamente, mas com um propósito). Enquanto isso, Bruce Willis volta aos bons tempos (depois de Refém e Meu Vizinho Mafioso 2) e impressiona como o amargurado policial Hartigan, que não mede esforços para tirar um canalha sádico das ruas (e é bacana ver Willis assumindo sua idade e dizendo para Jessica Alba: `Eu poderia ser seu avô.`). Outro que merece aplausos (mesmo participando daquela que, para mim, é a mais irregular das três histórias) é Clive Owen, compondo um sujeito durão, mas com fortes princípios morais (talvez o único a tê-los, em todo o filme). Mas eu talvez esteja sendo injusto ao destacar os três apenas porque funcionam como protagonistas de seus episódios, já que todo o elenco secundário da produção é igualmente eficaz, de Elijah Wood (surpreendendo como um tipo ameaçador) a Benicio Del Toro e Rutger Hauer, que finalmente está sendo resgatado do limbo no qual se encontra desde o final da década de 80.

Despontando como o trabalho mais maduro de Robert Rodriguez, Sin City também evidencia o crescimento do cineasta ao apresentar diversas rimas narrativas que atravessam todas as histórias, incluindo temas e frases que se repetem constantemente. Um destes temas, em particular, certamente surpreenderá o público feminino, já que diz respeito justamente à força das personagens femininas apresentadas pelo filme, que, apesar de `protagonizado` por homens, condiciona as ações destes às determinações das mulheres que os cercam: todos os três episódios trazem homens que, mesmo fisicamente fortes, são psicologicamente submissos às garotas que protegem/vingam/amam. E aqueles que tiveram contato com a luta da feminista radical Andrea Dworkin (falecida recentemente) certamente a reconhecerão como inspiração para a juíza que manifesta seu repúdio por um personagem acusado de violência contra mulheres, em certo momento do longa.

Com isso, Sin City deixa de ser um entretenimento escapista (embora também funcione perfeitamente bem apenas neste nível) e torna-se palco de uma curiosa – e inesperada – discussão sobre as relações entre os sexos em um contexto de violência e dor. Em outras palavras: no mundo real.

Observação: A cena envolvendo os personagens de Benicio Del Toro e Clive Owen em um carro em movimento (você a reconhecerá com facilidade, acredite) foi dirigida por Quentin Tarantino, que usa, entre outros recursos, o zoom típico que caracteriza seus trabalhos.

08 de Junho de 2004

Comente esta crítica em nosso fórum e troque idéias com outros leitores! Clique aqui!

Comentários

comments powered by Disqus
Publicidade

Redes Sociais

Filmes Relacionados

Variedades

    Publicidade

    Agora!