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Frame Sonoro: OS SONS INVASORES
por Paulo de Tarso

Divulgação.

Para quem acompanha cinema norte-americano mais de perto, o nome Ben Burtt pode soar familiar.

Alguns o conhecem simplesmente por ter sido o responsável pela criação dos sons para umas inacreditáveis espadas feitas de luz sólida, utilizadas num filminho de ficção-científica barato lançado em 1977 e que carregava o pomposo nome de Guerra nas Estrelas

Mas outros, mais bem informados, sabem que ele também foi responsável por inúmeros outros sons que permearam o cinema desde o final da década de 70 e que, ao longo do tempo, se tornaram icônicos. Segue uma pequena lista:

- o chicote de Indiana Jones
- a "fala" de R2D2
- a voz de ET
- a respiração de Darth Vader
- toda a comunicação dos personagens autômatos de Wall-E
- os inconfundíveis sons dos caças Tie
- os sons da criatura de Super 8
- e mais, muito mais

Logo após ter concluído o seu trabalho em Star Wars - Episódio IV e já com certa fama, este nova-iorquino que ainda iria vencer dois Oscars (por ET - o Extraterrestre e Wall-E) e que se tornaria um nome respeitadíssimo na indústria de Hollywood, foi convidado a participar de um remake de um longa de 1956 chamado Vampiro de Almas, dirigido por Don Siegel. Esta refilmagem intitulada Invasores de Corpos foi lançada em 1978 e teve como diretor um amigo de George Lucas, Philip Kaufman. É este filme, hoje considerado um dos mais importantes lançados naquele ano e até agora a melhor adaptação (das quatro já feitas) do livro escrito por Jack Finney, que vamos analisar rapidamente o seu magnífico desenho de som.

Só lembrando que na época, Ben Burtt foi responsável pela criação dos efeitos sonoros, sendo Bonnie Koehler a supervisora e responsável por todo o acabamento sonoro. Mas o trabalho de Burtt impressionou tanto o diretor que seu nome apareceu com certo destaque nos créditos finais. 

Mas vamos ao que interessa.

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- Curiosamente já nos créditos iniciais, nas cenas extraterrestres, somos apresentados a boa parte dos sons "alienígenas" 

- Ainda nos créditos iniciais, nas primeiras cenas de uma São Francisco chuvosa, alguns sons orgânicos, como trovões, foram substituídos por sons percussivos, metálicos e sintetizados. E aqui um dado interessante em relação à mixagem: os sons naturais (chuva, vento, balançar das folhas) estão em um volume bem mais baixo do que estes sons, vamos chamar assim, artificiais. E à medida que a narrativa avança, as ambientações vão se tornando cada vez menos orgânicas, os sons naturais vão desaparecendo, permanecendo somente os sintetizados. Ou seja, o desenho sonoro vai acompanhando a proliferação dos alienígenas pela cidade.

- Inusitada e criativa a fusão da música com o rangido do balanço do parque infantil, em uma breve aparição de Robert Duvall como um padre.

- A primeira vez que vemos o protagonista, o personagem de Donald Sutherland, Matthew Bennell, ele é visto através de um olho mágico. E estranhos sons envolvem toda a cena. No plano seguinte descobrimos a fonte destes sons: a movimentada cozinha de um restaurante francês.

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- Avançando um pouco, na manhã seguinte, temos a sequência em que Geoffrey (Art Hindle) leva uma lata cheia até um caminhão de lixo estacionado em frente a sua casa. Interessante observar o som grave, pesado e "sinistro" desse caminhão. À medida que o filme avança, o espectador vai percebendo a importância desses caminhões de lixo na narrativa, suas diversas aparições pela cidade e quão genial foi já apresentar um "perfil sonoro" deste elemento.

E nesta mesma cena, Elizabeth (Brooke Adams), esposa do Geoffrey, observa da janela da sala toda a movimentação. Ouvimos um pesado tique-taque de um relógio de parede que se funde com um badalar de um sino de igreja na cena seguinte, quando ela já está caminhando apressada na calçada.

- Em outro momento bem mais à frente, um homem desesperado e fora de controle se atira no capô do carro em movimento de Bennell, em pleno centro da cidade. Depois de falar algumas palavras sem sentido, ele sai correndo, some por uma esquina, é perseguido por uma pequena multidão e é violentamente atropelado. Surge uma moto da polícia para tentar controlar a situação. Toda essa série de ações é tremendamente auxiliada pelo som, já que a câmera está o tempo todo dentro do carro de Bennell. 

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- Já a cena em que o Dr. Kibner (Leonard Nimoy) tenta conciliar um casal na festa do lançamento do seu livro é um ótimo exemplo do uso do som de forma extremamente sutil, porém bastante significativa: Elizabeth observa Kibner argumentando com o casal, mas ela também observa as pessoas em volta. Nos planos POV de Elizabeth olhando as pessoas, é possível ouvir um ruído grave e soturno que contrasta com os outros sons da festa, leves e descontraídos. O espectador, de forma discreta, é convidado a compartilhar da desconfiança  da personagem: tem alguma coisa errada com esse povo! 

- Outro momento de sutileza sonora: assim que Benell carrega Elizabeth desacordada para fora de sua casa, ele a coloca no seu carro e liga o motor. Neste momento, Geoffrey, dentro da casa, percebe que sua esposa sumiu e emite o famoso "grito alienígena", criação de Ben Burtt (uma combinação de grito humano, guincho de porco e um pouco de distorção). Só que este grito se confunde com o som dos pneus do carro de Benell que parte apressadamente.

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- Talvez o clímax do filme seja a cena em que o personagem de Donald Sutherland e seus companheiros começam a ser replicados enquanto dormem. Para ela, Ben Burtt conseguiu criar uma atmosfera sonora  fantástica! O som que permeia toda a cena de nascimento das cópias a partir dos casulos é de um aparelho de ultrassonografia, aqueles utilizados em exames em gestantes. Mas também foram acrescidos batidas de coração (naturais e sintetizados), respirações distorcidas, sons orgânicos obtidos a partir de frutas e vegetais cortados e amassados, gemidos, percussões graves, sons sintetizados e mais os já citados gritos alienígenas.

O resultado é uma textura sonora bizarra, surreal e assustadora, apropriadíssima para toda a cena.

E um detalhe interessante: sem um "pingo" de música.

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- Destaque também para o som ambiente criado para a imensa "fábrica" onde são cultivados os casulos alienígenas. É como se esta fosse um gigantesco animal respirando de forma pesada, pulsante e ameaçadora, cheio de camadas de sons graves sintetizados. Lembram as ambientações lúgubres e sinistras criadas pelo genial (e já falecido) Alan Splet para filmes como Eraserhead e O Homem Elefante.

E quando a fábrica é destruída, muito peculiar os sons altamente estilizados das explosões provocadas pelo protagonista.

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- E por fim, simplesmente genial a ideia dos créditos finais serem em completo silêncio. O último som do filme é o tal grito alienígena, emitido ruidosamente pelo personagem de Donald Sutherland  e é esse som pavoroso que fica na cabeça do espectador depois do filme.

Outras curiosidades: 

- excelente a qualidade sonora do filme para o seu lançamento em blu-ray: uma nova distribuição de toda a banda sonora em seis canais, com destaque para a utilização expressiva dos sons de baixa frequência e um trabalho de re-masterização impecável, resultando em um áudio cristalino e muito bem acabado.

Invasores de Corpos foi originalmente lançado nos cinemas somente no sistema estéreo da Dolby. 

- após o lançamento do filme, a música do compositor Denny Zeitlin foi muito elogiada pela sua diversidade, inovação e criatividade. Mas por ter sido um processo desgastante, tendo que trabalhar em média 20 horas por dia durante quatro semanas, ele jurou nunca mais voltar a compor para longas-metragens. E manteve a palavra, recusando todas as diversas ofertas de trabalho que apareceram desde então. Este filme é o seu único registro como compositor para Cinema.

PAULO DE TARSO é editor de áudio e mixador. Trabalhou no departamento de som dos longas Ensaio Sobre a Cegueira e Era Uma Vez. Dono do estúdio Lux Sonora - Pós-Produção de Som para Cinema e Publicidade, em Curitiba.
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Frame Sonoro: O LUGAR ONDE TUDO TERMINA
por Paulo de Tarso

Logomarcas iniciais. Total silêncio.

Tela escura.

Uma respiração forte em primeiro plano e, ao fundo, uma espécie de música circense.

Ainda tela escura. De repente, um som metálico, ritmado, porém ainda indistinguível.

Surge a primeira imagem.

Um corpo masculino, magro e com muitas tatuagens caminha pra lá e pra cá em um recinto pequeno. O som metálico é uma faca tipo butterfly, manuseada habilmente pelo sujeito.

Alguém bate na porta e fala alguma coisa. O rapaz tatuado crava a faca na parede, pega uma jaqueta e sai. A câmera o persegue, focalizando suas costas.

O personagem vai caminhando e descobrimos que estamos em uma espécie de parque de diversões. Mergulhamos em um oceano barulhento e caótico: montanha russa, videogames, carrossel e vários outros brinquedos, anúncios em alto-falantes, gritarias de crianças, música de circo, povo gritando e aplaudindo (e em meio a tudo isso, ainda somos capazes de ouvir o isqueiro sendo acionado quando o rapaz acende um cigarro).

Temos aqui uma ruidosa, complexa e magnífica trilha sonora acompanhando o plano-sequência que abre o filme do diretor Derek Cianfrance. Tão notável que só esta abertura ganhou uma menção honrosa pela Associação de Críticos de Cinema de Saint Louis, nos EUA.

Quando Luke, o intrigante personagem vivido por Ryan Gosling, chega ao seu destino, nós descobrimos que ele é um piloto de motocicletas e está prestes a fazer uma performance no globo da morte junto com outros dois companheiros. Esta cena em específico, com as três motos girando loucamente dentro do globo metálico, o ronco dos motores sendo despejados nos seis canais de áudio e com a câmera praticamente colada no lado externo do globo, já vale o preço do ingresso.

Aliás, o som de motores é o grande destaque sonoro da primeira parte do filme. Exemplos? Vamos avançar um pouco mais na história.

Após o primeiro assalto a banco cometido pelo protagonista, durante a fuga, o som "nervoso" do motor da motocicleta é fundamental para o funcionamento da cena. A mixagem exagera nos volumes, seja na moto em si, nos carros que passam, nas arriscadas manobras até sua entrada no caminhão. É uma decisão acertada porque aumenta, e bastante, a tensão e a adrenalina de toda a ação mostrada.

O mesmo acontece na cena do último assalto.

Aqui temos uma impressionante cena de ação primorosamente executada e montada. É notável a quantidade de detalhes na sequência quando a câmera está posicionada dentro do carro policial perseguindo a motocicleta de Luke. Além dos onipresentes rádio e sirene, temos todos os sons das trocas de marchas, as pisadas nos pedais, as freadas e derrapadas, os trancos dos pneus quando estão passando por irregularidades no chão. Enfim... Uma cena obrigatória em qualquer escola de cinema.

Já na segunda parte do filme, o destaque em termos sonoros é o uso do som como percepção subjetiva dos personagens. Exemplos? Vamos lá:

- Quando AJ (Emory Cohen) e Jason (Dane Deehan) fumam droga em um túnel, o som acompanha o efeito da droga através da utilização do efeito de reverberação.

O mesmo ocorre na festa na casa de AJ. Aliás, esta sequência é tão interessante em relação à mixagem que merece ser decupada:

- Jason se aproxima da porta da frente da mansão onde está ocorrendo a festa. Ouvimos a música onde predominam as frequências graves;

- Assim que Jason abre a porta, as demais frequências da música (médios e agudos) surgem. É uma cena de cair o queixo!

- Jason entra na festa e a música é altíssima, misturada ao vozerio e gritaria dos adolescentes. Aqui o canal de som graves é usado quase no máximo;

- Jason entrega um pequeno pote plástico com os comprimidos de oxy para AJ. Aqui temos um detalhe interessantíssimo, um verdadeiro trunfo do trabalho de mixagem: AJ sacode o pote e, mesmo com toda a balbúrdia sonora em volta, ouvimos perfeitamente o barulho típico dos comprimidos sendo sacudidos;

- E finalmente Jason toma oxy e o mistura com álcool. O som vai mudando à medida que a droga começa a fazer efeito no seu cérebro. Tudo vai ficando diluído, distante, nebuloso... Sonoramente falando.

Outros destaques que valem a pena serem citados, mas agora em relação às ambiências:

- A interessante transição que ocorre quando Avery (Bradley Cooper) é homenageado na academia da polícia: os sons das palmas se transformam no som da água da piscina da cena seguinte.

- Após uma pequena discussão na cama, antes de dormir com sua esposa, os grilos da cena se transformam em passarinhos no plano seguinte quando já está amanhecendo.

- Quase no final, quando Jason descobre a foto na carteira de Avery, a ambiência da floresta some completamente, sendo mais um exemplo sutil, mas significante, do uso subjetivo do som.

E para fechar com chave de ouro, o som carregado de efeitos da recém-adquirida motocicleta de Jason quando se afasta pela estrada.

Música.

Créditos finais.
 

PAULO DE TARSO é editor de áudio e mixador. Trabalhou no departamento de som dos longas Ensaio Sobre a Cegueira e Era Uma Vez. Dono do estúdio Lux Sonora - Pós-Produção de Som para Cinema e Publicidade, em Curitiba.
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