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Cinemateca: SALÒ OU OS 120 DIAS DE SODOMA
por Leonardo Alexander

"Nós, fascistas, somos os únicos verdadeiros anarquistas, naturalmente, uma vez que somos donos do Estado. Na verdade, a verdadeira anarquia é a do poder."

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"É quando vejo os outros degradados, que eu me regozijo, sabendo que é melhor ser eu do que ser a escória do povo."

Escrever sobre Salò é provavelmente uma tarefa mais fácil do que de fato assistir ao filme do início ao fim. Diante do horror exibido em cena é normal desviar o olhar, maldizer o diretor, querer parar de assirtir no meio, pular algumas partes... Há até mesmo relatos de quem chegou a passar mal ao ver algumas cenas. Não, não se trata do que normalmente chamaríamos de um filme de terror. No entanto, questão de gênero à parte, talvez este seja um dos mais terríveis filmes de terror já realizados. Ainda hoje, quase 40 anos depois do seu lançamento, Salò causa controvérsias, divide opiniões e, por incrível que pareça, continua banido em alguns países. 

O diretor italiano Pier Paolo Pasolini, o gênio por detrás do filme, é certamente um dos maiores artistas europeus do século XX. Grande poeta e cineasta, Pasolini também escreveu romances, ensaios e peças de teatro. Além de ser um artista multifacetado, Pasolini foi um intelectual extremamente engajado, tendo sido associado por muito tempo ao partido comunista. A defesa corajosa de seus valores e de suas opiniões sobre a sociedade italiana, as diferenças de classes, o clero e o consumismo lhe valeram grandes inimizades. Seu brutal assassinato, em novembro de 1975, jamais foi devidamente esclarecido. Pasolini morreu aos 53 anos, poucos meses antes de Salò ser lançado nos cinemas, tendo nos legado diversas obras-primas, como O Evangelho Segundo São Mateus (1964), Mamma Roma (1962), Teorema (1968) e Desajuste Social (1961).

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"Sempre que os homens são iguais, sem que haja diferença, a felicidade não pode existir."

Erudito e profundo conhecedor do universo das Letras, Pasolini realizou interessantes adaptações de clássicos da literatura universal, como Decameron (1971), Édipo Rei (1967), Os Contos de Canterbury (1972), As Mil e Uma Noites (1974) e Medéia (1969). Salò é baseado no romance 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade, escrito em 1785.  A divisão do filme, em quatro partes, no entanto, é inspirada no segmento “Inferno”, da Divina Comédia de Dante. O filme contém, também, citações de obras de importantes pensadores do século XX, como Roland Barthes, Maurice Blanchot, Philippe Sollers e Simone de Beauvoir.

Pasolini tranpôs a narrativa, que se passava originalmente no século XVII na França, para os últimos dias do regime de Mussolini, na República de Salò, local de onde o ditador governava. Foi também nessa cidade que o irmão do cineasta foi assassinado em 1945. O filme conta a história de um grupo de fascistas libertinos que sequestram 18 adolescentes, garotos e garotas, e os mantêm enclausurados durante meses, impondo-lhes diversas formas de abuso (sexual, em sua maioria) e humilhação. Os jovens são vítimas das mais absurdas perversidades, torturas e atos de violência, arquitetados pelas mentes doentias de um grupo de homens ricos, poderosos e sádicos.

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"Em todo o mundo, nenhuma volúpia agrada os sentidos mais do que o privilégio social."

Vários fatores fazem de Salò um verdadeiro soco no estômago. O filme não nos oferece, por exemplo, uma narração off ou um personagem principal, ou seja, ele não adota nenhum ponto de vista. Essa neutralidade e ausência de referências é extremamente desconfortável para o espectador. Além disso, as terríveis cenas de tortura são, na sua maioria, filmadas em longos planos, sem corte, que não oferecem qualquer escapatória para quem assiste. A brutalidade da história contrasta com a direção clássica e precisa de Pasolini. O diretor acentua a grandiosidade do cenário e o seu caráter opressor, através de belíssimos enquadramentos, marcados pela simetria e acompanhados pela bela trilha sonora de Enio Morricone.

Muitos afirmam que o filme é uma crítica ao poder opressor da sociedade de consumo capitalista. Chegam mesmo a afirmar que a famosa cena de coprofagia (alimentar-se de fezes) é uma metáfora da ascensão da cultura do junkie food. No entanto, a obra parece ir além dessas questões, sendo um exame impiedoso da crueldade humana, do abuso de poder, do autoritarismo e de todas as formas de corrupção. Uma coisa é certa: poucos cineastas ousaram ir tão longe ao tratar da violência e do sexo, o que faz de Salò um dos filmes mais audaciosos e provocadores de todos os tempos.

Melhor filme de Pasolini? Pior? Provavelmente existem argumentos para defender as duas hipóteses. Obviamente, o filme não faz unanimidade, mas também tem grandes admiradores e ferrenhos defensores. Não se pode negar, no entanto, que se trata de uma obra fundamental da filmografia do brilhante diretor italiano. Salò revela-se importante não apenas pelas discussões que levanta, mas também por nos fazer refletir sobre os limites (ou a falta deles) da arte na representação da realidade.

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"O gesto obsceno é como a linguagem do surdo-mudo, um código
que nenhum de nós, apesar do capricho irreprimido, pode transgredir."
 

Copyright Cinema em Cena 2012LEONARDO ALEXANDER é crítico de cinema, criador e mantenedor do blog Clube do Filme, estudioso de Literatura e Cinema na Université Paris Diderot (França) e apaixonado pelo cinema clássico hollywoodiano. Na coluna Cinemateca, ele analisa obras, diretores e gêneros, além de dar curiosidades e informações sobre os grandes clássicos do cinema mundial.
Cinemateca: TESS
por Leonardo Alexander

On one point she was resolved: there should be no more d'Urberville air-castles in the dreams and deeds of her new life. She would be the dairymaid Tess, and nothing more.

 

Roman Polanski, cineasta polonês, nascido na França, estreou no cinema como ator, função que nunca abandonou por completo. Ele dirigiu seu primeiro longa-metragem aos 29 anos, em 1962. Seu primeiro filme, A Faca na Água, já revelava o quão promissor ele era e lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar, por Melhor Filme em Língua Estrangeira. Em 1979, quando lançou Tess, ele já usufruía de um grande prestígio e tinha alguns clássicos no currículo, filmes que se tornaram, quase instantaneamente, cults, tais como Repulsa ao Sexo (1965), A Dança dos Vampiros (1967), O Bebê de Rosemary (1968) e Chinatown (1974).

Em 1969, a esposa de Polanski, a belíssima atriz Sharon Tate, foi assassinada por seguidores do líder fanático Charles Manson. Ela estava grávida de oito meses. Pouco tempo antes de morrer, Tate havia dado para o marido uma cópia de Tess of the d'Urbervilles, romance de Thomas Hardy. A atriz acreditava que a obra poderia render um grande filme e ela interpretaria o papel principal. Dez anos depois, o diretor finalmente realizou o projeto.

O filme se inicia com a simples e singela dedicatória “Para Sharon”. Como substituta de Tate, Polanski escalou a atriz Nastassja Kinski, com quem matinha uma relação amorosa desde 1976. Ela tinha apenas 16 anos quando eles se conheceram. Em 1978, o cineasta foi acusado de violentar uma menina de 13 anos. Em Tess, a protagonista, também adolescente, é violentada por um homem mais velho. (Material para uma análise psicanalítica é o que não falta na vida e obra de Polanski.)

O romance de Thomas Hardy, publicado em 1891, teve uma recepção mista na época de sua aparição, sendo visto, por muitos, como ultrajante, uma vez que desafiava os valores morais de seu tempo. A obra é hoje considerada um dos grandes textos da literatura inglesa e um dos melhores trabalhos de seu autor. Parte do êxito do romance é sua fascinante protagonista, Tess. Nastassja Kinski, atriz alemã, filha do grande ator Klaus Kinski, tinha 18 anos quando encarnou a personagem nas telonas. Ela foi considerada uma das grandes revelações do cinema em 1979, chamando obviamente bastante atenção pela sua beleza.

 

Tess é a história de uma adolescente, de aproximadamente 16 anos, que vê sua vida tomar um rumo completamente inesperado a partir de uma revelação feita pelo pároco do lugarejo onde mora. Tal indivíduo, que havia estudado a árvore genealógica das famílias locais, revela ao pai beberrão de Tess que sua família, os Durbeyfield, são, na verdade, uma ramificação de um nobre e antigo clã, os D’Urberville. Essa descoberta vem como um choque para os Dubeyfield que, vivendo numa quase miséria, tentam tirar alguma vantagem desse nobre parentesco. A mãe de Tess a envia, então, à casa de uns prováveis parentes, que portavam o nome de D’Urberville, para pedir ajuda financeira. Tratava-se de uma família rica, que morava há alguns quilômetros do vilarejo.

Chegando à mansão dos D’Urberville, Tess se depara com Alec, filho da matriarca. Ele se encanta com a garota e propõe que ela trabalhe na propriedade. Após várias tentativas frustradas de seduzi-la, ele a violenta, aproveitando-se de um momento de fraqueza da jovem. Após algumas semanas vivendo como amante de Alec, Tess decide ir embora da mansão para tentar recomeçar sua vida. Ela estava grávida. A má reputação, originada pelo fato de ter perdido a virgindade antes do casamento, a perseguirá, mesmo depois de encontrar o grande amor, Angel. 

Tess, o filme, apresenta evidentes características do gênero épico. Para começar, o enredo é centrado numa personagem elevada, pelas suas qualidades morais, à condição de heroína. O filme acompanha a trajetória dessa heroína, que é também uma jornada de autoconhecimento, aprendizado e iniciação. Essa trajetória é marcada por sofrimentos, encontros, desafios e dificuldades que devem ser superadas. 

 

Tess é uma personagem trágica e complexa. Ela oscila entre a força e a fraqueza, entre a determinação e a vulnerabilidade. Por mais que tente lutar continuamente contra os obstáculos (a origem, a pobreza, o preconceito etc.), ela acaba por ceder, diversas vezes, aqueles que mais a feriram. Tess é também uma personagem melancólica, tipicamente romântica. Sensível, introspectiva e amante da natureza, ela encontra em Angel (Peter Firth) seu par ideal. O rapaz, que também sofre de certa melancolia romântica, é rebelde, despreza a burguesia e se interessa por música e literatura. O amor que nasce entre os dois é tão bonito quanto idealizado. Quando a dura realidade vem afrontá-los, a ilusão se desmancha.

É importante salientar que Tess carrega em si uma dimensão mística. É muito interessante a relação dela com a natureza, com Deus, com rituais religiosos e até mesmo com o paganismo (podemos pensar na cena em que ela deita no altar de um antigo templo pagão, como prestes a ser sacrificada). É possível associar a protagonista ora à figura da santa, ora à da mártir, ora à da deusa. Na pele dessa personagem imensa, temos Nastassja Kinski, em uma performace sensível, grandiosa e comovente. Além disso, a câmera parece amá-la e sua beleza “explode” na tela.

 

O filme não deixa de ser também um interessante retrato histórico-social da época vitoriana. A hipocrisia social, a situação da mulher, a diferença entre classes e a transformação da sociedade são retratados no filme. O nome, marca de status social, é mostrado pela trama como uma simples mercadoria. Até os “mal-nascidos”, membros da ascendente burguesia ligada à indústria, podem adquirir um nome de prestígio. O que chama a atenção na história é a transformação que um detalhe, a princípio tão insignificante, traz para a vida de Tess. A associação de Tess ao nome D’Urberville é marco inicial da desgraça na vida da protagonista. Como em Romeu e Julieta, o nome sela o destino funesto dos personagens. A importância do novo nome é explicitada no título da obra original que é Tess de D’Urberville e não Tess Durbeyfield ou, simplesmente, Tess.

 

A beleza da direção de Roman Polanski deixa-se transparecer nos grandes e pequenos detalhes. Notem, por exemplo, como Tess é constantemente mostrada como uma personagem a parte dos demais; como Alec surge em cena de forma inesperada, como se fosse um predador; como o diretor retarda ao máximo a descoberta do rosto de Angel. O filme encanta tanto nos planos gerais, que mostra as belas paisagens inglesas, as pradarias, os campos de centeio, quanto nos lindos (e abundantes) closes sobre o rosto de Nastassja Kinski.

A fotografia do filme é, por sinal, um espetáculo a parte. Os planos são tão bem construídos que muitas vezes nos remetem a pinturas clássicas. Não só a utilização das cores nos remete à pintura, mas também a escolha dos temas recorrentes, como a vida do camponês, o trabalho dos agricultores, o campo de centeio e cenas mitológicas. A magistral fotografia do longa-metragem foi premiada, por sinal, com o Oscar, assim como a direção de arte e o figurino. O diretor de fotografia inicial do filme, Geoffrey Unsworth, morreu no início das filmagens, deixando, no entanto, muitas cenas prontas. Ele foi substituído por Ghislain Cloquet. Outro destaque da produção é a bela trilha sonora de Philippe Sarde.

Tess é provavelmente um dos filmes mais ambiciosos de Polanski. Certamente, ele destoa um pouco da sua filmografia, devido a sua grandiosidade épica, ao seu sentimentalismo e apelo romântico. Mas talvez seja essa uma das maiores qualidades de Polanski: ele sempre soube nos surpreender e impressionar.   

 

 

Copyright Cinema em Cena 2012
LEONARDO ALEXANDER é crítico de cinema, criador e mantenedor do blog Clube do Filme, estudioso de Literatura e Cinema na Université Paris Diderot (França) e apaixonado pelo cinema clássico hollywoodiano. Na coluna Cinemateca, ele analisa obras, diretores e gêneros, além de dar curiosidades e informações sobre os grandes clássicos do cinema mundial.
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