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32ª. parte: O fim, a garoa, os decibéis e os sudaneses alongados
por Redação Cinema em Cena

Lokichoggio, 29/07/2004

São 9:15 da primeira manhã chuvosa de todo o filme. Hoje é dia 29 de julho de 2004 e, ao que tudo indica, as filmagens de The Constant Gardener praticamente terminaram meia hora atrás. Escrevo do acampamento de Lokichoggio, onde parte da equipe, incluindo o Ralph, já começa a empacotar suas coisas para voltar para casa. Outra parte já havia sido deixada em Loyengalani no dia anterior, com uma ressaca daquelas pela festa que rolou até altas madrugadas. Para Loki, veio uma equipe reduzida, só os chefes dos departamentos, a turma que aparece nos créditos iniciais.

A cena aqui em Loki era simples: ao nascer do sol, Justin caminha no aeroporto de onde saem os aviões da ONU, que jogam alimento nas aldeias do Sudão. Seu objetivo é encontrar um piloto que sabe onde está o médico Marcus Lorbeer e tentar pegar uma carona num vôo que o leve até ele. Contra nossa expectativa, não havia o sol imaginado, mas rodamos assim mesmo. Depois deste plano simples, que nos tomou apenas meia hora, o Richard anunciou: “Guys, attention please, this was Ralph’s last shot in the film, and it was also the last shot for most part of the crew.Aplausos, abraços, emoção sob a garoa fina e o ruído de muitos decibéis da turbina de um Hércules que taxiava ao nosso lado.

Para mim ainda não acabou. Vou hoje à tarde com o César e um pequeno grupo de mais cinco pessoas para Rumbeck, no Sudão. Faremos as últimas imagens antes de voltarmos para casa, dia 31.

Ralph parecia mesmo tocado. Na tarde anterior, havíamos rodado umas imagens dele dirigindo seu carro em direção ao aeroporto e, quando acabamos, ele brecou, virou-se para trás e fez uma pequena declaração para o César e para mim. Agradeceu generosamente, dizendo que havia sido uma experiência nova trabalhar de forma tão solta e leve. De fato, ontem, estávamos apenas eu, ele e o César no carro, sem nenhuma equipe ao redor e não era a primeira vez que isso acontecia. A Rachel também me mandou, na semana passada, um cartão com o mesmo comentário, e o mesmo foi dito pelo Pete ao se despedir ontem de manhã, em Loyengalani. Os atores costumam ser mais limitados num processo de filmagem com movimentos de câmera pré-determinados e marcas de luz precisa. Como esses são atores extraordinários, talvez nossa maneira de filmar não modifique suas performances e  essa leveza possa nem aparecer na montagem final, mas o processo, de fato, é mais prazeroso quando a busca do acaso é uma meta. Paro agora e retomo amanhã do Sudão.


No vôo de Palliau para Loki, 30/07/2004

Já era final de tarde quando nossos dois Caravans pousaram na pista de terra de Rumbeck, na região dos lagos, perto do Nilo. Ainda deu tempo para deixar o pouco de bagagem na tenda e sair para um passeio pela cidade, ou ex-cidade.

Em Rumbeck, há apenas umas sete ou oito construções de alvenaria. O que havia antes foi bombardeado pelo GOS, as forças do governo em Cartum. Os escombros ainda estão por lá, junto com restos de tanques e carcaças de aviões acidentados. A vila é muito espalhada. Em 20 anos de guerra, os habitantes perceberam que cada vez que juntavam mais que quatro casas, criavam um alvo para os Antenov do governo. Agora, com a paz sendo assinada, um pouco de esperança volta ao Sudão: a World Food Programme está reconstruindo uma estrada que liga a cidade à Uganda, quer mudar sua base de ajuda de Loki para cá. Esta vai ser a primeira saída por terra de Rumbeck. Foi reinaugurado, em junho, o primeiro banco e visitamos um mercado de fumos e uma feirinha com razoável movimento. Mas apesar destas primeiras iniciativas, a cidade e todo o sul do país precisam ser reinventados do início. Não há eletricidade, saneamento, correio, polícia e nenhuma forma de governo, nem moeda local. Em Rumbeck, aceitam Dólar ou Shilings Queniano, mas não aceitam Dinar, a moeda do norte. A SPLA, Sudan Popular Liberation Army dos rebeldes, virou SPLM, o M de Movement. Eles são o que mais se aproxima de um governo aqui. Já estão criando uma burocracia local e começam a ditar as regras do período de paz que se anuncia. Nossos visas foram emitidos por eles, em Loki.

Como já disse em alguma parte deste diário, o Sudão tem um grande potencial, pois as terras são férteis, têm muita água, ouro, diamante e fala-se em reservas de petróleo maiores que as do Oriente Médio. Além disso, é corrente a percepção de que os sudaneses são muito inteligentes e interessados em estudos. O SPLA, por exemplo, deve ser um dos únicos movimentos populares na África comandado inteiramente por doutores formados em diversas universidades. Dr. John Garan, por exemplo, o líder, é médico. É também um país estratégico para os EUA por oferecer uma opção ao óleo dos árabes. Por tudo isso, é um país com um futuro, mas um futuro distante, imagino. Com a paz deve vir um período onde os ex-comandantes do SPLA assumirão o governo e fracassarão por não terem este preparo. Aí vem o período da disputa do poder entre as diversas tribos e o período da corrupção, até chegarem a ser um estado democrático de fato.

Na verdade, este é o cenário A. Vejo também um cenário B: os americanos começarem a provocar Cartum, como fizeram com o Iraque, para justificar uma invasão e poderem controlar o óleo local que hoje é mais explorado por chineses. Devem usar a desculpa de sempre: direitos humanos. Depois que invadirem, virão os interventores deles e aquela história toda. Quero conferir este diário daqui a dois anos para checar minha previsão. Parece ser uma seqüência lógica. Seres humanos. É sempre a mesma história.

Com metade da equipe passando mal devido a uma lasanha do dia anterior, acordamos cedo e voamos de Rumbeck para Pilau, uma pequena vila próxima do Nilo, onde viemos filmar o avião em que Justin estaria jogando 16 toneladas de comida para a população local. O avião e a comida são de verdade, da WFP. Enquanto uma equipe filmava a operação de dentro do avião, nós fazíamos o contra-plano de baixo para cima. A vila é bucólica e não nos pareceu um caso de calamidade, muito milho plantado e muito gado, mas a WFP deve saber o que faz.

Ao lado daqueles sudaneses muito negros e alongados, terminamos o filme pela terceira vez. Agora foi para valer. Enquanto nos abraçávamos mais uma vez, o Hércules fez uma curva no céu e deu um rasante sobre nossas cabeças para comemorar também.

Ter filmado em cinco países num esquema de primeiro mundo, mas ao mesmo tempo ter estado tão próximo do outro extremo do planeta foi uma experiência e tanto. Há muitas imagens e muita informação nova que ainda não digeri. Estou meio nostálgico aqui neste Caravan, voltando para Nairobi. Sei que nunca mais na vida verei muitas destas pessoas que estão sentadas ao meu lado e que hoje parecem ser velhos amigos. A vontade de voltar logo para casa se mistura com um certo vazio na alma, mas domingo que vem pretendo encher este vazio com muitos pedaços de pizza do Primo Basílico e com o amor da família, se Deus quiser.

Fernando Meirelles

31ª. parte: Filmando os Turkanas
por Redação Cinema em Cena

Loyengalani, 22/07/2004

Durante toda a noite, quase 100 barracas sacodem violentamente sob o vento implacável que varre o deserto onde fica o lago Turkana. Ninguém consegue dormir. Tomar banho é outra façanha, pois o vento que sopra dentro das tendas faz com que a água que cai dos baldes vá para todos os lados, menos para baixo, onde seres humanos empoeirados a esperam. O Oásis, nome da pequena pousada que há em Loyengalani, tem apenas 16 chalés. Parte deles virou escritório ou salas para guardar equipamento. Só uns poucos sortudos ficaram nos quartos restantes. O César, os atores e eu fomos alguns deles. Todo dia, quando vejo as barracas marrons ancoradas por sacos de areia, alinhadas como um acampamento romano do Asterix, rodeada de jeeps, caminhões e alguns aviões no meio daquela poeira, me sinto culpado pelas paredes sólidas que me cercam. Aquilo lá mais parece um centro de treinamento da Al Quaeda. Mas como já disse, inglês não reclama.  

Esta seqüência acabou sendo uma operação bem maior do que o previsto. Para termos 15 cavalos invadindo a suposta aldeia Toposa, no Sudão, tivemos que transportá-los por quatro dias de caminhão, construir cocheiras e trazer 20 pessoas acompanhando. Um time de 10 dublês e técnicos em efeitos especiais veio da África do Sul, mais bombeiros, armeiro, pilotos, um número respeitável de motoristas, helicóptero com operador de Tyler Mont, um exército de cozinheiros, pilotos, o Quico, o Toni, filho do César, e mais nossa equipe normal. Somávamos perto de 240 pessoas, fora os 300 extras ou assistentes locais. Mais de mil litros de água potável por dia. Se pensarmos que tudo tem que ser trazido por avião de Nairobi, percebe-se o tamanho da empreitada. Poderíamos ter feito esta seqüência em algum outro lugar mais próximo, mas a vantagem de vir aqui foi podermos usar a própria aldeia como cenário e os habitantes das tribos Turkana, Samburu e El Molo como extras.

Os Turkanas do Quênia são parentes dos Toposas do sul do Sudão, vivem da mesma maneira, aliás também vivem da mesma maneira como viviam seus antepassados há milhares de anos. Filmando na própria aldeia, pudemos documentar um pouco da vida da tribo para misturar nas seqüências encenadas. Esse pé no documentário torna nossa história toda mais crível e mais urgente. É sempre um prazer ser surpreendido por imagens ou acontecimentos. É mais estimulante do que quando tudo está planejado. O Walter Salles usou bastante o que via ao seu redor em Diários de Motocicleta, impregnando seu celulóide com a América Latina. Espero estarmos conseguido impregnar The Constant Gardener com um pouco de África.

Parte da equipe chegou aqui 10 dias antes para ensaiar com os moradores e com os cavalos, baseados no plano traçado em nossa última visita. Na hora da filmagem, pudemos ir adaptando os movimentos da multidão em fuga sem demora. Ao mesmo tempo em que eles ensaiavam o ataque das nossas milícias em Turkana, em Nairobi líamos as notícias da mesma coisa acontecendo de verdade em Darfur, na região de Bar El Gazel, noroeste do Sudão. Sem querer, o filme está ficando cada vez mais atual.

Tempos atrás, propus à produção trazer um amigo do Brasil para escolher Turkanas talentosos e preparar cenas específicas, como uma mulher desesperada com a perda de um filho, uma criança muito assustada e outras ceninhas que pudessem personalizar a invasão à aldeia. Fui convencido de que a equipe queniana daria conta, mas, como já suspeitava, isso acabou não acontecendo. Não ter um preparador de atores que eu confiasse foi o maior erro que cometi neste projeto todo. O ataque ficou bom, mas poderia ter ficado melhor. Na próxima vez, já sei onde preciso bater o pé.

Em Loyengalani, minha maior preocupação era encontrar um ator de oito anos para fazer um personagem chamado Nemo. Nemo seria um garoto Toposa que acompanharia Justin em todo seu percurso nesta aldeia. Tinha que ser encantador para que rapidamente o espectador se envolvesse, a ponto de sofrer quando o visse ser abandonado à mercê dos invasores. No momento em que pisei em Loyengalani, comecei a perguntar pelos garotos selecionados para o papel e recebi respostas evasivas. Durante nossa tarde de ensaios, passei parte do tempo escaneando todas as crianças ao redor para ver quem me chamava a atenção. Minha intuição me dizia que a produção não havia encontrado ninguém que se destacasse – e teríamos que filmar na manhã seguinte. No final do dia, uma garota veio até a janela do jeep onde eu estava e começou a falar com meu filho em Turkano. Era confiante e cheia de vida. Pedi para localizar sua mãe e lavá-la a nossa pousada. Em meia hora, no final do dia, fiz um rápido teste com ela entre os outros garotos candidatos, mas antes de começar já sabia que ela faria o papel. O Nemo acabou virando uma menina, Abuk. Como ela não fala uma palavra de Inglês e entende pouco Suahili, pedi que no primeiro dia apenas acompanhasse os atores. Coloquei junto um garoto que falava Inglês e Turkano para ela se sentir mais confiante. O Diego, nosso segundo operador de câmera, ficava sempre a postos só para conseguir closes quando ela não estivesse percebendo. No segundo dia, pedimos que ela falasse uma frase e deu certo. No quinto dia de filmagem, ela já havia entendido um pouco de sua personagem e desempenhou lindamente. Ficou mesmo triste a cena em que Abuk é abandonada.

Fora esta garota e o Ralph, tínhamos em Loyengalani o Sidede Onyulo, ator queniano que interpreta o cozinheiro em Lugar Nenhum na África, e o ator inglês Pete Postlethwaite (foto), de Em Nome do Pai e Os Suspeitos. O Pete é consagrado na Inglaterra e fez jus à expectativa que todos tinham em relação a ele. Criou um Lorbeer surpreendente. Este personagem é um médico religioso. Eu tinha na cabeça uma certa imagem para ele, mas o Pete chegou propondo o avesso do que imaginei inicialmente. Um Lorbeer cheio de energia, com brinco, colares, bermuda, camisa aberta, sandálias e cajado. Como um profeta contemporâneo. Aprovado no ato. Ele tem um rosto muito forte e uma energia que contagia. Vai entrar aos 45 do segundo tempo neste filme, mas diz a que veio. Ele foi minha última boa surpresa neste projeto.

Passar 10 dias convivendo com esta tribo foi uma experiência marcante. Não consigo imaginar vida mais dura em algum outro lugar do planeta. Talvez na Mongólia. A grande maioria daquelas pessoas nunca havia visto um cavalo quanto mais laptops, câmeras digitais e toda nossa parafernália high-tech. O Simon está desenvolvendo vários projetos por lá. Levando água potável para uma aldeia através de oito quilômetros de cano, construindo uma escola e estudando a viabilidade de plantar tâmaras usando tecnologia israelense. Deliberadamente, pagou aos extras o dobro do que se paga por dia a um trabalhador em Nairobi. Merecidamente, ele foi nomeado “ancião” e agora faz parte do conselho da aldeia. Deve voltar em setembro para ver como vão as obras que o filme está bancando.

Em nossa despedida, foi feita uma festa de arromba, com muito rock ’n roll e muita dança Samburu. Nossa presença foi o acontecimento mais marcante da história de Loyengalani nos últimos 40 anos. Quando sairmos com nossos caminhões e aviões na quarta que vem, eles voltam a mergulhar no esquecimento. E Loyengalani é um lugar perfeito para ser esquecido.

Fernando Meirelles

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