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2Coelhos
(2Coelhos)
108 minutos - Policial - 2012 (Brasil)
Data de Estreia no Brasil: 20/01/2012
Distribuidora: Imagem Filmes
Perto de completar 30 anos, Edgar vive uma crise existencial e se encontra entre dois mundos: de um lado está o poder, representado por um estado corrupto; do outro, o crime, cada vez mais organizado e poderoso. Edgar responde às pressões dessas realidades como um justiceiro moderno.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Afonso Poyart. Com: Fernando Alves Pinto, Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Marat Descartes, Neco Villa Lobos, Roberto Marchese, Norival Rizzo, Thogun, Thaíde, Yoram Blaschkauer, Robson Nunes, Aldine Muller.

É relativamente comum que diretores estreantes em longas busquem incluir ao menos um plano-sequência nestes seus primeiros trabalhos, numa espécie de afirmação do tipo “mamãe, sou cineasta!”. Pois em 2 Coelhos, o diretor Afonso Poyart resiste a esta tentação – mas só, já que cede a praticamente todas as outras, atirando ao longo da projeção todo tipo de efeito e recurso que provavelmente coletou na mente ao longo de anos por julgá-los “bacanas” em outros filmes. Com isso, acaba criando uma narrativa poluída e sem foco em sua linguagem, entregando-se a todo tipo de distração desnecessária. O mais curioso, portanto, é que seu filme se beneficie tanto de sua empolgação criativa que se mantenha como uma experiência repleta de energia que, mesmo sem ter muita coerência visual, ainda mantém o espectador interessado – e muito – no que está ocorrendo na tela.

Escrito pelo próprio diretor, o filme gira em torno de Edgar (Alves Pinto), cuja constante narração em off (e que funciona na maior parte do tempo, o que é raro) nos apresenta a uma série de personagens que se cruzam numa trama com tantas reviravoltas que me limitarei ao básico para não correr o risco de entregá-las: Júlia (Negrini) é uma funcionária da promotoria que, casada com o advogado Henrique (Villa Lobos), vaza informações para que este possa defender seu principal cliente, o bandido Maicom (Descartes). No entanto, quando provas irrefutáveis do envolvimento deste numa série de crimes são entregues misteriosamente ao promotor, Júlia sugere que subornem o deputado Jader (Marchese), que talvez possa ajudá-los. Determinado a roubar o dinheiro, Edgar ainda deve lidar com um incidente trágico do passado que o liga ao introspectivo Walter (Ciocler).

Determinado a criar uma obra com linguagem moderna e ágil, Poyart já inicia o filme com intervenções gráficas na tela que ilustram a narração do protagonista – mas assim como fará diversas vezes ao longo da projeção, logo abandona a ideia para investir em outros recursos narrativos. Com isso, 2 Coelhos inclui elementos de mockumentary (desconhecidos oferecem depoimentos sobre o protagonista), fantasia e até mesmo duas sequências nas quais Edgar surge num videogame, num momento provavelmente inspirado por A Praia. Da mesma maneira, a montagem (executada por nada menos do que três profissionais, incluindo o diretor) estabelece uma estrutura não-linear que frequentemente recorre a flashbacks para esclarecer ou revelar informações importantes, ao passo que, em menor escala, muitas vezes ignora raccords ou mesmo qualquer coerência para apostar em cortes abruptos que surpreendem e intrigam o público (como no instante em que Júlia entra em um elevador e subitamente vemos o bater acelerado de seu coração, numa forma eficaz e divertida de expor seu nervosismo).

Não que Poyart acerte sempre: se a sequência que traz Júlia correndo na praia em câmera lenta, ao som de uma canção cafona e com um beija-flor ao lado é certeira ao expor o ponto de vista emocional do narrador, menos justificável é acompanhar as crises de pânico da garota, que ganham corpo em cenas fantasiosas que poderiam ter saído de Sucker Punch e servem apenas como firula estilística, não como algo orgânico à narrativa (e o mesmo vale para o plano bobo que acompanha um comprimido entrando na boca da moça). Por outro lado, mesmo nestes instantes 2 Coelhos merece créditos pela boa realização dos efeitos e pela fotografia estilizada, que ao menos distinguem plasticamente estas atrapalhadas intervenções de um cineasta obviamente entusiasmado com o trabalho.

Enquanto isso, o diretor de fotografia Carlos Zalasik é hábil ao evocar de maneira rápida – especialmente considerando a energia excessiva de Poyart – a atmosfera dos diversos momentos da trama: percebam, por exemplo, como o rápido plano que retrata o início da carreira do deputado Jáder ilustra com agilidade o mundo sombrio no qual este mergulha ao ser eleito, ao passo que as sequências envolvendo Júlia na praia sugerem um raro momento de alegria num universo constantemente triste no qual todos parecem sempre tensos. Além disso, os planos em câmera lenta são rodados de maneira elegante, conferindo uma aura descolada à ação – e mais uma vez é possível perceber a influência de Zack Snyder sobre o diretor (e não, não sou um dos detratores do cineasta norte-americano, como fica claro em meus textos sobre Madrugada dos Mortos, 300, Watchmen e mesmo Sucker Punch, além de ser admirador também de A Lenda dos Guardiões). Ainda assim, é importante salientar que Zalasik segue a tendência aos excessos de Poyart, pecando na quantidade de flares (que deixariam J.J. Abrams feliz) e mesmo na rápida cena que apresenta o vilão Maicom, que inexplicavelmente surge num estilo que remete ao cinema do início do século passado, com direito a artefatos de fotografia e um tom sépia carregado.

Contando com um elenco que não traz um único elemento frágil, 2 Coelhos se beneficia da preparação de Fátima Toledo e da entrega de seus atores – e até mesmo a dicção preguiçosa de Fernando Alves Pinto, problemática em outros trabalhos, aqui serve bem a um personagem sempre seguro de seus planos. De forma similar, se já classifiquei Caco Ciocler como um “buraco negro de carisma” em certos filmes, ele aqui se apresenta como um intérprete capaz de sugerir todo o sofrimento de Walter sem praticamente abrir a boca, apenas através da expressão corporal rígida e do rosto sempre endurecido. E se Alessandra Negrini, linda, surge ao mesmo tempo como femme fatale e vítima das circunstâncias, numa composição intrigante e eficaz, Roberto Marchese transforma o deputado Jader numa figura cínica e ambiciosa com relativamente pouco tempo de tela (ainda assim, as ações de seu personagem no clímax são absolutamente implausíveis, o que, claro, não é culpa do intérprete). Fechando o elenco, Marat Descartes estabelece Maicom como um vilão realmente capaz de nos fazer temer pelo destino do(s) herói(s) sem jamais recorrer à caricatura ou ao histrionismo.

Experiência divertida e jamais entediante que certamente calará aqueles que alegam que o Brasil não é capaz de fazer um bom Cinema de gênero (afirmação que, além de tola e preconceituosa, é historicamente incorreta), 2 Coelhos nos apresenta a um diretor obviamente talentoso que precisa apenas de um pouco de autodisciplina para crescer. E agora que Poyart expulsou de seu sistema tudo aquilo que o empolgou em outros filmes, estou curioso para ver o que fará em seguida.

20 de Janeiro de 2012

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