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Transformers: A Era da Extinção
(Transformers: Age Of Extinction)
Ação - 2014 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 17/07/2014
Distribuidora: Paramount Pictures
Autobots e Decepticons entram novamente em confronto depois que um mecânico e sua filha fazem uma descoberta que pode abalar o universo.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Michael Bay. Roteiro de Ehren Kruger. Com: Mark Wahlberg, Nicola Peltz, Jack Reynor, Kelsey Grammer, Stanley Tucci, Titus Welliver, T.J. Miller, Thomas Lennon, Sophia Myles, Bingbing Li e as vozes de Peter Cullen, John Goodman, Ken Watanabe, Robert Foxworth, Mark Ryan e Frank Welker.

Transformers: A Era da Extinção é o que Círculo de Fogo teria sido caso houvesse sido dirigido por alguém com o Q.I. do garotinho tocador de banjo de Amargo Pesadelo. O melhor que posso dizer a respeito deste trabalho de Michael Bay é que ele existe – e também o pior. Com 165 minutos de duração, esta continuação não é apenas um comercial disfarçado de filme (e como há merchandising nesta coisa), mas um vômito em forma de película, já que nada mais é do que uma regurgitação horrorosa de refeições há muito ingeridas e que agora, misturadas ao ácido estomacal que é a “sensibilidade artística” de Bay, são atiradas de volta ao mundo na esperança de que as devoremos mais uma vez. Trata-se de um produto (não há outro nome para isso) tão desagradável que posso dizer que não vi Transformers 4, mas sobrevivi a ele.

Escrito por Ehren Kruger usando a mesma técnica dos macacos que, ameaçados, arremessam as próprias fezes em seus inimigos (no caso, os espectadores), A Era da Extinção conta uma história que é menos história do que uma colagem de sequências de ação cujo único propósito é permitir que Bay orquestre explosões, travellings circulares e explore as curvas de suas atrizes enquanto Mark Wahlberg surge durão (ops) em cena. A trama é tola a ponto de não fazer sentido mesmo sendo simplória, mas isto não é problema, já que os personagens são tão unidimensionais que seus cérebros planos se mostram incapazes de registrar a falta de lógica das próprias ações. Aliás, o filme como um todo é tão cego diante da própria estupidez que, em certo ponto, um personagem diz que as superproduções de hoje em dia se resumem a “continuações e refilmagens”, sendo uma “porcaria” – e é sintomático que Bay e Kruger acreditem estar fazendo uma piada em vez de descrevendo a bomba que estão realizando.

Mas o que esperar de alguém que parece acreditar que uma “história” como a de Transformers 4 exige 165 minutos para ser contada, confundindo os conceitos de “mais filme” com o de “melhor filme”? Aliás, é espantoso que algo tão barulhento e cheio de explosões e efeitos visuais como este A Era da Extinção possa ser também tão entediante – e ver Bay tentando criar algum tipo de relevância temática ao usar os alienígenas como metáfora de imigrantes ilegais é quase comovente em sua patetice. Chega a ser divertido, na verdade, testemunhar o cineasta tentando falar como gente grande, mas sem ter ideia do que significa ser adulto ou mesmo sem ser capaz de ligar duas sentenças numa ideia coesa: “O problema de gastar tempo numa causa é que ela sempre te trairá”, alguém diz em certo ponto da projeção – e quase conseguimos ouvir Michael Bay, por trás da tela, gritando um “Yes!” diante da força de uma frase que só faz sentido caso a percepção que o ouvinte tem de História ou Filosofia seja rasa como a do diretor. Assim, quando outro personagem resolve discutir o que “significa ser um ser humano”, confesso que me surpreendi num misto de temor diante da besteira que viria a seguir e de excitação contida por saber que provavelmente estaria rindo dentro de alguns segundos.

Porque há risos em Transformers 4 – mas todos não intencionais, já que os momentos que Bay parece considerar divertidos são apenas tolos ou ofensivos, já que ele parece enxergar o mundo apenas em tons de estereótipo, como ao trazer uma agente imobiliária que, negra, gesticula muito, fala gritando e parece encarnar uma caricatura mais apropriada a uma daquelas comédias já esquecidas da década de 80. Além disso, como o personagem insuportável de T.J. Miller comprova, o cineasta constantemente confunde “graça” e “chatice” – e nunca é um bom sinal quando você torce desesperadamente para que o suposto alívio cômico de uma narrativa morra dolorosamente o mais cedo possível.

Em contrapartida, se não liga muito para o desenvolvimento de sua narrativa, Michael Bay demonstra cuidado quase autoral na maneira com que lida com a figura feminina: logo no início, sem razão alguma, se concentra em duas modelos que atravessam a rua de uma pequena cidade e, mais tarde, apresenta outras três figurantes em um plano que se concentra em mostrá-las apenas da cintura para baixo. E se poderíamos esperar um pouco de moderação no que diz respeito à personagem de Nicola Peltz, que é apresentada como uma moça de 17 anos de idade (e, portanto, menor), isto logo é descartado quando dois homens a chamam de “gostosa” já nos primeiros 15 minutos e, mais tarde, quando percebemos que ela usará shortinhos curtos na maior parte da projeção. E não é um acaso que, em determinado ponto, alguém descreva uma marca como sendo “Erótica, mas fatal – como as mulheres”, já que isto basicamente descreve a visão de adolescente machista com que o diretor enxerga o sexo oposto.

Mas se Bay é eficiente ao transformar suas atrizes em meros objetos de cena, acaba falhando em usar Peltz como recurso dramático – e mesmo que o clichê da “mocinha em perigo” seja antigo como o próprio Cinema e seja um dos mais óbvios, o cineasta se mostra incapaz de empregá-lo com o mínimo de eficiência, já que, por mais que Mark Wahlberg soque o chão em câmera lenta enquanto a filha é sequestrada, ninguém na plateia se importa de fato com o destino da garota. Aliás, ninguém na plateia se importa com o destino de quem quer que seja naquele universo graças, justamente, à falta de empatia que Bay demonstra para com qualquer ser humano, parecendo achar divertidíssimo quando várias pessoas quase morrem esmagadas em um restaurante (algo que ele filma como se fosse uma gag) e evitando mostrar qualquer uma das milhares de mortes que obviamente ocorrem ao longo da projeção, já que isto o impediria de retratar um robô soltando um engraçadinho “Oh-oh!” após provocar outro pequeno massacre entre os vários vistos no filme.

Igualmente espantoso é notar como, mesmo depois de décadas, o cineasta demonstra não ter aprendido o básico da profissão (divide esta característica com Kevin Smith, vale apontar): incapaz de estabelecer a geografia das cenas e construir sua mise-en-scène com qualquer resquício de inteligência, Bay atira um plano atrás do outro sem parecer se importar com a ordem, a frequência ou a duração de cada um, torcendo para que a rapidez dos cortes impeça o espectador de notar como nada faz sentido espacialmente. Assim, quando os heróis são perseguidos por vilões humanos e robóticos, a sequência simplesmente chega ao fim quando os primeiros entram em um caminhão e se afastam, deixando de ser perseguidos por alguma razão que apenas o diretor conhece. Da mesma forma, a fascinação de Bay pela (bela) luz do fim do dia é tamanha que em Transformers 4 o sol parece estar sempre se pondo – algo que, pelo que pude perceber, ocorre cerca de 15 vezes ao dia naquele universo (e há um momento no qual vemos um helicóptero decolar e chegar ao seu destino sempre com o sol ao fundo, prestes a desaparecer).  

Por outro lado, é uma pena que a beleza desta luz não seja refletida no design de produção, que cria máquinas não apenas feias e desajeitadas como incompatíveis com o propósito que aparentam exercer, já que é impossível acreditar que um carro de tamanho normal se transforme em um robô de cinco metros de altura, por mais que os efeitos visuais executem a transição de forma rápida e incompreensível. (E nem vou comentar o fato de que aqueles robôs tossem e parecem respirar, já que não quero perder tempo imaginando como funcionariam seus pulmões metálicos e suas hemácias com excesso de ferro.) Ainda assim, talvez o design horroroso não seja o pior dos problemas de A Era da Extinção, já que o filme também peca pela obviedade com seus vilões sempre vestidos de preto, personagens asiáticos que subitamente se mostram (claro) especialistas em artes marciais e robôs que, mesmo vindos de uma civilização avançada, só se comunicam em clichezês. (Isto quando não insistem em se apresentar de maneira megalomaníaca: “Eu sou Optimus Prime!”, “Eu sou Galvatron!” e por aí afora.) Aliás, Bay é um diretor tão óbvio que, quando vi um barco repleto de lençóis pendurados em suas laterais, já sabia que ele simularia um movimento de câmera através de uma lacuna nos tecidos – e ele não me desapontou.

Parecendo ser a mera transcrição visual da imaginação de uma criança de cinco anos brincando com seus bonecos no quarto, Transformers 4 é longo, repetitivo, não faz qualquer sentido e acaba entediando os adultos depois da primeira hora – algo incrível se considerarmos que faz até a imagem de um robô sobre um dinossauro de metal soar aborrecida.

Se a goleada vergonhosa que o Brasil tomou de 7 a 1 na última Copa fosse um filme, seria Transformers 4 – e eu preferiria ver o VT daquela partida duas vezes do que ter que assistir a esta atrocidade novamente.

18 de Julho de 2014

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