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Embriagado de Amor
(Punch-Drunk Love)
95 min - Comédia - 2003 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 16/05/2003
Data de Estreia Original: 05/10/2002
Um homem com medo de amar se apaixona por uma mulher misteriosa. Para chegar até sua amada, ele deve viajar para o Havaí, mas acaba sendo perseguido por uma quadrilha de mafiosos.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Paul Thomas Anderson. Com: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán e Mary Lynn Rajskub.

Quem acompanha meus artigos há algum tempo já sabe que não gosto de Adam Sandler. Intérprete limitado e dono de um senso de humor grosseiro, o ex-integrante do Saturday Night Live já bombardeou o mundo com atrocidades como O Paizão e O Rei da Água, alcançando um sucesso absolutamente inexplicável nas bilheterias americanas. Por outro lado, sempre fui fã incondicional da obra do cineasta Paul Thomas Anderson, responsável por maravilhas como Boogie Nights e Magnólia. Assim, quando o diretor anunciou que iria comandar uma produção estrelada por Sandler, confesso que fiquei decepcionado: com tantos atores talentosos espalhados pelo planeta, por que ele tinha que escolher justamente o astro de Little Nicky - Um Diabo Diferente?

Felizmente, eu estava errado ao subestimar o gênio de Anderson: Embriagado de Amor não apenas é mais um ótimo exemplar de sua filmografia, como ainda traz Adam Sandler em uma performance impressionante – algo em que eu jamais poderia acreditar. Neste filme, ele interpreta Barry Egan, um empresário introspectivo que sente-se sufocado por suas sete irmãs mais velhas. Inseguro e solitário, ele resolve ligar para um serviço de tele-sexo, mas, para seu terror, começa a ser chantageado pela garota com quem conversou, que coloca uma quadrilha em seu encalço. Enquanto tenta resolver a situação, Barry descobre uma brecha em uma campanha promocional de uma fábrica de enlatados – algo que pode lhe render passagens aéreas gratuitas por toda sua vida. Para complicar ainda mais, o rapaz se envolve com Lena Leonard (Watson), amiga de uma de suas irmãs.

Por incrível que pareça, o que torna Adam Sandler perfeito para o papel é seu histórico de personagens: em praticamente todos os seus filmes, o comediante interpreta indivíduos emocionalmente imaturos que se entregam a ataques de cólera. E, embora isso jamais tenha funcionado em suas comédias (especialmente em função dos péssimos roteiros), a persona cinematográfica de Sandler era mais do que adequada para dar vida à Barry Egan, um sujeito incapaz de socializar com a própria família e que, vez por outra, se vê compelido a quebrar tudo o que vê pela frente numa tentativa de sublimar toda a sua frustração e sua tensão. Mergulhando em crises de ansiedade simplesmente ao ser obrigado a conversar com desconhecidos, Barry conversa com um tom de voz contido, quase sussurrado, como se não quisesse ser ouvido (ou como se tivesse medo de perder o controle sobre si mesmo).

Sem saber se suas dificuldades sociais são uma aberração, o empresário experimenta um verdadeiro sentimento de auto-rejeição: `Eu não gosto de mim mesmo, às vezes`, ele diz, em certo momento. `Eu não sei se há algo de errado comigo, pois não sei como as outras pessoas são`. Para tornar tudo pior, suas raras tentativas de confidenciar seus receios resultam em desastre, como o já citado telefonema para o serviço de tele-sexo e uma conversa que ele tem com o cunhado. Acrescentando pequenos toques chaplinianos ao personagem (observe seu modo de caminhar nas duas cenas em que ele pode ser visto se afastando da câmera), Adam Sandler transforma Barry em um indivíduo surpreendentemente real e complexo. Poderíamos nos perguntar, por exemplo, se a esperança do personagem reside em encontrar alguém que o ame ou alguém a quem ele possa amar. Seja como for, a resposta reside, obviamente, em Lena – e Paul Thomas Anderson deixa isso claro ao colocar uma placa de `Saída` ao lado da porta do apartamento da moça.

Aliás, assim como já havia feito em Magnólia, o cineasta (e roteirista) transforma Embriagado de Amor em um filme repleto de simbolismos: logo nos primeiros minutos de projeção, por exemplo, ele nos surpreende com um acidente de carro que pode perfeitamente ser interpretado como uma metáfora da própria vida desgovernada de Barry – e não é à toa que, segundos depois, o rapaz encontra um piano abandonado perto de sua porta, carregando-o para seu escritório. Em um primeiro impulso, poderíamos assumir que a atitude de Barry é um reflexo de sua tentativa de trazer a música (leia-se: a alegria de viver) para seu dia-a-dia. Porém, creio que poderíamos ir mais além e afirmar que o piano simboliza a própria Lena. Senão vejamos: assim como seu envolvimento com a garota, o instrumento surge de maneira súbita em sua vida (e na mesma manhã em que ele conhece a moça); ambos (o piano e Lena) apresentam problemas com os quais o sujeito não sabe lidar a princípio; e, com o tempo, ambos se tornam suas `válvulas de escape`. Da mesma forma, os mosaicos de cores que constantemente surgem na tela me fizeram pensar no tumulto emocional do protagonista. (Para que não pareça que tudo é complicado, também devo citar a cena em que Barry liga para Lena de um telefone público: no instante em que a voz da garota é ouvida, uma luz se acende no aparelho, numa menção óbvia à importância deste relacionamento para o rapaz.)

Mesmo sem utilizar movimentos de câmera complexos, como em seus dois últimos trabalhos, Paul Thomas Anderson prova, mais uma vez, ser dono de uma estética impecável: seus enquadramentos são sempre elegantes e – o que é mais importante – reveladores. Em certo momento, por exemplo, ele mostra Sandler sentado à cabeceira de uma mesa e, na outra extremidade do móvel, vemos os restos do jantar do sujeito, evidenciando a solidão em que este vive. Momentos depois, enquanto Barry utiliza o serviço de tele-sexo, o cineasta recria um dos movimentos de câmera mais famosos de Taxi Driver e se afasta do rapaz enquanto este mantém sua patética conversa com a garota, como se o próprio espectador estivesse desviando o olhar para não testemunhar aquela cena constrangedora. Além disso, Anderson mais uma vez utiliza longas tomadas para ilustrar o desconforto de Barry ao ser confrontado por uma de suas irmãs – algo que é realçado pela eficaz trilha sonora de Jon Brion, que agride nossos ouvidos com sua cacofonia de acordes altos e inquietantes.

Complementando as ótimas escolhas do diretor vem a curiosa música He Needs Me, originalmente cantada por Shelley Duvall em Popeye: com sua letra ingênua (`Pela primeira vez na vida/ Eu finalmente senti/ Que alguém precisava de mim`) e a interpretação delicada da atriz, a canção transforma-se em uma celebração infantil (e, portanto, pura) do amor, tornando-se perfeita no contexto em que é utilizada.

Representando uma passo diferente nas carreiras de Paul Thomas Anderson e Adam Sandler, Embriagado de Amor é um trabalho estranho, mas instigante. E Sandler pode até não se revelar um ator versátil, já que repete o mesmo tipo de seus trabalhos anteriores, mas dificilmente algum outro intérprete poderia preencher o filme como ele.

Jamais fiquei tão feliz por ter errado uma previsão.
``

14 de Maio de 2003

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