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O Último Samurai
(The Last Samurai)
154 min - Ação - 2004 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 16/01/2004
Data de Estreia Original: 05/12/2003
Um soldado norte-americano é recrutado para treinar o exército japonês do século 19 na luta contra os samurais. No entanto, ele é capturado pelos guerreiros e acaba se unindo a eles.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Edward Zwick. Com: Tom Cruise, Ken Watanabe, Billy Connolly, William Atherton, Tony Goldwyn, Masato Harada, Shichinosuke Nakamura, Togo Igawa, Hiroyuki Sanada, Koyuki e Timothy Spall.

O Último Samurai esteve bem perto de ser um grande filme. Infelizmente, depois de encantar o espectador com dois primeiros atos fascinantes, o longa se perde completamente em seu último ato, desperdiçando todo o belo trabalho que vinha fazendo até então. Chateado por ver uma produção tão ambiciosa derrapar de forma tão absurda, encontrei a resposta para o colapso do projeto ao ler, nos créditos finais, o nome de um roteirista a quem aprendi a temer nos últimos anos: John Logan.

Quem acompanha meu trabalho há algum tempo já deve saber que considero Gladiador, escrito por Logan, um filme medíocre. No entanto, mesmo quem gostou daquela produção dificilmente poderá defender outras grandes bombas concebidas pelo sujeito: Morcegos, Jornada nas Estrelas: Nêmesis (o pior de toda a série), a refilmagem de A Máquina do Tempo e, é claro, Sinbad: A Lenda dos Sete Mares. Especialista em diálogos recheados de lugares-comuns e em situações maniqueístas que procuram comover o espectador a todo custo, John Logan já deveria ter sido expulso de Hollywood há muito tempo – isto é, caso não representasse justamente tudo aquilo que os executivos dos grandes estúdios parecem adorar. É claro que parte da culpa poderia ser atribuída aos co-roteiristas de O Último Samurai, Marshall Herskovitz e Edward Zwick, mas as manchas no currículo de Logan indicam que eu provavelmente estaria sendo injusto com seus colegas.

Ambientada no final da década de 1870, a história acompanha a jornada de Nathan Algren, um veterano capitão da Guerra Civil americana que, em tempos de paz, tenta esquecer, através da bebida, as crueldades que testemunhou (e cometeu). Contratado por um ministro japonês para treinar o exército nipônico, Algren viaja para o Oriente e descobre que seus pupilos terão que enfrentar um grupo de samurais. Obrigado a partir para o ataque antes de concluir o treinamento, o militar acaba sendo capturado pelos inimigos, passando vários meses sob o poder destes – e, neste período, conhece o modo de vida dos samurais e se torna cada vez mais próximo do líder do grupo, o sábio Katsumoto.

Vivido com competência por Tom Cruise, Algren é um homem com tendências auto-destrutivas – o que, por si só, já o torna uma figura interessante (para provar que seus homens não estão prontos para o combate, ele força um soldado a disparar em sua direção). Depois de aprisionado, o sujeito demora a se recuperar não apenas em função de seus ferimentos, mas principalmente graças à abstinência forçada de álcool, o que não deixa de surpreender seus captores. Profundo estudioso de estratégias de guerra (o que também contribui para torná-lo fascinante – veja Patton, por exemplo), Algren jamais estabeleceu relações profundas com quem quer que seja, e, assim, sua permanência compulsória na vila dos samurais acaba levando-o a se aproximar destes – e o filme desenvolve sua ligação com os antigos inimigos de forma natural e sensível: torna-se fácil, para o espectador, compreender o apelo daquele lugar e, quando percebemos, já nos importamos com o destino de todas aquelas pessoas - principalmente de Katsumoto, que se revela um líder admirável, já que combina sensibilidade e inteligência com bravura e confiança em seus próprios instintos (e Ken Watanabe exibe um imenso carisma, jamais deixando-se ofuscar pela forte presença de Tom Cruise).

Tecnicamente irrepreensível, O Último Samurai faz uma bela reconstituição de época, utilizando os efeitos visuais para compor o horizonte das cidades vistas ao longo da projeção. Contando, ainda, com os ótimos figurinos de Ngila Dickson (também responsável pela trilogia O Senhor dos Anéis), o filme possui uma fotografia de tirar o fôlego, e que naturalmente abusa dos planos em contraluz nos quais podemos divisar o céu avermelhado demarcando a silhueta dos personagens (uma imagem clássica das produções situadas na `terra do Sol nascente`).

É uma pena, portanto, que uma equipe tão talentosa tenha seus esforços subjugados pelo roteiro de John Logan (que também é o responsável pelo argumento, obviamente inspirado no maravilhoso Dança com Lobos – além de também ser veterano da Guerra Civil, o personagem de Cruise chega mesmo a manter um diário parecido com o do tenente Dunbar). Ao longo dos dois primeiros atos, fiz algumas pequenas ressalvas com relação a certas questões: a todo momento, por exemplo, alguém citava a `ameaça` representada pelos samurais, mas estes jamais aparecem fazendo algo ameaçador. Além disso, se Katsumoto preocupava-se tanto em manter as velhas tradições, por que sua dedicação em aprender inglês, um símbolo do avanço do Ocidente sobre o Oriente? Ainda assim, preferi ignorar tais questionamentos, já que o relacionamento entre os personagens vinha se mostrando tão encantador.

Mas não consegui manter esta postura por muito tempo, já que, a partir do terceiro ato, o roteiro se entrega totalmente às convenções, trocando a verdade e a força de seus personagens pela segurança do maniqueísmo e da fórmula pronta, passando a dedicar-se ao esforço de arrancar lágrimas do espectador. Uma das seqüências finais, em particular, chega a ser irritante de tão artificial, já que oferece uma `punição` totalmente inverossímil a um dos vilões ao mesmo tempo em que tenta redimir a figura do Imperador (que, apesar disso, acaba sendo visto como um idiota impulsivo). E a batalha entre os samurais e o exército japonês pode até ser grandiosa, já que é orquestrada com eficiência por Edward Zwick (que certamente aproveitou a experiência obtida em Tempo de Glória), mas não alcança o tão esperado impacto emocional desejado pelo roteiro, já que se torna implausível demais.

É como se, envergonhado pela falta de integridade artística de John Logan, o próprio filme houvesse decidido praticar o haraquiri a 50 minutos do final da projeção. E, a partir dali, o público ficou entregue a um pálido fantasma da forte história que vinha acompanhando desde então.
``

18 de Janeiro de 2004

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