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O Pagamento
(Paycheck)
119 min - Ação - 2004 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 12/03/2004
Data de Estreia Original: 25/12/2003
Um engenheiro de computação perde parte de sua memória e começa a coletar pistas sobre seu paradeiro nos últimos três anos.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por John Woo. Com: Ben Affleck, Uma Thurman, Aaron Eckhart, Paul Giamatti, Colm Feore, Joe Morton, Michael C. Hall, Peter Friedman, Kathryn Morris.

Philip K. Dick, um dos mais imaginativos autores de ficção científica do século XX, sempre demonstrou grande facilidade em conceber cenários assustadores nos quais a humanidade (ou um determinado indivíduo) se tornava vítima de suas próprias invenções – um elemento recorrente em sua obra é, sem dúvida, o papel ameaçador representado pela evolução tecnológica, seguindo a velha (mas sempre interessante) corrente do `homem X máquina`. Outro tema sempre presente nos textos do escritor é a impessoalidade presente nas relações entre a sociedade e as grandes empresas, que geralmente se transformam em vilãs determinadas a massacrar o homem comum (o herói). Em Blade Runner, os replicantes, em sua luta contra a `morte`, voltavam-se contra seus criadores; em Minority Report, o sistema de prevenção de crimes acabava sendo utilizado para prejudicar um de seus oficiais; e, neste recente O Pagamento, um sujeito especializado em engenharia reversa se torna alvo da nova tecnologia que desenvolveu.

Antes de mais nada, o que é engenharia reversa? É o que sua própria designação indica: em vez de desenvolver um projeto a partir do nada, os profissionais do meio trabalham `de trás para frente`, pegando um produto já existente e `dissecando-o` até compreenderem seu funcionamento – e, em seguida, efetuando pequenas modificações que permitirão seu relançamento como algo `novo`, melhorado. Em outras palavras: a engenharia reversa (que realmente existe) está intrinsecamente relacionada à espionagem industrial.

Interpretado por Ben Affleck, Michael Jennings é um dos profissionais mais requisitados em seu campo de atuação, e por bons motivos: além de trabalhar com extrema rapidez e eficiência, o sujeito ainda oferece uma garantia extra para seus empregadores, que podem temer que ele acabe revelando o que fez: depois de cada trabalho, Jennings aceita ter sua memória apagada de forma seletiva, eliminando quaisquer traços de suas lembranças relativas ao período de suas `pesquisas` mais recentes. Normalmente, isto envolve todas as recordações de seus últimos dois meses de vida, que para o rapaz simplesmente deixam de existir. Porém, tudo se torna mais complicado quando Michael recebe uma proposta milionária para trabalhar em um projeto que irá consumir nada menos do que 3 anos – que também terão que ser apagados posteriormente. Infelizmente, depois deste período, ele descobre que não apenas abriu mão de toda a fortuna que recebera como ainda constata que está sendo perseguido pelo FBI e por assassinos contratados por uma grande corporação. Para tentar compreender o que está acontecendo, Jennings conta apenas com um envelope (enviado por ele mesmo) que contém 19 estranhos itens, como spray de cabelo, clipe, uma moeda e um recorte de jornal com palavras cruzadas.

À medida em que percebe que cada objeto deverá ser utilizado em momentos específicos de sua jornada, o engenheiro deduz que, antes de perder a memória, havia previsto o futuro e a necessidade daqueles itens – algo parecido com o que ocorria na excepcional seqüência do shopping, em Minority Report, na qual a personagem de Samantha Morton ajudava Tom Cruise a escapar de seus perseguidores. É claro que podemos nos perguntar: por que, em vez de deixar pistas e objetos enigmáticos, Michael não incluiu no envelope uma carta (mesmo que em código) que esclarecesse o que estava ocorrendo? A resposta é simples: porque, neste caso, não teríamos o filme – e o fato é que é divertido ver o herói buscando, dentro do envelope, as soluções para seus problemas.

Ambientada num futuro indefinido, O Pagamento compartilha várias `tecnologias` com Minority Report: em certo momento, Michael move os dados em uma tela de computador com as mãos, assim como John Anderton, policial vivido por Cruise, fazia naquele filme; e uma de suas primeiras `invenções` na história é apresentada através da projeção holográfica de uma bela mulher (exatamente como a esposa de Anderton. Aliás, a atriz Kathryn Morris, que interpretava Lara Anderton, aparece nesta seqüência, o que não deixa de ser curioso). Por outro lado, a tecnologia utilizada para apagar a memória de Michael é tão primitiva que chega a ser espantoso que ele se submeta ao processo: em certo instante, logo no início da trama, ele quase morre apenas porque alguém esbarrou no laptop no qual o programa estava funcionando. Equipamento sensível, não?

Infelizmente, o roteirista Dean Georgaris (que já havia cometido Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida) eventualmente decide ignorar a ótima premissa concebida por Philip K. Dick e opta por mergulhar o filme em uma série de seqüências de ação que o igualam a tantos outros longas do gênero. E o que é pior: Michael, que inicialmente é retratado como um engenheiro comum, logo se revela um verdadeiro James Bond, sendo capaz de pilotar motos em alta velocidade, enfrentar vários bandidos simultaneamente e disparar armas de fogo com grande precisão. Da mesma forma, a bióloga vivida por Uma Thurman parece se beneficiar dos treinamentos da atriz para Kill Bill, já que se mostra igualmente apta a enfrentar seus inimigos.

Mas o mais triste é perceber que John Woo, um veterano dos filmes de ação, parece estar mesmo perdendo sua capacidade de surpreender o espectador – algo que já começara a ficar patente no fraco Códigos de Guerra. Aliás, até mesmo suas marcas registradas, como os pombos e as seqüências em câmera lenta, parecem ter se transformado apenas em uma forma de preencher o tempo de projeção. Observem, por exemplo, os famosos duelos em que dois ou mais personagens se confrontam apontando suas armas uns para os outros: em A Outra Face e Fervura Máxima, havia um motivo para que estes duelos ocorressem, o que aumentava a tensão da cena. Em O Pagamento, no entanto, estes momentos ocorrem de forma aleatória e inexplicável, já que os envolvidos sequer disparam suas armas. Para piorar, as brigas (que já são chatas por natureza) soam cansativas e entediantes – o mesmo se aplicando aos (vários) tiroteios. O único instante em que Woo parece resgatar sua antiga engenhosidade é aquele que envolve um braço mecânico, mas, infelizmente, a cena é curta demais para fazer algum efeito.

Sem aproveitar o talento de Paul Giamatti, que mais uma vez se vê relegado ao papel de coadjuvante cômico, O Pagamento desperdiça uma ótima idéia em prol da ação descerebrada. É uma pena que a tal máquina vista no filme não exista de verdade, pois creio que os diretores de Hollywood talvez se tornassem mais ambiciosos artisticamente caso pudessem ver, de antemão, os resultados desastrosos das produções realizadas no piloto automático.
``

11 de Março de 2004

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