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O Matador
(The Matador)
96 min - Policial - 2006 (Estados Unidos, Alemanha, Irlanda)
Data de Estreia no Brasil: 10/03/2006
Data de Estreia Original: 16/11/2005
Um assassino profissional enfrenta problemas quando vai ao México atrás de sua última vítima.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Richard Shepard. Com: Pierce Brosnan, Greg Kinnear, Hope Davis, Philip Baker Hall, Adam Scott, Dylan Baker.

 

Embora radicalmente diferente em tom e abordagem, O Matador divide com filmes como Débi e Lóide e Os Excêntricos Tenenbaums uma estrutura parecida: em vez de se concentrarem em tramas bem definidas, estas comédias apostam na simples interação de seus personagens como fonte suficiente de risos. Assim, a graça (mesmo que melancólica, como em Tenenbaums) resulta não da história, mas da dinâmica entre indivíduos com personalidades diferentes enquanto atravessam várias situações.

           

Aqui, por exemplo, tudo o que precisamos saber é que Julian Noble (Brosnan) é um experiente assassino profissional que, durante uma viagem ao México, conhece o pacato Danny Wright (Kinnear), que está no país para fechar um negócio fundamental para seu futuro, e que os dois tornam-se amigos. Pronto. A partir daí, o roteiro do também diretor Richard Shepard simplesmente acompanha o relacionamento dos dois homens, que, embora completamente diferentes, não conseguem deixar de sentir uma imensa curiosidade a respeito um do outro: Julian, sentindo-se solitário, admira a estabilidade do novo amigo, que é casado há 14 anos com uma antiga colega de escola; e Danny, por sua vez, mostra-se morbidamente fascinado com a profissão de Julian. Juntos, eles passarão por uma série de imprevistos que poderão intensificar a atípica amizade ou destruí-la de uma só vez.

           

Embora não se passe em uma dimensão alternativa ou em outro planeta, a história de O Matador é claramente ambientada em um universo particular, no qual uma gigantesca árvore despencar sobre uma cozinha é algo a ser recebido com uma brincadeira casual, e não com pânico ou frustração. Observem, por exemplo, como em vários momentos o direção de arte do filme investe em cores fortes e chapadas (amarelo, rosa, azul, verde) e como a fotografia cria, através de ângulos e lentes específicos, uma deformação incômoda no rosto dos atores (um recurso bastante apreciado por Terry Gilliam, que o utilizou notadamente em longas como Medo e Delírio e Os 12 Macacos): associados à trilha sonora farsesca e à montagem ágil, estes elementos ajudam a salientar a extravagância das situações e dos personagens, deixando claro, para o público, que qualquer absurdo pode acontecer a qualquer momento.

           

Enquanto isso, Pierce Brosnan (com um bigodinho canalha divertidíssimo) e Greg Kinnear estabelecem uma forte química em cena, repetindo uma dinâmica semelhante à de Peter Falk e Alan Arkin no ótimo Um Casamento de Alto Risco, de 1979, no qual a imprevisibilidade do primeiro (um agente secreto) quase levava o segundo (um dentista) à loucura. Aliás, Kinnear faz um belíssimo trabalho ao trazer o espectador para dentro da história graças à identificação irresistível que sentimos com relação ao seu personagem – e suas reações frente às ações de Julian Noble soam sempre perfeitamente lógicas e naturais. Além disso, o ator confere um inegável ar de tristeza a Danny, evidenciando a frustração que este sente com relação à própria vida (e sua decisão de copiar o bigode do assassino não apenas funciona como piada, mas também como um sinal de suas aspirações pessoais).

           

Já Pierce Brosnan oferece, aqui, um dos melhores desempenhos de sua carreira: ao mesmo tempo em que exala segurança como matador profissional (ao menos, na primeira metade da projeção), ele revela, para o público, uma faceta de vulnerabilidade e tristeza que nos leva a simpatizar com aquele homem declaradamente cruel e violento – uma proeza que se torna ainda maior quando consideramos que, apesar de tudo isso, Julian jamais deixa de ser engraçado, o que (obviamente) é fundamental em uma comédia. Carismático e sem um pingo de vaidade (em certo instante, ele diz: “Eu pareço uma prostituta de Bangkok em uma manhã de domingo, logo depois que a Marinha deixou a cidade.”), Brosnan nos faz esquecer de 007 já em suas primeiras cenas, transformando Julian Noble em uma figura sempre convincente. Observem, por exemplo, sua hesitação no momento em que Danny pergunta sua profissão e certamente perceberão a mente do personagem analisando furiosamente se deve ou não se abrir para aquele indivíduo simpático, mas desconhecido.

           

Por outro lado, o roteiro de Shepard se arrisca mais do que deveria ao incluir um elemento no passado de Danny (a morte do filho) que, apesar de contribuir para tornar o personagem mais complexo, acaba se revelando pesado demais para uma produção cujo objetivo é provocar o riso. A cena em que Danny e sua esposa Bean (Hope Davis, sempre uma gracinha) conversam sobre a tragédia é tocante e eficiente – mas é interrompida de forma brusca justamente pela necessidade de Shepard em retomar o fio da meada e reintroduzir o personagem-título na trama. Além disso, a frouxa estrutura do roteiro, com seus atos equivocadamente distribuídos (o filme basicamente tem duas partes), deixa a impressão de que o filme chega ao fim de maneira súbita, mal resolvida – o que certamente frustrará muitos espectadores.

           

Não há dúvida de que os personagens de O Matador são interessantes e divertidos. O que faltou, aqui, foi uma história melhor que os apresentasse e desenvolvesse de maneira mais eficiente. Às vezes (e ao contrário dos dois filmes citados no início deste texto), isso faz mesmo falta.
``

 

11 de Março de 2006

 

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