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Refém de uma Vida
(The Clearing)
95 min - Ação - 2004 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 26/11/2004
Data de Estreia Original: 02/07/2004
Um executivo de sucesso é sequestrado por um funcionário disposto a tudo, obrigando sua esposa a negociar o resgate.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Pieter Jan Brugge. Com: Robert Redford, Helen Mirren, Willem Dafoe, Alessandro Nivola, Melissa Sagemiller, Wendy Crewson, Matt Craven.

Há dois bons filmes em Refém de uma Vida, estréia na direção do produtor holandês Pieter Jan Brugge: um deles gira em torno de Wayne Hayes (Redford), rico homem de negócios que, certa manhã, é seqüestrado quando se dirigia ao trabalho e que passa a disputar um jogo psicológico de gato-e-rato com seu captor, o inseguro Arnold Mack (Dafoe). Já o `segundo` filme lida com as repercussões de seu desaparecimento sobre sua família, especialmente sua solitária esposa, Eileen (Mirren), com quem é casado há mais de 30 anos.

Escrito pelo também estreante Justin Haythe, o roteiro dedica-se a estudar seus personagens e em retratar suas trajetórias emocionais ao longo do tempo, concentrando-se em suas conversas e na exposição de seus sentimentos e memórias. Pouco `cinematográficas` (leia-se: nada `sensacionais`), estas conversas beiram o corriqueiro, tornando-se interessantes justamente por soarem reais – em circunstâncias semelhantes, não é difícil imaginar alguém falando as mesmas coisas.

Contando com o peso dramático da figura de Robert Redford, Refém de uma Vida beneficia-se da bagagem artística do ator: claramente envelhecido (ele já manifestou publicamente sua rejeição às cirurgias plásticas), Redford `utiliza` as rugas e manchas em seu rosto para conferir maior dimensão ao personagem: ali está um homem com uma longa história de vida, e não uma estrela de Cinema com a face petrificada por injeções de Botox ou excesso de corta-puxa-estica. Assim, ainda que imponente, a presença do veterano ator não impede a identificação com o espectador, que acredita no casamento entre aquelas duas pessoas de idade mais avançada, Wayne e Eileen (aliás, tudo o que falei sobre Redford se aplica também a Helen Mirren, que, apesar de ainda bela – vide As Garotas do Calendário -, não esconde a idade).

Enquanto isso, Willem Dafoe evita a armadilha de transformar o seqüestrador em um simples vilão ao salientar as motivações do personagem em passar para o outro lado da lei. Arnold é um sujeito patético que sempre levou uma vida de sofrida mediocridade – e é impossível deixar de comover-se ao ouvi-lo descrever sua casa como sendo um `lar de pessoas desapontadas`. Exibindo orgulho incontido ao obter pequenas vitórias em seus duelos verbais com Wayne (como, por exemplo, ao revelar tudo o que sabe sobre seu prisioneiro), Arnold é, talvez, o indivíduo mais complexo do filme, já que, apesar de gentil, é suficientemente imprevisível em sua amargura para nos deixar inseguros sobre sua capacidade de ferir Wayne.

Já o trabalho de Helen Mirren é um pouco mais complicado, já que o drama de sua personagem é predominantemente interior, sendo manifestado não através de diálogos tensos, mas de atitudes e olhares. Desde o início, podemos perceber um certo distanciamento entre Eileen e o marido, mas somente ao longo da narrativa descobrimos quais são as mágoas ocultas que provocaram feridas tão grandes naquela família (os filhos do casal também têm ressentimento do pai). Assim, o desaparecimento de Wayne não representa apenas fonte de angústia, mas também de culpa e arrependimento para todos os seus parentes mais próximos, que se esforçam para lembrar dos bons momentos que viveram juntos enquanto tentam lidar com as negociações com os seqüestradores. (Aliás, a presença constante de agentes federais na casa dos Hayes durante o processo acaba funcionando como um elemento explosivo adicional, já que força Eileen e os filhos a reconhecerem facetas ocultas da personalidade de Wayne.)

Eu disse inicialmente que Refém de uma Vida contém dois bons filmes em sua história. Pois, infelizmente, estas duas narrativas se enfraquecem mutuamente em função da estrutura narrativa adotada pelo diretor Jan Brugge e pelo editor Kevin Tent (parceiro habitual do cineasta Alexander Payne): ao longo da projeção, percebemos gradualmente que há uma certa `trapaça` ocorrendo com relação à cronologia das duas subtramas – um recurso cujo significado inevitável revela-se um pouco mais cedo do que o desejado (ao menos, para os espectadores mais atentos). Com isso, torna-se bem mais difícil mergulhar no drama vivido por aqueles personagens, já que nos distanciamos do que está ocorrendo. Além disso, o `jogo` narrativo adotado pelo cineasta quebra a naturalidade e a fluidez da trama, lembrando-nos de que estamos, afinal de contas, apenas assistindo a um filme – o que, neste caso, compromete a experiência.

E também é triste perceber que, depois de manter a sobriedade durante a maior parte do tempo, Pieter Jan Brugge se entrega ao melodrama barato justamente no último plano do longa, que é indigno dos atores, de seus personagens e do público que investiu noventa minutos naqueles acontecimentos.
``

22 de Novembro de 2004

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