Bem-vindo!
 
Publicidade
Publicidade
Os Infiltrados
(The Departed)
151 min - Policial - 2006 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 10/11/2006
Um policial é contratado como agente secreto para se infiltrar em um grupo criminoso. Ao mesmo tempo, um integrante da mesma gangue consegue penetrar na força policial para servir como informante. Agora, os dois têm que descobrir a identidade um do outro. Refilmagem de Conflitos Internos (2002), de Siu Fai Mak e Wai Keung Lau.
 

Crítica

por Pablo Villaça
Dirigido por Martin Scorsese. Com: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Alec Baldwin, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone, Vera Farmiga, Anthony Anderson, Kevin Corrigan, Mark Rolston.

Ao contrário de muitos outros fãs de Martin Scorsese, não creio que a carreira do cineasta tenha atravessado uma fase de decadência nos últimos dez ou onze anos, desde que lançou o excelente Cassino: sim, ele tropeçou em Kundun e Gangues de Nova York e realizou menos longas do que esperávamos; mas, ainda assim, concebeu os complexos e fascinantes Vivendo no Limite e O Aviador, provando que, como qualquer outro diretor, tem também seus altos e baixos. Apesar disso, quando fiquei sabendo que ele refilmaria o excelente Conflitos Internos, confesso que tive minhas dúvidas: embora sua versão de Cabo do Medo tenha se revelado ainda melhor do que o ótimo original, desta vez Scorsese iria refazer uma produção recente e, portanto, a empreitada parecia desnecessária - uma idéia de executivo norte-americano com preguiça de ler legenda. Felizmente, estas dúvidas se revelaram desnecessárias: apesar de levemente inferior ao longa chinês (por razões que explicarei abaixo), Os Infiltrados é um filme vigoroso que demonstra a habilidade de seu diretor em conduzir tramas violentas e complexas.

Adaptado por William Monaham (de Cruzada), o roteiro acompanha os jovens policiais William Costigan (DiCaprio) e Colin Sullivan (Damon) em seus primeiros anos de profissão: enquanto o primeiro é designado para se infiltrar na organização criminosa chefiada pelo psicótico Frank Costello (Nicholson), o segundo logo se torna um dos detetives mais respeitados do departamento encarregado de investigar e prender o bandido. O que ninguém sabe é que Sullivan também é um “infiltrado”: protegido por Costello desde a infância, o rapaz tornou-se policial justamente para servir como fonte de informações para o criminoso – e sua escalada profissional foi possibilitada, entre outras coisas, por armações orquestradas por Costello para beneficiá-lo, envolvendo até mesmo a prisão de pessoas inocentes. Tentando descobrir as identidades uns dos outros, Costigan e Sullivan dão início a um tenso jogo de gato-e-rato cujo resultado pode ser a morte do daquele que for exposto pelo inimigo.

Um dos grandes atrativos de Os Infiltrados, aliás, reside justamente nas estratégias utilizadas por ambos ao longo da narrativa: inteligentes e bem treinados, eles sempre tentam antecipar os passos do inimigo, o que acaba resultado em constantes frustrações. Quando Sullivan liga para o celular de Costigan, por exemplo, este atende, mas permanece calado por não saber quem está do outro lado da linha – e os momentos de interminável silêncio que se seguem ilustram perfeitamente a maneira frenética com que suas mentes trabalham para tentar dar o passo seguinte. Aliás, os celulares se tornam armas importantíssimas na guerra travada pelos dois lados da Lei e, constantemente, surgem como recurso desesperado para avisar os aliados (por voz ou mensagens de texto) de que algo importante está acontecendo.

Mas não são apenas as ações dos personagens que enriquecem a narrativa; o próprio sacrifício que fazem por seus objetivos é fascinante – e não é à toa que o título original faz referência àqueles que “partiram”: a partir do instante em que aceitam suas missões, Costigan e Sullivan morrem para suas existências anteriores, abrindo mão de tudo que conheciam por suas novas realidades. Como se não bastasse, as mentiras que os cercam obrigam-nos a manter desgastantes vidas duplas, impedindo até mesmo que possam estabelecer novas relações (mesmo amorosas), já que jamais poderão se deixar conhecer realmente. Este tema, aliás, é ilustrado com talento por Scorsese em um plano no qual enxergamos rapidamente os dois rapazes através de inúmeros reflexos (durante a seqüência em que um tenta seguir o outro), simbolizando as várias facetas que são levados a assumir no cotidiano.

Emprestando a Colin Sullivan um rosto de garoto bonzinho, Matt Damon cria um personagem quase tão cruel quanto seu Tom Ripley, que também sabia utilizar sua aparência inofensiva a seu favor. Ambicioso, mas com um claro complexo de inferioridade (uma combinação sempre perigosíssima), Sullivan sonha em se tornar um indivíduo respeitado e poderoso, como torna-se óbvio por sua fascinação pelo domo da Assembléia Legislativa e por seu orgulho por estar namorando uma psiquiatra (“Ela é médica”, ele explica a alguém, com expressão de vitória). Inescrupuloso e capaz de qualquer coisa para alcançar seus propósitos de glória e fama, o rapaz mostra-se inseguro apenas quando está lidando com seu protetor, Frank Costello: nestes momentos, seu olhar se torna vacilante, sua voz denota medo e seu ar presunçoso desaparece, evidenciando o cuidado na composição feita por Damon.

Leonardo DiCaprio, por sua vez, encarna um personagem infinitamente mais trágico, já que, enquanto Sullivan ganha conforto e segurança em seu novo papel, William Costigan precisa justamente abrir mão de tudo isso para se infiltrar na quadrilha de Costello – e é irônico que ele tenha lutado tanto para se afastar das raízes de marginalidade de sua família somente para ter que voltar a elas ao se tornar policial (sua dor ao ouvir o sargento Dignam descrever as atividades ilícitas de seus parentes é clara). Ciente de que pode ser morto a qualquer momento e por qualquer descuido, Costigan ainda é obrigado a encarar o peso de conviver com pessoas que encaram o assassinato com chocante naturalidade – e, assim, é inevitável que ele eventualmente se torne viciado em calmantes. Solitário e amargo, este é um dos personagens mais intensos e tristes da carreira do talentoso ator.

Aliás, seria possível escrever mais mil palavras apenas sobre a qualidade das interpretações vistas em Os Infiltrados, começando pelo explosivo sargento vivido por Mark Wahlberg até chegar ao excessivamente viril Ellerby (encarnado por Alec Baldwin), passando, é claro, por Vera Farmiga, que assume o único papel feminino de importância do filme, criando uma figura vulnerável e real. Da mesma forma, Martin Sheen confere grande calor humano a Queenan, cuja dignidade é determinante ao levar Costigan a aceitar sua desgastante missão. Fechando o elenco principal, vem, é claro, Jack Nicholson, que transforma Frank Costello em mais um tipo marcante de sua invejável galeria de composições: chegando à insanidade em sua facilidade para o assassinato (“Um dos dois tinha que morrer. Comigo, tende a ser o outro cara.”), Costello combina a persona divertidamente excêntrica de Nicholson à violência habitual do universo de Scorsese, resultando em cenas que beiram o absurdo, como aquela em que, sujo de sangue até os cotovelos, o criminoso pede casualmente que alguém busque um balde e um esfregão. Assim, é realmente uma pena (e um dos principais equívocos do filme) que sua saída de cena seja tão casual, não fazendo jus à força do personagem.

E já que citei a violência de Scorsese, é importante ressaltar que Os Infiltrados oferece um retorno às escolhas gráficas feitas pelo cineasta em obras como Os Bons Companheiros e Cassino: quando alguém leva um tiro, ele faz absoluta questão de nos mostrar as conseqüências sangrentas do ato, jamais cortando para outro plano “no último momento”. Além disso, até mesmo as escolhas mais óbvias do diretor acabam funcionando, como sua decisão de manter Jack Nicholson nas sombras, na seqüência pré-título, e o plano final, que traz um rato na sacada de um prédio enquanto vemos a Assembléia Legislativa ao fundo. No primeiro exemplo, além de servir para disfarçar a idade do ator em um momento no qual deveria aparecer muito mais jovem, o jogo de sombras serve também como símbolo do caráter do sujeito; já no segundo, a metáfora visual é clara (até óbvia, como já dito), mas mais do que adequada para amarrar a narrativa.

Por outro lado, os fãs de Scorsese certamente ficarão desapontados com a escassez de momentos realmente típicos de sua linguagem cinematográfica habitual: embora ofereça uma direção segura, Os Infiltrados só oferece os registros autorais do cineasta na longa seqüência que antecede o surgimento do título, quando somos presenteados com seus travellings marcantes, planos-seqüência envolventes e a utilização precisa da trilha sonora e de câmera lenta. Já no restante da projeção, apenas ocasionalmente somos capazes de identificar um movimento de câmera ou uma opção de montagem que se revele característica do diretor, o que é uma pena (por mais que, repito, sua condução da narrativa seja brilhante). Além disso, o filme falha por não conseguir ilustrar, como no longa original, a passagem dos vários anos (naquele caso, nada menos do uma década), o que seria importante para ilustrar a dimensão do sacrifício feito pelo policial infiltrado na organização criminosa – o que confere uma escala épica à produção chinesa que falta (por pouco) à refilmagem.

Corajoso ao manter algumas das escolhas mais dramáticas da versão comandada por Andrew Lau e Siu Fai Mak, Os Infiltrados toma um caminho realmente diferente apenas em seus segundos finais, que (sem revelar nada de importante) fazem uma opção infinitamente menos cínica do que a de Conflitos Internos – em contrapartida, é mais carregada de ironia, o que acaba reequilibrando a equação e tornando o filme mais um belo exemplar na carreira do brilhante Martin Scorsese.

09 de Novembro de 2006

Comente esta crítica em nosso fórum e troque idéias com outros leitores! Clique aqui!

Comentários

comments powered by Disqus
Publicidade

Redes Sociais

Filmes Relacionados

Variedades

    Publicidade

    Agora!