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O Procurado
(Wanted)
110 min - Ação - 2008 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 22/08/2008
Um jovem é recrutado para substituir o pai na organização secreta de assassinos da qual ele fazia parte antes de ser morto.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Timur Bekmambetov. Com: James McAvoy, Angelina Jolie, Morgan Freeman, Thomas Kretschmann, Terence Stamp, Common, Marc Warren, David O’Hara, Dato Bakhtadze, Chris Pratt.

 

Escrita por Mark Millar e ilustrada por J.G. Jones, a graphic novel Wanted, que inspirou este O Procurado, era uma espécie de sub-Watchmen que, apesar da bela arte de Jones, contava uma história sem pé nem cabeça e trazia um protagonista tremendamente desinteressante – e, embora seja o primeiro a reconhecer que não sou nenhum expert em quadrinhos (e peço perdão de antemão caso tenha ignorado alguma incrível inovação que Wanted trouxe para esta mídia), confesso que fiquei aliviado ao perceber que o filme praticamente ignorou toda a trama concebida por Millar; afinal, como Kevin Smith provou em Dogma, um monstro puramente constituído de matéria fecal (como o presente na graphic novel) não é algo que funcione muito bem nas telonas. Ou em qualquer outro lugar, devo acrescentar.

 

Não que o roteiro escrito por Michael Brandt, Derek Haas e Chris Morgan seja menos absurdo que sua suposta fonte de inspiração: girando em torno de uma “fraternidade milenar” composta por “super-assassinos”, O Procurado acompanha o fracassado Wesley Gibson (McAvoy) em suas descobertas sobre as próprias origens. Filho de um renomado matador, ele vive uma existência patética até descobrir que seu recém-falecido pai lhe deixou uma fortuna e, não menos importante, um lugar na irmandade chefiada pelo misterioso Sloan (Freeman). Treinado pela sensual Fox (Jolie), Wesley descobre que o grupo tem a missão de eliminar alvos definidos pelo Tear do Destino, que informa os nomes das vítimas através de um código tecido com as linhas que percorrem a máquina. Surpreso com a própria habilidade como pistoleiro (o que inclui sua capacidade de “curvar balas”), o rapaz logo percebe que sua mais perigosa missão será justamente matar o homem que eliminou seu pai, o perigoso Cross (Kretschmann).

 

Surgindo como uma espécie de Matrix (mas sem as viagens filosóficas dos irmãos Wachowski ou os arquétipos representados por Neo, Trinity e Morpheus), O Procurado investe na estilização como forma de compensar suas deficiências narrativas – uma estratégia estabelecida já nos primeiros minutos de projeção, quando um dos integrantes da fraternidade salta por uma janela panorâmica e, em câmera lenta, vemos os estilhaços de vidro cobrindo todo o seu rosto. Minutos depois, a “bala mágica” de Matrix ganha uma prima no projétil cuja trajetória acompanhamos em ordem reversa, do alvo até o momento em que é disparada, quilômetros de distância dali. Isto introduz, também, o “super-poder” dos personagens do longa, que se mostram atiradores absurdamente precisos - isto é, menos quando disparam uns contra os outros, claro.

 

Explicando as incríveis habilidades de seus (anti-)heróis como sendo conseqüência de um imenso fluxo de adrenalina que, entre outras coisas, eleva seus batimentos cardíacos a 400 por minuto (eu sei, eu sei), o roteiro também depende excessivamente de motivações psicológicas rasas (“Há 20 anos, havia essa menina...”) e de reviravoltas pouco plausíveis (“Luke...”) para manter a história caminhando, mas a verdade é que isto pouco importa, já que a direção enérgica do russo Timur Bekmambetov (do irregular Guardiões da Noite e sua continuação) desvia o foco da narrativa para suas inventivas e eficazes seqüências de ação. Assim, não interessa muito se o primeiro encontro entre Wesley e Fox se desenvolve de maneira abrupta e esquemática, já que o confronto que se segue inclui um plano fantástico em que a moça o apanha com o carro através de uma manobra fabulosa, levando-nos a ignorar o absurdo da situação. E ainda que o cineasta exagere na utilização de câmeras lentas e aceleradas, o recurso acaba gerando momentos impactantes na maior parte das vezes, chegando a beirar o sublime aqui e ali - como no instante, repleto de humor, embalado pela bela “Time to Say Goodbye”, cantada por Andrea Bocelli e Sarah Brightman.

 

E já que mencionei o humor de O Procurado, é fundamental dizer que esta se revela a característica que realmente eleva o filme a um outro nível: encarando os próprios absurdos enquanto pisca divertidamente para o espectador, o longa abraça o exagero como estratégia – e ver Wesley avançando em meio a dezenas de inimigos é tão arrebatador, ao seu próprio modo, quanto vê-lo atirando no ritmo da trilha, numa gag metalingüística mais do que apropriada. (Além disso, as imaginativas coreografias dos tiroteios me fizeram lembrar do subestimado Equilibrium, que, por sua vez, se levava bem mais a sério.) Aliás, o timing cômico de Bekmambetov é uma das boas surpresas de O Procurado, como podemos observar na cena em que alguém apunhala a mão de Wesley: associado ao rápido travelling, o grito de McAvoy revela a dose certa de exagero, tornando-se engraçado o bastante para que a violência não afaste o espectador, mas suficientemente realista para ilustrar a dor do personagem.

 

McAvoy, diga-se de passagem, demonstra compreender perfeitamente a abordagem do cineasta – e boa parte de seus trejeitos e tiques vocais evocam as performances de Michael J. Fox, outro ator especialista em criar personagens que navegam entre o real e o puramente cinematográfico. Da mesma forma, uma das únicas boas sacadas do roteiro no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens diz respeito a Wesley, que, em dois momentos distintos, revela que seu nome não traz resultado algum no Google; porém, se na primeira vez isto refletia sua insignificância, da segunda isto remete ao poder que o sujeito conquistou. Enquanto isso, Angelina Jolie atravessa o filme no piloto automático, confiando em sua beleza para transformar Fox numa figura relevante – e consegue (observem, por exemplo, a maneira sensualíssima com que ela deita sobre um trem em movimento e verão uma atriz plenamente consciente do poder de seu corpo sobre o espectador). Já Morgan Freeman encarna, pela milésima vez, uma figura de autoridade cuja sabedoria serve como guia da trama, ao passo que Thomas Kretschmann conta apenas com a dureza de seu rosto para estabelecer Cross como ameaça, já que o roteiro lhe reserva meia dúzia de falas (e isto prejudica um momento que deveria servir como clímax emocional da projeção).

 

Sem alcançar qualquer peso dramático (reparem como as dezenas de civis mortos na seqüência do trem simplesmente não parecem importar), O Procurado é puro estilo e nenhuma substância, é verdade. Mas, às vezes, é o que basta. 

21 de Agosto de 2008

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