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O Gângster
(American Gangster)
157 min - Policial - 2008 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 25/01/2008
Data de Estreia Original: 02/11/2007
Nova York, início dos anos 70. O detetive de narcóticos Richie Roberts tenta prender Frank Lucas, chefe do tráfico de heroína no Harlem, cujo estilo exibicionista lhe rendeu o apelido de “Superfly”.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Ridley Scott. Com: Russell Crowe, Denzel Washington, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Lymari Nadal, Ted Levine, Carla Gugino, John Hawkes, Ruby Dee, Cuba Gooding Jr., Armand Assante, Joe Morton, Jon Polito, Ric Young, Clarence Williams III.

 

O Gângster, como sua campanha publicitária insiste em martelar, é “baseado em fatos reais” – o que, em Hollywood, naturalmente quer dizer que talvez, em algum lugar, em algum momento da História da humanidade, algo remotamente parecido ocorreu. Não é à toa que o bandido que deu origem ao personagem de Denzel Washington se encarregou de elogiar a fidelidade do filme aos fatos, ao passo que o policial que aqui é retratado por Russell Crowe foi no caminho oposto, denunciando os produtores pelas “liberdades criativas” tomadas pelo projeto. O curioso é que, dos dois, o que talvez tivesse mais motivos para reclamar seria justamente o traficante Frank Lucas, já que o filme o retrata como um sujeito cruel e impiedoso – mas provavelmente este seja o tipo de elogio que um bandido relegado ao esquecimento gostaria de receber.

 

Escrito pelo talentoso Steven Zaillian a partir de um fascinante artigo publicado em 2000 na revista “New York” por Mark Jacobson, o roteiro já abre estabelecendo Frank Lucas (Washington) como um matador frio, numa execução similar àquela comandada pelo Baiano de Tropa de Elite. Braço-direito do poderoso “Bumpy” Johnson (Williams III), ao qual dedica admiração incondicional, ele se vê desempregado com a morte do chefe e, assim, logo encontra uma forma de operar de maneira independente, montando um esquema inédito e ambicioso de trazer droga puríssima da Tailândia... em plena guerra do Vietnã e usando a infra-estrutura do exército norte-americano. Logo, porém, ele chama a atenção do detetive Richie Roberts (Crowe), que, com sua equipe recém-formada, encara com dedicação a tarefa de derrubar o traficante.

 

Inteligente e visionário (qualidades que emprega no crime), Lucas é um personagem fascinante que se torna ainda mais complexo graças à atuação de Washington: embora seja indubitavelmente perigoso e desprezível, o sujeito conquista a simpatia do espectador graças ao seu código de ética particular, ao seu apego pela discrição (e é ao abandoná-la momentaneamente que atrai a atenção da polícia) e, principalmente, em função do carinho que demonstra por sua família. Além disso, ao evitar consumir o próprio produto, ele paradoxalmente exibe uma firmeza de caráter admirável (neste contexto em particular) – uma característica que, associada ao seu empreendedorismo, acaba por torná-lo quase um homem de negócios comum sob a ótica do filme.

 

Provando pela enésima vez seu brilhantismo como ator, Washington é hábil ao retratar a crueldade de Lucas sem, com isso, torná-lo desprezível aos olhos do espectador. A título de comparação, observe sua performance em Dia de Treinamento e perceba que, apesar da falta de caráter similar do corrupto policial Alonzo, ali Washington adotava uma composição que não oferecia qualquer oportunidade de redenção ou mesmo de estabelecer empatia com o público, ao passo que, em O Gângster, conseguimos compreender as motivações do marginal e até mesmo torcemos por seu sucesso – algo fundamental, já que ele é o centro inquestionável da narrativa. Assim, mesmo que ele adote uma estrutura siciliana ao montar sua “Família”, somos levados a perdoá-lo por sabermos que isto ao menos serve como desafio à tradição racista da máfia italiana (e norte-americana), que se vê levada a tolerá-lo por saber que ele representa uma forma de dominarem indiretamente os bairros habitados predominantemente por negros.

 

É claro que o roteiro de Zaillian também se encarrega de torná-lo mais tridimensional ao apontar sua juventude difícil – e o ato de reconstituir os móveis antigos de sua família é usado simultaneamente para estabelecer suas cicatrizes emocionais e como símbolo de suas eventuais dificuldades com a Lei. Aliás, a trajetória desastrosa dos Estados Unidos na guerra também é empregada como metáfora da carreira de Lucas, já que, embora pudesse largar o tráfico com o fim do conflito (já que já ficara multimilionário), ele permite que sua ganância o conduza a uma estratégia eventualmente desastrosa.

 

Enquanto isso, Crowe assume a posição clara de coadjuvante pela primeira vez em 12 anos, desde que (vejam que curioso) interpretou o exagerado vilão de Assassino Virtual, em 1995, no qual o herói era vivido justamente por Washington. Policial íntegro, Roberts logo descobre que esta é uma virtude vista com desconfiança por seus colegas (vide também Serpico) – e sua recusa em embolsar uma grande quantidade de dinheiro o transforma num pária em seu departamento. Como de hábito, Crowe submerge no papel, criando um retrato realista de um homem inseguro e mesmo humilde que, num confronto com o agressivo e corrompido detetive Trupo (Josh Brolin, em ótima atuação), não demora a baixar a cabeça, intimidado (e sabendo como Crowe costuma se mostrar arrogante e bruto na vida real, seu alcance como intérprete se torna ainda mais admirável).

 

Infelizmente, numa tentativa de tornar o detetive Roberts mais complexo, o roteiro acaba investindo numa subtrama totalmente descartável envolvendo seu relacionamento com a ex-esposa – e, a cada vez que a questão ocupava tempo na tela, eu me via ansioso para voltar a acompanhar logo o que estava ocorrendo com Frank Lucas. De fato, sempre que o bandido surge em cena, O Gângster ganha fôlego renovado, tornando-se interessante também ao revelar a trajetória da droga rumo aos Estados Unidos (e não é temática, social e psicologicamente apropriado que ela seja transportada em caixões?). Da mesma forma, o diretor Ridley Scott não se furta de mostrar as conseqüências dos atos de Lucas como narcotraficante, criando uma seqüência devastadora na qual vemos a destruição provocada pelas drogas enquanto uma criança chora ao fundo (a mesma seqüência traz o outro tema que Scott desenvolve com menos sucesso: a contradição entre a vida familiar calorosa de Lucas e a solidão auto-imposta de Roberts).

 

Num elenco que inclui, como já citado, o ótimo Josh Brolin, O Gângster impressiona por trazer ainda Cuba Gooding Jr. (como é bom vê-lo criando um bom personagem em vez de entregando-se a comédias idiotas que não fazem jus ao seu talento), Joe Morton (ótimo), Ted Levine (sempre eficaz), Clarece Williams III (numa participação pequena, mas marcante), Carla Gugino (desperdiçada como a esposa de Crowe) e Armand Assante (outro que vinha se entregando apenas a besteiras). Porém, o destaque no elenco secundário fica mesmo por conta de (além de Brolin, repito!) Chiwetel Ejiofor, que encarna o fraco irmão de Lucas de maneira instável e, por isso mesmo, incômoda, e a veterana Ruby Dee, que garantiu sua indicação ao Oscar basicamente graças à fabulosa cena na qual controla o impulso homicida do filho ao revelar conhecer suas atividades criminosas ao mesmo tempo em que estabelece um limite claro para o que está disposta a tolerar – tudo de uma maneira simultaneamente carinhosa, mas inquestionavelmente firme.

 

Beneficiado ainda por uma boa reconstrução de época (o que inclui a utilização de imagens de arquivos) e por uma montagem impecável (a revista ao avião lembra muito o procedimento similar visto no clássico Operação França), O Gângster se compromete apenas em seu fraco terceiro ato, quando o filme se mostra disposto a tudo para transformar Lucas numa espécie de herói – culminando numa montagem patética na qual vemos policial e bandido confraternizando entre risos e acenos de cabeça. Com isso, o personagem de Washington passa a ser romantizado pelo próprio roteiro, que praticamente apaga seus hediondos crimes do passado. Sim, é perfeitamente possível que antigos inimigos se aproximem, mas Scott falha miseravelmente ao tentar tornar algo assim mais crível, já que o processo ocorre de maneira súbita e implausível numa tentativa de encerrar a narrativa de maneira menos sombria (e a cena no tribunal, envolvendo Crowe e a esposa, é igualmente risível).

 

Incluindo, depois dos créditos finais, uma homenagem ao clássico O Grande Assalto do Trem, dirigido por Edwin S. Porter em 1903 (e que ganhou citação similar em Os Bons Companheiros), O Gângster é um filme envolvente que representa mais um alto na carreira repleta de baixos do instável Ridley Scott, levando-nos a lembrar que houve uma época no início da carreira do cineasta na qual ele parecia incapaz de errar. Esperemos que O Gângster seja o primeiro passo numa direção semelhante.

 

Observação: O artigo de Mark Jacobson pode ser lido aqui.

 

25 de Janeiro de 2008

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