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Fargo
(Fargo)
98 min - Policial - 1996 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 31/03/1996
Vendedor endividado bola um plano para pagar suas dívidas, sequestrar sua esposa e receber do sogro o resgate.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Joel Coen. Com Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare.

Que os irmãos Coen são extremamente talentosos não restam dúvidas. Na Roda da Fortuna, Arizona Nunca Mais e Barton Fink - Delírios de Hollywood são exemplos de cinema em sua mais pura essência. A direção de Joel é sempre uma atração à parte: a forma com que a câmera se move, a edição delirante, o ritmo alucinado...

Fargo é, também, um excelente exemplar do trabalho da dupla. O roteiro é extremamente interessante, a direção é fabulosa e as interpretações são perfeitas. E, no entanto, ficou aquém do que eu esperava. Tudo bem: em parte a culpa foi minha. Eu sempre evito ler comentários sobre um filme antes de assisti-lo, a fim de não formar idéias preconcebidas, e desta vez acabei não fazendo isso. E como todas as críticas que li sobre Fargo lhe faziam os maiores elogios, acabei criando uma expectativa muito grande. Assim, por comparação com o que eu esperava, o resultado me decepcionou. No entanto, creio também que este filme não é tão acessível ao público brasileiro quanto o é para o americano. Mas antes, vamos à história:

Jerry Lundegaard (Macy) é um homem desesperado. Ele precisa urgentemente de dinheiro - muito dinheiro - para financiar um projeto que idealizou. Sua esposa, Jean, é filha de um homem muito rico, mas isso é tudo. Seu sogro, extremamente arrogante, nunca lhe emprestaria a soma de que necessita. Assim sendo, ele resolve contratar dois marginais, interpretados por Buscemi e Stormare, para que estes seqüestrem sua esposa a fim de que ele possa cobrar um milhão de dólares como resgate (os dois bandidos pensam que o resgate será de apenas 80 mil dólares).

Porém, tudo sai errado, e três pessoas são mortas. É então que conhecemos a chefe de polícia Marge Gunderson (McDormand), que passa a investigar as mortes que aconteceram em sua cidadezinha. E não é que ela facilmente acaba chegando até o assustado Jerry? Aliás, é aí que o filme ganha ainda mais força: à medida em que as coisas vão ficando mais complicadas, o pobre homem se depara com vários obstáculos que tem que superar rapidamente antes se compliquem ainda mais. Mas elas não param de se complicar. O que fazer, por exemplo, quando seu sogro resolve entregar pessoalmente o dinheiro do resgate?

Um dos grandes trunfos de Fargo reside nos diálogos afiadíssimos do roteiro, escrito a quatro mãos por Ethan e Joel Coen, baseado em um `acontecimento real` que tomou lugar na terra natal dos dois irmãos (na verdade, outra invenção da dupla). E, curiosamente, são justamente os diálogos que tornam este filme um pouco menos acessível para o público brasileiro (aliás, qualquer público que não fale inglês, cabe dizer). O problema é que grande parte da essência dos duelos verbais travados entre os personagens não pode ser traduzida para o português. Um exemplo claro é a cena em que a policial Gunderson retorna até o escritório de Jerry pela segunda vez e pergunta como é que ele pode ter certeza de que não há nenhum carro faltando no estoque (Jerry trabalha na concessionária do sogro, e forneceu um dos carros para os seqüestradores). Quando o homem parece ficar irritado, a policial responde: `You have no call to get snippy with me; I`m just trying to do my job here.`. A graça reside no vocabulário tipicamente interiorano da personagem. A tradução aproximada: `Você não precisa ficar zangado comigo. Estou apenas fazendo o meu trabalho.` E a graça foi embora.

Frances McDormand está perfeita como a policial grávida, bem-humorada (em certo momento ela diz: `Você conhece aquela do cara que não tinha dinheiro suficiente para ter uma placa de carro personalizada e mudou seu nome para J3L2404?`) e extremamente competente que persegue os dois seqüestradores. Sua personagem é extremamente humana, e McDormand consegue passar a idéia de uma mulher vulnerável, sensível e, ao mesmo tempo, extremamente determinada a encontrar os bandidos que tiveram a audácia de cometer três assassinatos em sua querida Brainerd. William H. Macy também está perfeito como o marido dedicado que resolve cometer um crime sem ter a mínima noção de como proceder quando as coisas começam a dar errado. O olhar perdido enquanto procura descobrir uma saída reflete bem o estado de espírito deste personagem sempre atormentado. Aliás, as interpretações, de um modo geral, são igualmente perfeitas em Fargo.

É pena que a linguagem deste excelente filme não seja tão universal quanto as dos trabalhos anteriores desta inventiva e cada vez mais promissora dupla de cineastas.
``

21 de Janeiro de 1997

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