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O Coronel e o Lobisomem
(O Coronel e o Lobisomem)
106 min - Comédia - 2005 (Brasil)
Data de Estreia no Brasil: 07/10/2005
Data de Estreia Original: 17/10/2008
Ponciano de Azevedo Furtado, coronel e fazendeiro, decide ir para a cidade, mas não se adapta ao ambiente urbano. Acaba ficando louco, contando relatos de suas aventuras fantasiosas, nas quais encontrou até um lobisomem.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Maurício Farias. Com: Diogo Vilela, Selton Mello, Ana Paula Arósio, Pedro Paulo Rangel, Tonico Pereira, Andréa Beltrão, Marco Ricca, Francisco Milani, Lúcio Mauro Filho, Othon Bastos.

Os grandes atores também erram – basta ver Marlon Brando (o melhor de todos eles) em A Ilha do Dr. Moreau, Robert De Niro em O Amigo Oculto, Al Pacino em Revolução ou Rob Schneider em... bom, em qualquer coisa que faça. Assim, não é vergonha alguma que O Coronel e o Lobisomem traga o geralmente excepcional Selton Mello em uma atuação que me levava a desejar sair do cinema sempre que ele abria a boca. Tudo bem, depois de performances magníficas em O Auto da Compadecida e Lavoura Arcaica, Selton tem crédito na praça. Mas que O Coronel e o Lobisomem certamente diminuiu seu saldo, não restam dúvidas.

Escrito por João Falcão, Guel Arraes (também produtor) e Jorge Furtado a partir do livro de José Cândido de Carvalho, o roteiro conta a história do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado (Vilela), que está prestes a perder a fazenda que sempre foi de sua família justamente para um sujeito que foi seu antigo empregado, o estranho Pernambuco Nogueira (Mello). No entanto, Ponciano tem uma última cartada: ao ser convocado a comparecer ao tribunal para decidir a questão, ele revela que o contrato que o fez perder a propriedade não é válido, já que só poderia ter sido firmado entre dois seres humanos – e ele alega que Pernambuco é, na realidade, um lobisomem. A partir daí, conhecemos a trajetória dos dois personagens através de flashbacks e descobrimos que, como não poderia deixar de ser, uma mulher se interpôs entre os dois antigos amigos: a belíssima Esmeraldina (Arósio).

E é aí que voltamos a Selton Mello. Ora, o centro da história é justamente a relação entre seu personagem e aquele vivido por Diogo Vilela (não é à toa que o filme se chama O Coronel e o Lobisomem!). Infelizmente, metade da dupla fracassa de forma absurda, enfraquecendo ainda mais um projeto já repleto de problemas (que abordarei mais adiante) – e este desastre tem uma causa bastante específica: a voz criada por Mello ao compor seu personagem. Sim, fisicamente, o ator faz, como sempre, um ótimo trabalho: a postura de Pernambuco, por exemplo, muda ao longo da história, transformando-se de uma figura encurvada em um homem seguro e elegante, refletindo sua trajetória pessoal; suas expressões faciais; seus movimentos; o hábito de pigarrear; tudo demonstra a inteligência habitual de Mello. Mas a voz... ah, a voz! Ao optar por uma vozinha fininha, caricatural, ele boicota o próprio desempenho, convertendo Pernambuco Nogueira em um personagem de teatro infantil e tornando impossível, para o espectador, a tarefa de suspender a descrença e se deixar convencer de que aquela história está realmente acontecendo. Ao abrir a boca, Mello nos lembra de que nada mais do que é um ator interpretando um personagem – e era dever do diretor Maurício Farias alertar o rapaz para o que aconteceria se insistisse naquela caracterização absurdamente artificial.

Aliás, a composição de Selton Mello nem sequer parece pertencer ao mesmo universo no qual se encontram os demais personagens: Diogo Vilela, embora encarnando um personagem de natureza normalmente exagerada e barulhenta, mantém o Coronel com um nível mínimo de verossimilhança, assim como faz Ana Paula Arósio. Na realidade, praticamente todo o elenco secundário consegue se manter razoavelmente dentro da mesma proposta, embora, de modo geral, as atuações sejam limitadas pelos diálogos excessivamente duros, literários, que não permitem que os personagens criem vida. E mesmo que a artificialidade de vários momentos seja justificada pela proposta óbvia de Farias em conferir um certo tom de teatralidade ao filme (talvez por achar - incorretamente - que, por ser fábula, a trama exige isto), o fato é que a abordagem do cineasta é equivocada, já que: 1) não funciona; 2) revela-se infantil; e 3) enfraquece a história. E, por incrível que pareça, apenas dois atores parecem ter conseguido encontrar o equilíbrio ideal entre a farsa proposta por Farias e o naturalismo mais confortável ao Cinema: Pedro Paulo Rangel, como Seu Juquinha, rouba todas as suas cenas, e Tonico Pereira prova ser sempre um ator interessante.

Mas os diálogos não são o único problema do roteiro, que também é disperso e prolixo. Em certo instante, por exemplo, o filme se desvia para uma subtrama envolvendo um galo que acaba se estendendo por mais de dez minutos sem a menor justificativa: se o propósito era mostrar o carinho que o Coronel sentia pelo galo (algo por si só dispensável), havia maneiras infinitamente mais econômicas de fazê-lo. E por que gastar mais um tempo precioso em uma cena descartável envolvendo o protagonista e o novo gerente de seu banco, vivido pelo sempre aborrecido (e inexplicavelmente considerado engraçado por algumas pessoas) Lúcio Mauro Filho? Bastava mostrar o Coronel revelando para Pernambuco que seu crédito foi negado e pronto: cinco minutos a menos de enrolação.

E o que dizer do desfecho desastroso do longa, que nem sequer consegue resolver (acreditem ou não) a situação do lobisomem que dá título à história? Incluindo uma revelação boba e irrelevante, a cena final serve apenas para que o diretor Maurício Farias inclua um plano no qual dois grandes recifes surgem do mar como se fossem seios gigantescos no horizonte – uma imagem banal e despropositada como o restante do filme. Aliás, o cineasta também revela sua falta de preparo ao ignorar que, numa comédia, é importante que o público possa ver as reações, as expressões nos rostos dos atores – e, ao invés disso, ele se atém a planos americanos e a meios primeiros planos, raramente partindo para os necessários closes (um dos únicos closes do filme enfoca o galo do Coronel, o que não deixa de ser curioso).

Mas, do ponto de vista técnico, nada supera o desastre representado pela montagem, que parece ter sido comandada por um amador que viu um ou dois filmes em toda a sua vida – basta dizer que ela se limita a uma série irritante de fades, ignorando qualquer outra maneira de se fazer transições entre as cenas (há uma cortina, na seqüência em que o Coronel experimenta várias roupas, mas só). Já os efeitos visuais são falhos, mas aceitáveis: o lobisomem é falso como uma nota de 9 reais, mas pelo menos não fala nada. Se falasse, temo que seríamos obrigados a ouvi-lo se manifestar com a vozinha pavorosa de Pernambuco Nogueira.

Para completar o quadro, O Coronel e o Lobisomem ainda se orgulha em creditar sua direção musical a Caetano Veloso e Milton Nascimento. Hein? Como é que é? Desde quando Veloso e Nascimento se especializaram em trilha para Cinema? Ah, sim: não se especializaram – e isto explica por que a música é totalmente inadequada ao tom farsesco adotado pela produção, chegando a partir para o draminha em momentos nos quais o filme obviamente está rindo do sofrimento de seus personagens.

O Coronel e o Lobisomem não é um filme ruim; é, apenas, profundamente falho. Mas tem seus momentos mais inspirados – principalmente quando Pedro Paulo Rangel está em cena. É uma pena, portanto, que o longa não se chame O Coronel, o Lobisomem e Seu Juquinha.
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06 de Outubro de 2005

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