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Os Reis da Rua
(Street Kings)
Policial - 2008 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 18/04/2008
No início dos anos 90, policial descobre trama de corrupção e decide acabar com ela para encontrar sua redenção.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por David Ayer. Com: Keanu Reeves, Forest Whitaker, Hugh Laurie, Chris Evans, Jay Mohr, Terry Crews, Cedric The Entertainer, Martha Higareda, Naomie Harris, Amaury Nolasco.

 

Quando a morte de Charlton Heston foi anunciada, na semana passada, comentei que não o considerava um grande ator, mas que seu carisma inegável e a intensidade com que se entregava aos papéis compensavam sua inexpressividade. Algo similar pode ser dito sobre Keanu Reeves, um ator absolutamente incapaz de demonstrar qualquer emoção genuína diante das câmeras, mas que possui uma presença em cena que explica sua eficácia em filmes como Velocidade Máxima e Matrix. Dito isso, há uma diferença no Keanu Reeves visto neste Os Reis da Rua: visivelmente mais velho, o ator continua inexpressivo, mas a idade parece ter lhe conferido um peso que, por si só, já o torna imediatamente mais interessante como intérprete, apontando para uma (espero) promissora nova fase em sua carreira.

 

Dirigido por David Ayer a partir de um roteiro escrito por este ao lado de Kurt Wimmer (O Novato) e do veterano autor James Ellroy, o longa acompanha o detetive Tom Ludlow (Reeves), integrante da violenta equipe comandada pelo capitão Jack Wander (Whitaker). Famosos por seus métodos brutais, estes agentes parecem operar sem limitações aparentes – e quando o ex-parceiro de Ludlow começa a conversar com o capitão James Biggs (Laurie), da Corregedoria de Polícia, todos parecem temer as implicações de uma possível denúncia. Porém, quando o tal sujeito é executado numa loja de conveniências, é o próprio Ludlow quem parte numa investigação particular para descobrir quem teria assassinado seu antigo companheiro, colocando-o sob o fogo cruzado entre Wander e Biggs.

 

Concebida por Ellroy, a trama de Os Reis da Rua segue o ritmo e os padrões de suas obras mais conhecidas, encaixando-se perfeitamente em seu universo: numa cidade suja e corrupta (sempre Los Angeles), os agentes da Lei igualmente corrompidos praticamente não se distinguem dos marginais que tentam prender ou executar – e é a tentativa de redenção de um destes brutos que move a narrativa. Isto também se encaixa na filmografia de Ayer, que, como roteirista, foi responsável pelo tenso Dia de Treinamento e pelo ótimo A Face Oculta da Lei, ambos envolvendo tiras corruptos. Além disso, a atmosfera urbana decadente de Os Reis da Rua remete ao tom similar do fraco Tempos de Violência, que marcou a estréia de Ayer na direção, mas que falhava mesmo com as ótimas performances de Christian Bale e Freddy Rodriguez por preocupar-se mais em chocar o espectador do que em dizer algo relevante.

 

O choque, aliás, continua a ser parte importante da estratégia narrativa de Ayer como diretor, já que Os Reis da Rua investe no componente gráfico da violência, detendo-se longamente sobre cadáveres putrefatos e ferimentos abertos – mas, desta vez, com mais disciplina, certificando-se de que tudo aquilo contribui para a eficácia da história. Além disso, como boa parte da trama se passa durante a noite, a ótima fotografia de Gabriel Beristain se mostra essencial, aproveitando a decadência sugerida pelo grão mais grosso, que “suja” o quadro, e a falta de cores mais intensas no restante da projeção. Para completar, o compositor Graeme Revell evita martelar o espectador com uma trilha manipulativa, permitindo que esta apenas acompanhe o humor do filme sem necessariamente atuar para determiná-lo em nossas mentes.

 

Encarnando o brutamontes com intenções nobres já vivido por Russell Crowe e Aaron Eckhart em outras adaptações dos trabalhos de Ellroy (Los Angeles – Cidade Proibida e A Dália Negra, respectivamente), Keanu Reeves é, como o Bud White de Crowe, um capanga de luxo do capitão Wander: acreditando cegamente na Lei, ele se deixa manipular por seu superior por acreditar na velha máxima de que os fins justificam os meios e, com isso, afunda-se cada vez mais na violência que ele mesmo ajuda a criar. Infelizmente, porém, Reeves alcança resultados apenas adequados neste complexo papel: embora seu rosto surja endurecido pela idade e sua circunspecção habitual seja mais do que adequada para Ludlow, o tumulto emocional do personagem jamais encontra vazão em seu rosto sempre congelado – e a decisão de mostrá-lo sempre bebendo parece ter sido uma tentativa desesperada de Ayer para contornar a inexpressividade do ator, o que torna tudo pior, já que Reeves também não consegue simular embriaguez. Para piorar, há uma cena crucial que se passa num banheiro e durante a qual Ludlow recebe informações importantes de um possível aliado, reagindo de maneira tão neutra que não conseguimos perceber se está sendo cínico ou autêntico no que diz, o que faz um mundo de diferença, já que somos impedidos de perceber se ele se dá conta ou não da manipulação à qual está sendo submetido.

 

Enquanto isso, Forest Whitaker encarna o capitão Wander com sua competência habitual, embora acabe se entregando ao exagero em sua última cena, que, por esta razão, torna-se menos impactante do que o ideal. Por outro lado, Hugh Laurie surge tão discreto como o capitão Biggs que o personagem jamais se torna uma ameaça real para seus desafetos, ao passo que Jay Mohr, habitualmente associado a papéis mais cômicos, limita-se a mascar chicletes em todas as suas cenas. Já o elenco feminino pouco pode fazer, assumindo apenas o papel de “consciência” dos brutalizados homens que dominam aquele universo.

 

Pecando por alguns diálogos particularmente ruins (“Eu fiz a autópsia de sua mulher.” destaca-se neste sentido) e por determinadas cenas que abusam das convenções (como o instante terrivelmente artificial, num carro em movimento, em que os “culpados” contam todo o seu plano), Os Reis da Rua traz Tom Ludlow como um capitão Nascimento neo-noir, que acredita que a violência policial pode ser justificada desde que os agentes da Lei não se entreguem à corrupção, o que não deixa de ser curioso. Mas a boa surpresa é perceber que, mesmo flertando com um final razoavelmente feliz, o filme de Ayer não trai seu universo cínico, alcançando um equilíbrio que torna seu desfecho satisfatório, mas – e aí está a diferença - jamais esperançoso.

 

18 de Abril de 2008

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