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Miami Vice
(Miami Vice)
134 min - Ação - 2006 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 25/08/2006
Data de Estreia Original: 20/07/2006
Os detetives Ricardo Tubbs e Sonny Crockett combatem o tráfico de drogas na Flórida.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Michael Mann. Com: Jamie Foxx, Colin Farrell, Gong Li, Luis Tosar, John Ortiz, Naomie Harris, Ciarán Hinds, Justin Theroux, Elizabeth Rodriguez, Eddie Marsan, John Hawkes, Barry Shabaka Henley.

 

Se há um grande cineasta na Hollywood atual que realmente sabe como realizar um longa em formato digital, este cineasta é Michael Mann. Depois do belíssimo trabalho de fotografia realizado em Colateral, o diretor demonstra que refinou sua técnica ainda mais com este Miami Vice, versão da série de televisão da qual ele mesmo foi produtor executivo durante a década de 80. E o melhor: além de criar um filme visualmente fascinante, Mann também concebeu uma narrativa densa que resulta em um policial inteligente voltado para um público adulto e mais exigente.

           

Transportando a história para os tempos atuais (apesar do mullet típico dos anos 80 exibido pelo protagonista), Mann, que também assina o roteiro, cria uma trama complexa que se caracteriza pelo imediatismo da ação: nada soa predeterminado como numa estrutura clássica de três atos; os incidentes parecem transcorrer de maneira natural, como se uma coisa levasse à outra de forma muitas vezes inesperada para os próprios personagens – o que confere um tenso caráter de imprevisibilidade a tudo que fazem. Sim, eles procuram se preparar ao máximo para suas tarefas, checando e contra-checando informações, mas, como na vida real, uma única variável inesperada pode comprometer todo o planejamento. Assim, quando o filme tem início, os detetives Sonny Crockett (Farrell) e Ricardo Tubbs (Foxx) estão se preparando para prender um violento cafetão, mas são obrigados a alterar os planos quando recebem a ligação desesperada de um antigo informante, que revela estar em perigo. Isto leva a dupla (e sua equipe) a tomar parte de uma missão a fim de derrubar um grupo de Supremacistas Brancos (leia-se: neo-nazistas).

           

Ah, mas não é tão simples: para se aproximarem do grupo, eles precisam usar o contato que estes mantêm com um traficante colombiano – mas, para chegarem a este, precisam oferecer algo que o interesse, como transporte para suas drogas. O problema é que o bandido já tem quem faça este serviço, portanto, antes de qualquer coisa, os detetives devem boicotar o atual transportador do vilão, o que abre passagem para a esperada aproximação. Simples? Nem tanto. Afinal, quando chegam ao traficante, percebem que este pode ser um peixe pequeno se comparado a outro lorde das drogas aparentemente intocável. A esta altura, os tais Supremacistas Brancos já se tornaram um objetivo secundário, já que desbaratar um grande esquema de tráfico é algo muito mais importante no esquema geral das coisas.

           

É justamente esta sensação de “sabemos onde começamos, mas não temos idéia de onde vamos parar” que enriquece Miami Vice e o torna tão interessante: seus protagonistas pensam e agem como qualquer investigador competente deveria se comportar: reavaliando estratégias, repensando a lógica das operações e ajustando seus planos de acordo com as novas informações que obtêm. Além disso, o roteiro não se preocupa em mastigar cada detalhe para o espectador e, portanto, nem sempre sabemos de imediato exatamente o que os protagonistas estão planejando: quando Tubbs fornece datas díspares sobre uma mesma ação para seu superior, levamos algum tempo para perceber seu intento – e, quando finalmente o “alcançamos”, não podemos deixar de admirar sua inteligência.

           

Aliás, Crockett e Tubbs são heróis que realmente merecem nossa admiração: extremamente competentes no que fazem, eles conhecem o submundo do crime em seus mínimos detalhes, sendo capazes de identificar uma quadrilha apenas pelo modus operandi de determinado golpe – e quando vêem um bandido lavando o chão com cloro, sabem perfeitamente o que aquilo significa. Amigos e parceiros, os dois sujeitos também se apóiam incondicionalmente, mesmo quando não sabem exatamente o que o outro tem em mente – e este senso de camaradagem é fundamental para que a dupla se torne mais próxima do espectador comum, já que, de modo geral, os dois detetives são durões como qualquer herói tradicional de Hollywood. Neste sentido, diga-se de passagem, Jamie Foxx e Colin Farrell acabam ficando engessados em suas performances – e o primeiro, em particular, pouca chance tem de criar um personagem tridimensional, já que Farrell ao menos ganha uma subtrama romântica que lhe permite exibir um lado mais vulnerável de Crockett (sua parceira amorosa é vivida por Gong Li, que, sempre linda e competente, cria a personagem mais complexa da produção).

           

Enquanto isso, o ator Barry Shabaka Henley, presença constante nos filmes de Michael Mann, compõe o tenente Castillo, superior dos heróis, como uma figura oposta aos piores clichês do gênero: inteligente e responsável, ele se importa com seus subordinados e não hesita em assumir um papel mais ativo nas operações quando isto se torna necessário – e está longe de ser o tipo de chefe que exige que os heróis entreguem seus “distintivos e armas” ou que está sempre reclamando da pressão exercida pelo “comissário e pelo prefeito”. Fechando o elenco, vêm John Ortiz, que confere uma inesperada tridimensionalidade ao traficante José Yero (percebam seus olhos marejados enquanto observa uma determinada personagem dançando), e Luis Tosar, que transforma o traficante Arcángel de Jesus Montoya em uma figura absolutamente ameaçadora sem praticamente abrir a boca. Poderoso e intocável, Montoya é um estrategista nato e um homem quase sempre impassível – e, em seu único momento de vulnerabilidade emocional, Michael Mann faz a ótima opção de enquadrá-lo pelas costas, obrigando o espectador a apenas imaginar o tumulto interior vivido pelo bandido, o que intensifica o poder da cena.

           

Vale dizer, aliás, que Mann geralmente opta pelas soluções mais sutis em Miami Vice: a trilha de John Murphy, por exemplo, jamais busca martelar a lógica da ação na cabeça do público: em algumas seqüências de perseguição ou tiroteio, por exemplo, a trilha foge da batida agitada da ação e investe em um tom de melancolia que acaba ressaltando a gravidade da situação – e, mais tarde, Mann descarta totalmente o acompanhamento musical ao retratar os movimentos cuidados dos heróis ao cercar uma casa, utilizando o silêncio para salientar a tensão e o perigo relacionados ao que estão fazendo. Finalmente, Mann volta a exibir seu talento na construção de conflitos armados (ele é o responsável pelo melhor tiroteio do Cinema, visto em Fogo Contra Fogo) e encena uma troca de tiros que brilha pelos efeitos sonoros secos e impactantes e pela montagem dinâmica, que revela os pontos de vista de todos os envolvidos, estabelece com competência a geografia da cena e salienta a violência do que estamos vendo.

           

E chegamos, finalmente, à fotografia digital concebida pelo diretor ao lado do australiano Dion Beebe, seu parceiro em Colateral: investindo em cores incrivelmente vibrantes e bem definidas, a dupla cria um contraste marcante entre as cenas mais claras, que exibem uma definição de imagem impressionante, com as seqüências noturnas, nas quais voltam a brincar com o grão mais grosso do filme anterior, salientando, também, os tons azulados que revestem os acontecimentos com uma beleza sufocante. Para completar, os vários planos aéreos incluídos ao longo da projeção sempre causam forte impressão, seja ao exibirem uma lancha deslocando-se em alta velocidade rumo a um pôr-do-sol belíssimo ou ao revelarem a imponência de uma mansão situada no meio de uma densa floresta.

           

Tecnicamente impecável, Miami Vice só desaponta mesmo em seus quinze minutos finais, cuja leveza não condiz com o peso que o filme demonstrara em quase toda a sua duração. Cruel e violento, o longa se beneficiaria imensamente de um desfecho tão implacável quanto tudo o que víramos até então – mas é justamente neste momento que, infelizmente, Michael Mann parece se lembrar de que, afinal de contas, está a serviço de Hollywood.
``

 

24 de Agosto de 2006

 

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