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16 Quadras
(16 Blocks)
105 min - Policial - 2006 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 21/04/2006
Data de Estreia Original: 03/03/2006
Um detetive durão recebe a missão de escoltar um condenado da prisão até a corte judicial, que fica a 16 quadras de distância. Ao longo do caminho, ele descobre que os ex-colegas do detento e todo do departamento policial querem o sujeito morto.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Richard Donner. Com: Bruce Willis, Mos Def, David Morse, Jenna Stern, Casey Sander, David Zayas, Cylk Cozart, Robert Racki, Peter McRobbie, Brenda Pressley.

 

Em seus melhores momentos, 16 Quadras lembra alguns dos filmes policiais mais cínicos dos anos 70, como Serpico e Operação França. Nos piores, se iguala aos exemplares do gênero mais inofensivos e escapistas dos anos 90, como Máquina Mortífera 3 e 4 e Bad Boys. E, entre estes extremos, se encontram três performances admiráveis.

           

Escrito por Richard Wenk, o roteiro gira em torno do decadente policial Jack Mosley (Willis), que, certa manhã, recebe a aborrecida tarefa de transportar um prisioneiro até o tribunal, onde este deverá prestar um depoimento. Sem ter como recusar a missão, Mosley se vê temporariamente preso ao falante Eddie Bunker (Mos Def), mas acredita ser por pouco tempo, já que o trajeto envolve apenas as 16 quadras do título. No entanto, pouco depois de saírem da delegacia, Eddie quase é morto por um pistoleiro contratado e, a partir daí, os dois homens dão início a uma fuga desesperada, sendo perseguidos por vários policiais corruptos – muitos deles, amigos do próprio Mosley. Só então o detetive descobre que a testemunha sob seus cuidados está prestes a denunciar um esquema que envolve oficiais de vários escalões do departamento e, sem saber em quem confiar, sua única esperança de sobreviver se resume a conduzir Eddie com vida até o júri que aguarda seu testemunho.

           

Buscando criar um senso de urgência maior, Wenk utiliza o bom (ainda que não muito plausível) recurso de estabelecer um limite de tempo para que os heróis cheguem ao tribunal: caso Eddie não testemunhe até às 10 da manhã (118 minutos a partir do instante em que Mosley recebe a tarefa), o júri não o ouvirá mais e o caso será encerrado. Com isso, todas as ações da dupla ganham uma segunda motivação: eles não apenas precisam escapar dos vilões, como ainda devem se aproximar cada vez mais de seu destino – e como os assassinos também sabem para onde os heróis estão indo, o espectador começa a imaginar como eles poderão vencer todos aqueles obstáculos a tempo. Assim, sempre que Mosley é obrigado a interromper a marcha, ficamos imediatamente apreensivos – e o roteirista explora bem estas oportunidades ao utilizar estas pausas para desenvolver melhor os personagens, incluindo discussões entre os protagonistas e entre o detetive e seu antigo parceiro (e agora vilão) Frank Nugent (Morse). E, embora estes diálogos não sejam particularmente brilhantes ou reveladores, incluem sua parcela de momentos inspirados, como na cena em que Frank diz para Mosley “Não dá para ter sorte sempre” e imediatamente recebe a resposta de Eddie: “Mas dá para ser inteligente todo dia” (as circunstâncias que envolvem esta troca representam uma das melhores seqüências do filme).

           

Da mesma forma, 16 Quadras acerta quando ilustra o impacto que certos acontecimentos têm sobre os personagens: depois de um tiroteio seguido de fuga, por exemplo, Mosley pode ser visto sem fôlego e ainda atordoado pelo que acabou de ocorrer, enquanto Eddie se tranca em um banheiro para chorar sem ser visto pelo companheiro – quando, na maior parte das produções policiais de Hollywood, uma troca de tiros é algo normalmente encarado com naturalidade, quase descaso, pelos envolvidos. E se o duelo de estratégias entre Frank Nugent e Jack Mosley fascina pela inteligência de ambos, às vezes chega a exagerar na forma com que o primeiro parece sempre capaz de antecipar os movimentos do segundo. Em contrapartida, há instantes em que o roteiro se torna claramente maniqueísta, forçando a barra para que simpatizemos com Eddie (como na conversa que este mantém com uma garotinha em um ônibus), e outros que se tornam irritantes pela obviedade e pela utilização de desgastados clichês do gênero (se você não adivinhar o que está acontecendo durante a última conversa entre Frank e Mosley, é porque não costuma ir ao cinema). Porém, o maior pecado de 16 Quadras é a maneira com que desperdiça situações potencialmente dramáticas ao criar saídas absurdas, inverossímeis – e um bom exemplo é a seqüência do ônibus, cuja conclusão é estupidamente inacreditável e inacreditavelmente estúpida.

           

Por sorte, o filme traz Bruce Willis em mais um grande desempenho: vivendo um personagem similar ao detetive Hartigan de Sin City, o ator constrói um policial destruído e cansado que, com sua barriga proeminente, a testa sempre coberta de suor e o manquejar constante, mal parece capaz de chegar até o banheiro – e proteger uma testemunha perseguida por vários detetives inescrupulosos soa, portanto, como uma missão absolutamente impossível (o que naturalmente contribui para aumentar a tensão). Enquanto isso, Mos Def adota uma voz anasalada que, apesar de irritar em um primeiro momento, acaba conferindo uma aura de inocência importante a Eddie – e o ator consegue dar a medida certa ao humor do personagem, tornando-o divertido sem transformá-lo em um palhaço caricatural. Finalmente, David Morse, um ator que sempre desperta minha admiração, vive Frank de maneira intensa, mas sem jamais apelar para o histrionismo tão comum entre os vilões hollywoodianos: quando argumenta com Mosley sobre a necessidade de matar Eddie, por exemplo, o sujeito jamais dá indícios de cinismo ou ironia, demonstrando que realmente acredita estar agindo de modo razoável e correto (afinal, um ladrãozinho barato não pode valer mais do que seis “bons” policiais, pode? – este é seu raciocínio).

           

Veterano do gênero (são dele todos os exemplares da série Máquina Mortífera), o diretor Richard Donner mantém sua câmera sempre em movimento, mas sem os exageros de cineastas como Michael Bay ou Tony Scott: a idéia – bem-sucedida – é a de criar uma sensação de urgência e tensão no espectador, mas permitindo que ele compreenda o que está acontecendo e sem lhe provocar náuseas (os filmes de Scott deveriam ser acompanhados de sacos de vômito). Criando algumas cenas realmente angustiantes – como aquela que se passa em um bar -, Donner também trabalha com talento ao lado do montador Steve Mirkovich em outra cena particularmente eficiente do longa: aquela em que Mosley evita o primeiro atentado contra Eddie e, ainda sem perceber exatamente o que está acontecendo (já que agiu por impulso), leva alguns segundos para compreender o perigo da situação.

           

Infelizmente, à medida que o tempo passa, Mosley deixa de ser um policial decadente e se transforma em Bruce Willis, o que torna o filme previsível e muito menos interessante, até chegar a um desfecho bonitinho que trai a crueza inicial do projeto, vendendo-se às convenções do “final feliz” e sacrificando o cinismo que o elevaria a algo realmente digno de nota.
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22 de Abril de 2006

 

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