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Bubble
(Bubble)
73 min - Policial - 2006 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 07/07/2006
Data de Estreia Original: 27/01/2006
Uma história de mistério e assassinato, que se passa em uma pequena cidade no estado norte-americano de Ohio.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Steven Soderbergh. Com: Debbie Doebereiner, Dustin Ashley, Misty Dawn Wilkins, Laurie Lee, Decker Moody, Omar Cowan, Kyle Smith.

 

Há algum tempo, o cineasta Steven Spielberg declarou em uma entrevista que se sentia frustrado por não ter liberdade de mergulhar em projetos “menores” e mais arriscados. Por mais que admire Spielberg e sua carreira, não pude deixar de lamentar sua momentânea hipocrisia: o que falta a ele não é “liberdade”, mas coragem. Coragem de assumir um projeto sem apelo popular aparente; coragem de trabalhar sem rede de segurança; coragem de fracassar a fim de satisfazer suas ambições artísticas. Em outras palavras: coragem de seguir o exemplo de Steven Soderbergh.

           

Responsável por estabelecer o Festival de Sundance como evento fundamental do Cinema independente norte-americano graças ao sucesso de seu sexo, mentiras e videotape, Soderbergh tornou-se um cineasta comercialmente bem-sucedido em função da popularidade de filmes como Irresistível Paixão, Erin Brockovich, Traffic e 11 Homens e um Segredo – e poderia perfeitamente passar o restante de sua carreira dedicando-se apenas a superproduções. Em vez disso, o diretor freqüentemente retorna às suas raízes independentes como se quisesse reciclar-se ou, talvez, contar histórias sem as intervenções inevitáveis dos executivos dos grandes estúdios. É o caso de Bubble, que, rodado inteiramente em vídeo digital de alta definição, não apenas conta com um elenco composto inteiramente de atores não profissionais como ainda inovou o sistema de distribuição ao ser lançado simultaneamente nos cinemas, em DVD e na tevê a cabo dos Estados Unidos – o que pode se revelar uma solução interessante para produções de pequeno porte, que sempre encontram mais dificuldades de chegar ao grande público. Como se não bastasse, Bubble é, também, um ótimo filme, o que vem quase como bônus.

           

Com roteiro de Coleman Hough, a história acompanha cerca de dez dias na vida de três habitantes de uma pequena cidade norte-americana: Martha (Doebereiner), uma mulher de meia-idade que mora com o pai idoso; seu jovem amigo Kyle (Ashley), com quem trabalha em uma fábrica de bonecas; e Rose (Wilkins), uma garota que é contratada para ajudá-los a cumprir o prazo de entrega de uma grande encomenda. Preocupando-se principalmente em observar as ações cotidianas destes três indivíduos, Soderbergh acompanha suas conversas mais triviais enquanto busca retratar a triste monotonia de suas vidas, que transforma qualquer acontecimento menos comum em uma grande novidade. Intelectual e financeiramente humildes, os personagens mal conseguem imaginar formas de gastar os prometidos 50 dólares de bônus que receberão caso cumpram a meta da fábrica – algo que, além de incrivelmente triste, revela muito sobre a falta de perspectiva daquelas pessoas.

           

Fascinante estudo de personagens, Bubble não é um filme marcado por ações, mas por sutilezas: quando Rose entra em cena, percebemos que sua chegada cria certo incômodo em Martha, que parece ficar magoada por ter que dividir a atenção de Kyle com a jovem – e quando estes se afastam para fumar depois das refeições, a pobre mulher percebe que está sendo claramente excluída. Da mesma forma, quando Rose pergunta para o rapaz o que este fazia antes de trabalhar na fábrica de bonecas, Martha acompanha a conversa com atenção – e o simples fato de Rose não fazer a mesma pergunta para a colega mais velha é um indício claro de que esta realmente não parece importar para ninguém. Assim, os ciúmes de Martha não são, necessariamente, fruto de um interesse sexual por Kyle, mas da frustração por perceber que, já tão ignorada por tudo e por todos, está prestes a perder também a atenção do único amigo.

           

Extraindo atuações incrivelmente ricas de seu elenco estreante, Soderbergh prova ter acertado em cheio ao buscar, em seus atores, histórias pessoais similares às de seus personagens: Doebereiner, por exemplo, foi gerente de uma lanchonete por mais de 20 anos, enquanto Wilkins é realmente a mãe (solteira) da garotinha vista no filme. Como as cenas também foram rodadas nas residências verdadeiras de cada um dos intérpretes, Bubble ganha uma camada adicional de realidade – e não é difícil imaginar que as conversas entre aquelas pessoas tenham sido, de fato, desajeitadas e tímidas, já que, sem os recursos culturais necessários para se expressarem com desenvoltura, elas tropeçam em suas interações, repetindo frases vazias e demonstrando dificuldade para manifestar o que sentem (observem, por exemplo, como Kyle constantemente olha para Rose com o canto dos olhos, quando conversam em um bar, como se tentasse avaliar timidamente se esta já se cansou de ouvi-lo).

           

E é então que, como na vida, aquelas pessoas começam a nos surpreender justamente quando julgávamos conhecê-las – e, embora não pretenda revelar o que acontece (é importante manter a imprevisibilidade do mundo real), devo dizer que o filme se torna ainda mais envolvente com a chegada do detetive Don Taylor, cujas ações ganham imensa legitimidade também em função da verdadeira profissão de seu intérprete, o policial Decker Moody. No entanto, Bubble não é uma produção sobre crimes, pecados ou investigações, mas sobre indivíduos presos em suas vidas vazias – e as seqüências que trazem (em cortes sucessivos) vários ambientes desocupados remetem justamente às “celas” ocupadas por aquelas pessoas, que continuarão encarceradas (literalmente ou não) até a morte. Além disso, Steven Soderbergh e o compositor Robert Pollard fazem uma escolha curiosíssima com relação à trilha sonora, utilizando, em suas transições, acordes melódicos, mas sem tempero ou personalidade e que não fornecem ao espectador a dica habitual sobre o clima de cada cena. Melancolia? Humor? Suspense? Drama? A trilha se recusa a pontificar e isto deixa o público inquieto, já que, mal acostumado pela obviedade de tantas produções pouco ambiciosas, não sabe o que sentir quando não há uma indicação clara a este respeito.

           

Finalmente, a escolha de ambientar boa parte da ação em uma fábrica de bonecas acaba originando uma metáfora perfeita para aquelas existências insossas e tristes: Martha, em especial, com seus olhinhos pequenos e brilhantes, seu cabelo mal tratado e sua pele esticada em um rosto redondo, se assemelha assustadoramente com os brinquedos que ajuda a criar – e, como estes, guarda um imenso vazio por baixo de sua casca aparentemente comum. É uma grande boneca sem vida.
``

 

06 de Julho de 2006

 

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