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9 - A Salvação
(9)
79 min - Animação - 2009 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 09/10/2009
Quando o boneco 9 ganha vida, ele se encontra num mundo pós-apocalíptico em que os humanos foram dizimados. Por acaso, encontra uma pequena comunidade de outros como ele, que estão escondidos das terríveis máquinas que vagam pela Terra com a intenção de exterminá-los. Apesar de ser o novato do grupo, 9 convence os demais que ficar escondido não os levará a nada. Eles devem tomar a ofensiva se quiserem sobreviver e antes disso, precisam descobrir por que as máquinas querem destruí-los....
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Shane Acker. Com as vozes de Elijah Wood, Christopher Plummer, John C. Reilly, Martin Landau, Crispin Glover, Jennifer Connelly, Alan Oppenheimer.

Em 2005, o diretor Shane Acker realizou um curta-metragem animado que, ambientado num mundo pós-apocalíptico, contava uma história melancólica apenas através da ação de seus personagens: pequenos bonequinhos que, sem voz, se comunicavam por gestos e ações enquanto buscavam derrotar um perigoso inimigo. Indicado ao Oscar no ano seguinte (quando perdeu para o apenas razoável The Moon and the Son), o projeto agora ganha uma versão em longa-metragem co-produzida por Tim Burton (é fácil entender seu interesse por uma premissa tão bizarra) e pelo diretor soviético Timur Bekmambetov (Guardiões da Noite, O Procurado), mas, infelizmente, logo fica bastante claro que o belo curta de Acker não tem história suficiente para preencher os 90 minutos de projeção.

Buscando expandir a trama criada pelo cineasta, a roteirista Pamela Pettler (que colaborou com Burton em A Noiva-Cadáver e assinou também o belo roteiro de A Casa Monstro) inicia sua história com o despertar de 9, o último boneco criado por um cientista antes de sua morte. Confusa ao acordar num mundo destruído, a pequena criatura passa a investigar as ruínas da cidade e finalmente encontra um semelhante, 2 (Landau), que logo é capturado por uma espécie de monstro de metal. Determinado a resgatar o companheiro, 9 é auxiliado por 5 (Reilly), que, contrariando as ordens do líder 1 (Plummer), acompanha o herói até uma edificação à distância – onde o personagem-título comete um erro gravíssimo ao despertar uma criatura ainda mais ameaçadora.

Concebido como um universo mergulhado em cores tristes e sem vida, o mundo de 9 – A Salvação não busca fazer muitas concessões a um público mais jovem: já de início, somos surpreendidos pela imagem do cadáver cinza do inventor e, minutos depois, estamos ao lado de 9 quando este vê os corpos de uma mulher abraçada ao filho em um carro destruído. Da mesma maneira, o trabalho de dublagem feito pelo ótimo elenco é caracterizado pela melancolia, já que todos parecem ter recebido instruções precisas para manterem um tom constante de tristeza e pessimismo. Isto, porém, está longe de representar um problema; ao contrário, é sempre interessante quando os animadores buscam criar um filme mais preocupado em ser coerente com sua premissa do que em conquistar um público mais amplo.

Não, o problema de 9 é outro: a falta de estrutura do roteiro. Saltando de uma seqüência de ação a outra, Pettler tenta desesperadamente evitar que o espectador perceba que não há uma linha narrativa definida que leve a história do ponto A ao B de maneira coesa e planejada, tornando-se difícil até mesmo a divisão da trama em atos bem definidos. Aliás, esta fragilidade estrutural se torna óbvia até mesmo na oscilação pontual do próprio tom do longa, que, sombrio, falha terrivelmente quando é interrompido  de forma nada orgânica por tentativas pobres de humor. Como se não bastasse, o roteiro ainda investe num curto interlúdio que, ao ritmo de Somewhere Over the Rainbow, soa profundamente falso, estabelecendo-se claramente como uma fraca tentativa de aumentar a força do que virá a seguir através do contraste com a natureza leve da canção.

Já do ponto de vista técnico, 9 – A Salvação merece todos os elogios possíveis: o trabalho de edição de efeitos sonoros, em particular, impressiona pela riqueza e por conferir peso àquele universo – e os minutos iniciais do filme, quando o herói ainda não ganhou sua voz, representam o ponto alto da projeção. Da mesma forma, a trilha evocativa de Deborah Lurie enriquece a narrativa, ao passo que o design dos personagens consegue a proeza de destacar as diferenças entre estes ao mesmo tempo em que reflete suas personalidades: observem, por exemplo, o formato cadavérico do rosto de 1, com suas bochechas murchas e ar autoritário, e comparem-no à jovialidade ingênua da expressão de 9 ou às formas mais arredondadas da fêmea 7. Além disso, a concepção daquele mundo semi-destruído preza pelo cuidado com os detalhes, como, por exemplo, as rachaduras na pintura de um quadro ou a maneira que 2 encontra para corrigir seus problemas de visão.

Menos bem sucedida, em contrapartida, é a abordagem temática de Acker e Pettler, que adotam uma postura claramente ludita: culpada pelo declínio da humanidade, a tecnologia é apresentada como uma espécie de demônio – e não é à toa que, em certo momento, alguém usa a expressão “Ciência Negra”. Além disso, é difícil ignorar que a bandeira da nação em ruínas na qual a história se passa, e que traz o contorno claro de uma fábrica, remete diretamente às cores e formas nazistas (e não deixa de ser uma coincidência bastante curiosa que o dublador do cientista responsável por criar as máquinas que destruiriam os humanos se chame Alan Oppenheimer, dividindo o sobrenome com o pai da bomba atômica). Aliás, esta tecnofobia do filme não deixa de exibir uma certa coerência quando contraposta aos elementos obviamente esotéricos/mitológicos/religiosos do roteiro, como a moeda colocada sobre os olhos de um personagem morto (para pagar Caronte?), as repetidas menções a “talismãs” e, claro, o próprio conceito de “alma”, que exibe uma imensa importância para a trama.

O que até poderia render uma narrativa tematicamente fascinante e complexa caso não fosse tratada de forma confusa e superficial, servindo mais como desculpa para amarrar o filme (de maneira frouxa, diga-se de passagem) do que como uma discussão realmente instigante.

Há certas histórias que precisam mesmo de apenas 10 minutos para que sejam contadas; mais do que isso e acabam apenas escancarando a fragilidade de suas premissas e a de seus criadores.

09 de Outubro de 2009

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