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Demolidor - O Homem Sem Medo
(Daredevil)
103 min - Ação - 2003 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 14/03/2003
Data de Estreia Original: 14/02/2003
Matthew Murdock é um advogado que, quando criança, ficou cego após ser atingido por um material radioativo. Com o acidente, ele adquiriu uma `visão extra-sensorial` e passou a usá-la no combate contra o crime, usando o nome de `Demolidor` como identidade secreta.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Mark Steven Johnson. Com: Ben Affleck, Jennifer Garner, Michael Clarke Duncan, Colin Farrell, Jon Favreau, Scott Terra, David Keith, Kevin Smith e Joe Pantoliano.

Depois de passar mais de duas décadas testemunhando as várias incursões cinematográficas da rival DC Comics, a Marvel finalmente viu sua sorte mudar a partir do final da década de 90, com o sucesso de filmes como Blade, X-Men e, é claro, O Homem-Aranha. Graças a uma produção cuidadosa e ao respeito dispensado aos fãs dos personagens da editora, estes filmes ganharam o respeito do público e da crítica, popularizando mais uma vez as aventuras estreladas por super-heróis. Assim, é uma pena constatar que, pela primeira vez em alguns anos, a Marvel está apresentando um produto que fica abaixo da qualidade com a qual nos acostumou.

Sem ser tão conhecido como os alunos do Professor Xavier ou o Hulk, Demolidor é o alter-ego do advogado Matthew Murdock (Affleck), que, depois de ficar cego em sua infância, teve seus demais sentidos aperfeiçoados de forma sobre-humana. Capaz de `enxergar` através do som, como se possuísse um radar, o herói se dedica a proteger os habitantes da Cozinha do Inferno (região de Nova York conhecida por sua violência), onde cresceu. Traumatizado pela morte do pai, um boxeador, Murdock leva uma vida solitária – isto é, até conhecer a bela Elektra Natchios (Garner), por quem se apaixona. No entanto, o relacionamento dos dois enfrentará graves problemas, já que o pai da moça está envolvido com o cruel Rei do Crime (Clarke Duncan), que contrata o assassino Mercenário para matá-lo.

Ao contrário de filmes como Superman, Batman ou O Homem-Aranha, Demolidor não é uma história sobre a origem do super-herói: descobrimos como Murdock ganhou suas habilidades em um breve flashback que, diga-se de passagem, não se preocupa muito em mostrar como o sujeito se transformou em um especialista em artes marciais (nesta seqüência, Murdock é interpretado pelo expressivo garotinho Scott Terra). O grande mérito deste flashback, aliás, é ilustrar para o público a `visão` do personagem – algo que culmina em uma bela cena em que ele utiliza as gotas de chuva para conhecer o rosto da namorada (mais tarde, ao se encontrar deprimida, ela usa um guarda-chuva para que ele não possa vê-la, num momento bastante inspirado do filme).

No entanto, o roteiro de Demolidor jamais explica exatamente como os demais sentidos de Murdock podem ter se tornado tão fortes (e, como não conheço os quadrinhos, fiquei curioso quanto à resposta), permitindo, inclusive, que ele ouça conversas sussurradas a quilômetros de distância. Para piorar, o herói se locomove através de saltos incríveis que desafiam as leis da gravidade, o que se torna embaraçoso com o transcorrer da história – afinal de contas, o sujeito não é de outro planeta nem foi picado por uma aranha radioativa. (Nos dois primeiros Batman, Bruce Wayne se mostrava flexível, mas jamais parecia estar voando, permitindo que o espectador acreditasse naquela realidade.)

Por outro lado, Matthew Murdock é um personagem fascinante: além da aura de vulnerabilidade criada por sua cegueira (bem retratada por Ben Affleck), o sujeito se mostra bastante humano ao voltar de suas aventuras com o corpo dolorido e cheio de cicatrizes, sendo obrigado a tomar analgésicos para suportar a dor. Além disso, para conseguir dormir sem ser perturbado por sua audição desenvolvida, ele precisa se trancar em um `caixão` à prova de som, o que também é um conceito interessante – e mais tarde, a fim de poder passar a noite com a namorada, ele é obrigado a ignorar de forma consciente os pedidos de socorro que lhe chegam aos ouvidos, o que é uma escolha moral curiosa e fascinante. Em contrapartida, a subtrama envolvendo o trauma pela morte de um parente é um recurso que soa pouco original depois de conhecermos os dramas de Peter Parker e Bruce Wayne, por exemplo. Como se não bastasse, Demolidor não se revela um herói especialmente inteligente, já que a identidade do Rei do Crime lhe é revelada espontaneamente por outro personagem, sem que, para isso, ele precise fazer qualquer trabalho investigativo.

Aliás, os vilões de Demolidor não são particularmente inspirados: apesar das boas atuações de Michael Clarke Duncan, como o Rei do Crime, e Colin Farrell, como Mercenário, o roteiro falha ao não estabelecer as motivações de cada um – nem mesmo a origem do poder deste último é retratada, o que é um equívoco grave (e isto é lamentável, já que Farrell está fantástico, demonstrando estar se divertindo a valer ao criar um personagem caricatural, mas perigosamente cômico: em certo momento, ele até mesmo protesta: `Eu quero uma droga de fantasia!`). Como se tornam meras figuras decorativas, os dois bandidos não oferecem a Demolidor o pré-requisito básico para qualquer grande herói: um inimigo à altura. Da mesma forma, Jon Favreau (apesar de algumas cenas engraçadas) passa em branco como o melhor amigo de Matthew Murdock, e, assim, a única pessoa que realmente se destaca é Jennifer Garner, que, como Elektra, cria uma heroína voluntariosa e trágica (além de bela, o que é sempre uma vantagem).

Com relação aos aspectos técnicos, Demolidor merece créditos por sua fotografia sombria (não muito diferente, porém, da que o próprio Ericson Core havia concebido para O Troco, há 3 anos) e pelos figurinos de James Acheson. Em contrapartida, a trilha incidental pouco inspirada de Graeme Revell jamais se destaca, perdendo espaço para as ótimas músicas executadas ao longo da projeção. Mas a maior falha de Demolidor reside mesmo no trabalho do diretor Mark Steven Johnson: além de plagiar descaradamente várias cenas de O Homem-Aranha (como aquela em que o herói se desvia dos projéteis do Duende Verde durante um incêndio - até mesmo o enquadramento é o mesmo), o cineasta aborda as seqüências de ação de forma tão histérica que se torna impossível, para o espectador, acompanhar as lutas retratadas (o que é especialmente verdade no confronto que ocorre em um bar). E já que citei O Homem-Aranha, é necessário dizer que Demolidor também peca ao substituir Ben Affleck por uma criatura digital nas cenas em que vemos o herói se movendo ao longe: em nenhum instante somos convencidos de que se trata de uma pessoa real, o que destrói nosso envolvimento com a história.

Demolidor não é um filme ruim, mas está longe de ser espetacular. Os fãs do personagem podem até apreciar a experiência de ver o herói em versão de carne-e-osso, mas os não-iniciados (como eu) certamente não se sentirão compelidos a aguardar uma nova aventura do Homem Sem Medo.
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14 de Março de 2003

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