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Jackie Brown
(Jackie Brown)
154 min - Policial - 1997 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 22/05/1998
Data de Estreia Original: 25/12/1997
Traficante de dinheiro faz acordo com polícia, mas acaba decidindo quebrar o tratado, visando o dinheiro e sua liberdade.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Quentin Tarantino. Com: Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert De Niro, Robert Forster, Michael Keaton, Bridget Fonda, Sid Haig e Chris Tucker.

Desde sua indicação ao Oscar de Melhor Diretor por Pulp Fiction que Quentin Tarantino não dirigia. Quer dizer... à exceção de uma pequena história no fraco Grande Hotel. Portanto, foi com a maior expectativa que me preparei para assistir a Jackie Brown - o estilo `tarantiniano` de fazer cinema tem certas peculiaridades que me atraem. E é justamente este `estilo` o ponto forte de Jackie Brown. E também o fraco.

O fato é que Tarantino estava andando em terreno desconhecido, desta vez. Em vez de trabalhar com um material próprio, escrito e concebido por ele, o diretor fez a opção por adaptar um livro de Elmore Leonard. E quem assistiu a O Nome do Jogo sabe que Leonard tem um estilo incomparável de criar personagens. Seus diálogos, as ações - tudo parece girar em um universo paralelo ao nosso, bem peculiar. E o problema é que este `universo` não tem muito a ver com o mundo habitado pelas criações de Tarantino. Assim, o que temos em Jackie Brown é um curioso híbrido que nem sempre dá certo.

Consideremos os diálogos, por exemplo. Enquanto os personagens de Tarantino têm o hábito de discutir assuntos tão triviais como massagens no pé (Pulp Fiction), a possibilidade de transarem com Elvis Presley (Amor à Queima Roupa) ou as letras das músicas de Madonna (Cães de Aluguel), os de Elmore Leonard costumam falar, falar e falar - e apenas isso. Ninguém ouve ninguém. Todos querem desabafar, discursar, expor seus pontos de vista. Imaginem, então, o que acontece quando Tarantino adapta um diálogo de Leonard. Às vezes funciona. Outras, não.

E isso acontece por todo o filme. Há momentos em que os personagens falam tudo o que sabem: Jackie (Grier) se abre com Ray Nicolet (Keaton), com Ordell Robbie (Jackson), com Max (Foster); Melanie (Fonda) se abre com Louis (De Niro), que se abre com Ordell, que se abre com Louis novamente... No entanto, em outros momentos, Louis gasta vários minutos discutindo com Melanie trivialidades como fotos na parede. Não há coesão no roteiro, uma unidade. Os personagens são inconstantes. Em um minuto, parecem seguros de si. Em outros, soam covardes e hesitantes.

O único que parece se manter `uno` é Ordell, o traficante de armas brilhantemente interpretado por Samuel L. Jackson. São dele os melhores momentos, bem como os melhores diálogos do filme. Robert De Niro também está ótimo como o patético e confuso Louis Gara, num papel diferente daqueles em que nos habituamos a vê-lo. O restante do elenco está correto - e só. Pam Grier, com sua beleza madura, tem uma boa presença em cena, mas não tem o magnetismo de John Travolta em Pulp Fiction. Já Robert Forster tem uma atuação discreta, mas nada que justificasse sua indicação ao Oscar.

Mas os fãs de Tarantino podem ficar descansados: uma técnica recorrente nos filmes deste diretor está presente em Jackie Brown. A forma com que Quentin brinca com o tempo e com a montagem é soberba. Se em Cães de Aluguel ele mostrava a mesma situação observada a partir do ponto-de-vista de vários personagens e em Pulp Fiction ele manipulava o tempo para nos surpreender (o filme começa e termina com a mesma seqüência), em Jackie Brown Tarantino combina as duas técnicas. Há que se destacar duas cenas: aquela em que a tela se `divide` ao meio, para explicar um certo ponto do roteiro; e aquela em que a mesma seqüência é vista e revista por vários observadores (Pam Grier, Robert De Niro e Robert Forster).

No entanto, Tarantino ainda tem que aprender algumas lições importantes. Há pausas em demasia neste filme e, além disso, tomadas desnecessariamente longas. E o que é pior: muitas delas acontecem depois de quase duas horas de projeção, quando a platéia já está cansada. Um exemplo claro é a seqüência em que Pam Grier anda de uma loja até o saguão do shopping sendo `observada`, durante todo o trajeto, pela câmera. O diretor não precisava nos mostrar mais de um minuto de caminhada a fim de transmitir o que desejava.

A trilha sonora, como de costume, é muito boa. É uma pena que as escolhas erradas tenham sido feitas em algumas cenas, como aquela em que Samuel L. Jackson e Robert Forster conversam ouvindo `The Delfonics`.

Jackie Brown é um filme divertido que se ressente do choque entre os personagens criados por Elmore Leonard e os concebidos por Tarantino. Falta tensão ao filme. Não há nenhuma cena forte como a da tortura em Cães de Aluguel ou a da perseguição ao lutador Butch em Pulp Fiction. E rir não é exatamente o que se procura em um filme de Quentin Tarantino. Os risos podem até vir como parte do pacote, mas não como recheio.
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4 de Maio de 1998

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