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O Suspeito
(Rendition)
122 min - Drama - 2008 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 11/01/2008
Data de Estreia Original: 19/10/2007
Ao descobrir que seu marido simplesmente desapareceu de um vôo em direção aos Estados Unidos, Isabella El-Ibrahim começa uma desesperada luta para descobrir seu paradeiro. A drama fica mais complicada quando um observador da CIA começa a presenciar um método não-ortodoxo de interrogatório e tortura. Tudo isso, pois, de acordo com a lei Extreme Rendition, um suspeito de terrorismo pode ser levado para seu país de origem e lá ser interrogado por autoridades norte-americanas.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Gavin Hood. Com: Jake Gyllenhaal, Reese Whiterspoon, Peter Sarsgaard, Bob Gunton, J.K. Simmons, Omar Metwally, Zineb Oukach, Yigal Naor, Moa Khouas, Alan Arkin, Meryl Streep.

 

Em certo momento de O Suspeito, o analista da CIA Douglas Freeman (Gyllenhaal), cansado e desiludido por testemunhar os métodos brutais de interrogatório de um prisioneiro, diz para sua superiora (Streep) ao telefone: “Esta é minha primeira tortura”. A resposta chega sem um segundo de hesitação: “Os Estados Unidos não torturam”. Com esta troca de diálogos, a questão central do filme escrito por Kelley Sane se apresenta de forma inequívoca: depois de inúmeras denúncias de violência contra “suspeitos de terrorismo” (uma descrição tragicamente imprecisa, como podemos constatar, por exemplo, em Caminho para Guantánamo), a CIA vem enfrentando críticas pesadas pela prática do water boarding, uma técnica que simula afogamento e que, acreditem ou não, foi defendida por vários importantes integrantes da agência e pelo vice-presidente Dick Cheney como sendo um recurso “válido” para extrair informações de prisioneiros. Demonstrando não ter aprendido a lição com o escândalo das torturas na prisão de Abu Ghraib, o governo norte-americano insiste, portanto, em técnicas medievais, ignorando convenções internacionais ou mesmo o mais básico senso-comum – e não é coincidência, portanto, que O Suspeito traga cenas que envolvem o water boarding e o eletrochoque.

 

Quando a trama tem início, o engenheiro químico Anwar El-Ibrahimi (Metwally) está deixando a África do Sul rumo aos Estados Unidos, onde mora, depois de participar de uma convenção. Ao aterrissar em Washington, porém, ele é preso por agentes da CIA e enviado para o exterior a fim de ser submetido a interrogatórios sem que as leis norte-americanas possam ser aplicadas para libertá-lo (uma prática que, infelizmente, é real). Designado para acompanhar o processo, o agente Freeman (o sobrenome do personagem é de uma obviedade decepcionante) se sente cada vez mais incomodado com o que testemunha, ao passo que, nos Estados Unidos, a esposa de Anwar, a jovem Isabella (Whiterspoon), luta para tentar descobrir o paradeiro do marido, solicitando o auxílio de um ex-namorado, Alan (Sarsgaard), que agora é assessor de um importante senador (Arkin). Fechando a narrativa, acompanhamos também o romance proibido entre o estudante Khalid (Khouas) e a jovem Fatima (Oukach) – que é filha do sujeito responsável por conduzir o interrogatório de Anwar.

 

Dirigido pelo sul-africano Gavin Hood (do superestimado Infância Roubada, vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro, em 2006), O Suspeito investe num esquema de cores óbvio, mas não menos eficiente por isto, alternando entre os tons mais quentes das cenas na África e a frieza dessaturada dos corredores em Washington – e Hood é inteligente ao tentar disfarçar o excesso de falatório através da utilização de várias locações e cenários, espalhando as conversas expositivas por vários diferentes ambientes, como um lago artificial em Washington, a cozinha de Corrine Whitman (Streep), uma casa de ópio no exterior e assim por diante. Além disso, ele cria, com o auxílio do diretor de fotografia Dion Beebe, um tom angustiante nas seqüências de interrogatório, destacando-se principalmente na belíssima utilização de sombras ao enfocar Anwar em sua minúscula cela.

 

Acertando também ao estabelecer a dinâmica entre os personagens, Hood contrapõe a falsa cordialidade com que Abasi Fawal (Naor, ótimo) inicia o interrogatório à brutalidade que logo se segue – e quando percebe o olhar frio e repleto de julgamento de Freeman, o sujeito imediatamente insiste em demonstrar, para o norte-americano, o aparato utilizado por homens-bomba para detonar os explosivos, esperando que, assim, ele compreenda a “necessidade” de submeter o suspeito à tortura (e num ótimo exemplo de economia narrativa, a cena também funciona como base para um momento crucial do terceiro ato). Da mesma forma, as cenas envolvendo Isabella e Alan trazem sempre um desconforto sutil, fruto da incômoda situação na qual eles agora se encontram e que inevitavelmente os remete ao relacionamento que mantiveram no passado.

 

Claro que boa parte do mérito cabe também ao elenco: como Isabella, Whiterspoon surge em cena como uma mãe dedicada que, mesmo prestes a ter outro bebê, não deixa de brincar com o filho no jardim enquanto conversa carinhosamente com o marido pelo telefone – e mais tarde, ao mergulhar na angustiada busca por Anwar, ela se torna uma espécie de Mariane Pearl loira (mas igualmente grávida, claro) que se vê obrigada a enfrentar a fria determinação da personagem linha-dura vivida por Meryl Streep (que, sempre inteligente, evita transformar Corrine em uma vilã, conferindo a esta uma atitude resoluta de quem realmente acredita estar agindo em interesse do bem maior). Enquanto isso, Peter Sarsgaard ilustra com talento o sentimento de frustração de Alan ao perceber – certamente pela enésima vez – que a política sempre prevalecerá sobre o “justo”, ao passo que Gyllenhaal faz o possível para retratar o esgotamento de um sujeito que, depois de se juntar à CIA no calor do 11 de Setembro, percebe que suas intenções nobres estão longe de refletir a realidade de seu trabalho. Infelizmente, por mais que Gyllenhaal se esforce para conferir uma aura de cansaço a Freeman (ele surge bebendo e fumando ópio), o fato é que este talentoso ator tem uma aparência jovem e saudável demais para transformar seu personagem em um adulto semi-destroçado por suas experiências – e sua escalação para o elenco não é o único tropeço do casting, que também peca pelo maniqueísmo através do estereótipo, já que os “bonzinhos” são sempre bonitos e os indivíduos reprováveis primam pela feiúra.

 

Destacando-se positivamente pela ótima montagem (mérito da montadora Megan Gill, colabora de Hood em Infância Roubada), O Suspeito constrói uma narrativa bem amarrada na qual as revelações vão se acumulando gradualmente até conduzirem a uma série de clímaxes paralelos que finalmente se interceptam brilhantemente. Por outro lado, embora aprecie intelectualmente a cronologia particular concebida pelo filme, não posso deixar de admitir que ela falha do ponto de vista emocional, o que enfraquece o impacto da obra. Da mesma forma, a maneira com que o roteiro busca solucionar a crise de consciência de Freeman (nominho miserável) é excessivamente hollywoodiana em sua falta de verossimilhança, enfraquecendo ainda mais o desfecho do longa.

 

No final das contas, O Suspeito investe toda sua força dramática no propósito de denunciar a tortura como algo ruim. Ora, mas isto já não é óbvio? São realmente necessárias duas horas, várias subtramas e quase uma dezena de personagens importantes para estabelecer algo tão claro? Não seria mais interessante, do ponto de vista dramático, se (e não leia o restante deste parágrafo caso ainda não tenha visto o filme) eventualmente o roteiro revelasse que Anwar de fato estava envolvido com terroristas – algo que ao menos tornaria a questão mais complexa do ponto de vista moral? Ou torturar culpados é aceitável – mesmo que não saibamos que são culpados?

 

Com isso, O Suspeito se apresenta simultaneamente como um bom filme e, lamentavelmente, também como uma oportunidade desperdiçada.

 

10 de Janeiro de 2008

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