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Vício Frenético
(Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans)
121 min - Policial - 2010 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 15/01/2010
Em Nova Orleans, após o furacão Katrina, o policial viciado em drogas Terence McDonagh precisa investigar a morte de cinco imigrantes de Senegal. Refilmagem de `Vício Frenético`, de 1992.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Werner Herzog. Com: Nicolas Cage, Val Kilmer, Eva Mendes, Xzibit, Brad Dourif, Michael Shannon, Jennifer Coolidge, Fairuza Balk, Tom Bower.

Embora se apresente como uma refilmagem do ótimo longa comandado por Abel Ferrara em 1992 (até hoje, o melhor trabalho do diretor e que trazia Harvey Keitel numa atuação corajosa e de total entrega), este Vício Frenético revela-se mais como uma reimaginação daquela obra do que qualquer outra coisa: diferente do original em tom e estrutura, este novo filme do mestre Werner Herzog carrega propositalmente na bizarrice de seu protagonista, suavizando sua deprimente decadência a ponto de torná-la grotescamente divertida.

Abordando as ações reprováveis (um eufemismo) de um instável (outro) tenente de polícia, o roteiro desta produção tem, como principal diferença com relação ao anterior, sua própria lógica narrativa: se no filme de 92 éramos apresentados ao protagonista quando este já se encontrava praticamente no fundo do poço, surgindo como uma figura destrutiva e repugnante, desta vez conhecemos o tenente Terence McDonagh (Cage) no auge de sua carreira, quando promovido por atos de heroísmo. Dominado por fortes dores nas costas, porém, o policial se torna dependente de analgésicos e, posteriormente, de todo tipo de droga imaginável. Com isso, não apenas nos apiedamos do sujeito (afinal, sabemos por que se tornou um viciado) como também nos convencemos de que é um homem fundamentalmente bom – ao passo que o tenente de Keitel jamais deixava de parecer, para o espectador, uma criatura fascinantemente cruel e corrompida. O resultado é que o longa anterior girava em torno de uma intensa culpa católica e de uma comprometida tentativa de redenção, enquanto, agora, a redenção é quase um post scriptum e os tons religiosos foram substituídos por pinceladas de comentário social (não é à toa que a história tem início em pleno desastre do Katrina).

Mas não é só isso: se Ferrara investia numa atmosfera sufocante de degradação física e moral, Herzog mostra-se mais interessado na comédia de absurdos resultante das ações do protagonista – e é surpreendente como situação similares nos dois filmes acabam provocando reações tão diferentes: se antes experimentávamos aversão ao personagem-título (no original, Bad Lieutenant), desta vez rimos de suas atitudes. Tomemos, como exemplo, a inesquecível cena do original em que Keitel assediava cruelmente duas jovens em um carro, praticamente estuprando-as com o poder de seu distintivo sem tocá-las de fato – e reparem como, em comparação, a cena desta refilmagem em que Cage realmente transa com uma jovem depois de abordá-la como suspeita acaba soando engraçada em vez de revoltante como a do anterior. E o que dizer do momento absolutamente hilário em que Cage tortura duas velhinhas num asilo? 

Claro que parte importante dos méritos pela eficácia desta nova abordagem se deve à performance de Nicolas Cage – sua melhor dos últimos anos. Ator que jamais teme se entregar à excentricidade, Cage encarna o declínio do tenente McDonagh com a intensidade habitual, investindo nos tiques e maneirismos que se tornam cada vez maiores à medida que ele afunda nas drogas: reparem as coçadas de nariz, a insistência em passar a mão no cabelo e o olhar que, embora concentrado, jamais parece ter foco. Mas talvez a grande sacada do ator resida em sua postura em cena, já que ele mantém os ombros sempre inclinados para um lado e as costas encurvadas, retratando não apenas as conseqüências de seus problemas físicos, mas – e aí reside sua genialidade – a própria falta de equilíbrio emocional e psíquico do personagem.

O elenco de Vício Frenético, diga-se de passagem, inclui outros três atores notórios por suas performances bizarras, mesmo que, aqui, surjam em papéis pequenos: Val Kilmer, como um colega de farda do anti-herói, poderia protagonizar uma continuação com seu Stevie Pruit, já que o sujeito parece mais instável (e cruel) do que McDonagh, enquanto Michael Shannon, como Mundt, poderia surgir numa pré-continuação, já que, aqui, seu policial (agora relegado a trabalhos burocráticos) já parece ter atingido a completa decadência há anos. Fechando o trio de excêntricos vem Brad Dourif, que desde Um Estranho no Ninho vem se especializando em criações que primam pela instabilidade (embora neste filme ele surja até contido). E se Eva Mendes pouco faz com a prostituta Frankie, Jennifer Coolidge tem sua parcela de bons momentos como a madrasta do tenente-título.

Realizando um trabalho de direção relativamente convencional, Werner Herzog ainda assim encontra instantes específicos no roteiro de William M. Finkelstein para exibir seu pendor para escolhas atípicas (e se mencionei a excentricidade de boa parte do elenco, esta nem se comparada à do cineasta): é curioso notar, por exemplo, como Herzog seleciona pontos precisos para realizar escaladas no delírio do protagonista – e a maneira com que ele decide fazê-lo, enfocando iguanas em planos fechadíssimos que, rodados com a câmera na mão e em 16mm, cria uma atmosfera de estranhamento que cumpre perfeitamente este propósito. Da mesma forma, é um prazer perceber o timing cômico do diretor na cena em que ele revela uma garrafa de cerveja na mão de uma personagem no momento perfeito ou na já citada cena no asilo. Além disso, sua sensibilidade dramática também vem à tona no instante em que Cage relembra um incidente de sua infância e Herzog aproxima a câmera do ator enquanto este conta a história apenas para afastá-la novamente quando a narrativa chega ao fim, expondo o tenente e Frankie num abraço que revela apenas a carência profunda de ambos.

Investindo num desfecho que consegue ser simultaneamente satisfatório e artificial (algo que Herzog, com seu senso de humor ácido, provavelmente encarou como uma ironia do ideal norte-americano e da própria cultura de Hollywood), Vício Frenético ainda traz sua própria versão de “rosebud” como uma maneira de ilustrar o esforço do protagonista de resgatar sua pureza anterior – o que também não deixa de ser divertido e curioso.

Mas divertido mesmo seria assistir a uma sessão dupla com as versões de Ferrara e Herzog.

(Texto originalmente publicado durante a cobertura da 33a. Mostra de São Paulo.)

27 de Outubro de 2009

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