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Os Especialistas
(Killer Elite)
116 minutos - Ação - 2011 (Estados Unidos, Austrália)
Data de Estreia no Brasil: 02/12/2011
Ex-soldados britânicos passam a ser perseguidos por assassinos e então, um ex-integrante da marinha se vê obrigado a voltar à ativa para salvar um amigo.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Gary McKendry. Com: Jason Statham, Clive Owen, Robert De Niro, Dominic Purcell, Aden Young, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Yvonne Strahovski, Rodney Afif.

Como tantos outros filmes que tentam afirmar a própria verossimilhança através de letreiros que os identificam como histórias verídicas, Os Especialistas exibe com orgulho o tradicional “Baseado em fatos reais” em seus segundos iniciais – uma alegação supostamente fortalecida por sua origem, um livro escrito por um ex-integrante da SAS britânica que afirma ter participado de ações secretas em Omã e que posteriormente resultaram na morte de quatro de seus colegas nas mãos de um grupo contratado por um sheik para vingar a execução dos filhos. Infelizmente, esta tentativa de estabelecer-se como algo crível é arruinada por dois fatores: o tal livro de Ranulph Fiennes foi amplamente desmentido por várias fontes e – o mais importante – já no primeiro ato o personagem vivido por Jason Statham usa uma bisnaga para silenciar o som de uma pistola.

Deixem-me repetir isso: em Os Especialistas, filme que afirma ser baseado em fatos reais, Jason Statham usa um pedaço de pão como silenciador.

Escrito pelo estreante Matt Sherring, o roteiro é ambientado em 1980 e já de cara nos apresenta à dupla de matadores formada por (vejam o nome) Hunter (De Niro) e Danny (Statham), que não demoram a explicar para o espectador como trabalham juntos há muito tempo através de um diálogo artificial e expositivo envolvendo iguarias dos locais onde estiveram. Tratando o companheiro mais jovem como “garoto” para que ninguém duvide da dinâmica pai-e-filho existente entre eles, Hunter eventualmente é aprisionado pelo sheik Amr (Afif, sob uma pesada e péssima maquiagem) ao tentar fugir do compromisso de matar três ex-integrantes da SAS (Special Air Service) – e é aí que Danny, que havia se aposentado, é obrigado a voltar à ativa para cumprir o contrato do amigo e assim libertá-lo.

Usando legendas para identificar cada local visitado pelos personagens em mais um esforço para ambientar a trama no mundo real, o diretor (também estreante) Gary McKendry não demonstra o mesmo empenho em tornar a história plausível ao trazer o protagonista roubando medicamentos de um hospital apenas ao usar um jaleco e se apresentar como médico. Da mesma maneira, o descuido do cineasta fica evidente quando Danny exibe uma gravação para o sheik na qual o vemos interrogando uma das vítimas – o que é um problema, já que a câmera de vídeo obviamente está sendo manipulada por alguém em uma cena na qual o sujeito deveria encontrar-se sozinho.

Sem ter a menor noção de como decupar uma sequência de ação, McKendry falha nos aspectos mais básicos da função ao jamais incluir algum plano mais aberto que nos permita compreender a geografia das cenas – e, assim, quando vemos o herói saltando de um telhado para outro, dando meia volta, subindo e descendo escadas, não fazemos ideia de sua estratégia ou mesmo de sua posição com relação aos seus perseguidores. Além disso, os confrontos físicos protagonizados pelos personagens são retratados através de uma montagem entrecortada que, associada à movimentação constante da câmera, impedem o público de enxergar realmente o que está acontecendo. Como se não bastasse, o diretor não hesita em incluir flashbacks (completamente descartáveis, por sinal) sempre que Danny encontra-se a bordo de um avião, num clichê que se tornou oficialmente piada em 1980 quando o trio ZAZ o ridicularizou em Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu!.

Ator que jamais consegue alterar sua expressão cerrada, a voz rouca com forte sotaque cockney e que não se preocupa nem mesmo em mudar sua caracterização física, exibindo sempre a barba por fazer, Jason Statham vive aqui mais um personagem “Jason Statham”, bancando o durão mal humorado que, baleado, espancado ou despencando do alto de um prédio amarrado a uma cadeira consegue sempre manter-se inteiro por algum milagre da natureza, seja vivendo um personagem “real” ou não. Ainda assim, mesmo claramente vivendo um homem que ganhou a vida tirando a de outros, Danny é suavizado pelo roteiro tolo de Sherring através de um artifício desonesto: seus parceiros sempre propõem ações desnecessariamente cruéis apenas para que ele, mostrando-se indignado, insista em executar os alvos de maneira... digna. Por outro lado, Sherring nem tenta explicar por que o sujeito se recusa a aceitar o dinheiro oferecido para matar os três ex-SAS, esperando que aceitemos aquela decisão como mais uma espécie de prova do “caráter” do herói. (“Mato... mas de graça!”, parece ser a lógica.)

Falhando até mesmo em explorar a dinâmica potencialmente interessante entre Danny e o antagonista Spike, vivido por Clive Owen (divertindo-se com uma maquiagem que o deixa cego de um olho), Os Especialistas ainda traz Robert De Niro em um papel que poderia ter sido vivido por absolutamente qualquer outro ator, talentoso ou não – e se eu já não tivesse escrito uma carta aberta a ele em 2005, iria me sentir tentado a fazê-lo agora, já que é incompreensível como alguém que atuou em tantos grandes filmes poderia ler o roteiro de Sherring e aceitar fazer parte do projeto.

Incluindo um único momento mais inspirado (aquele que mostra rapidamente a trajetória de uma bala raspando transeuntes até atingir o alvo), Os Especialistas é o tipo de filme feito por homens, para homens e protagonizado por homens – e se uma mulher for vista em algum momento, é porque será usada para deixar o herói vulnerável ao temer por sua segurança, algo que Sherring, como bom picareta, demonstra compreender.

Pois a verdade é que se a narrativa construída pelo sujeito já é ruim, os diálogos conseguem ser ainda piores – e a obviedade destes é tamanha que, quando o personagem de Jason Statham diz “Matar é fácil”, o restante da frase me veio à mente antes que ele a completasse (sim, você acertou: “Viver com isso é que é difícil”). No entanto, nada poderia rivalizar com o momento em que Sherring apresenta os sombrios “Homens de Pluma” ao espectador através de um pequeno monólogo inacreditável no qual um deles praticamente grita “Somos vilões!” ao dizer – juro! -: “O que fazemos aqui é ilegal. Não podemos deixar rastros de nossas atividades. Por isso somos chamados de ‘homens de pluma’... porque o nosso toque é leve!”.

Juro que, neste momento, esperei que ele soltasse uma risada maligna enquanto colava um bigodinho no rosto apenas para torcê-lo diabolicamente.

01 de Dezembro de 2011

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