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O Caçador
(Chugyeogja)
125 minutos - Policial - 2009 (Coréia do Sul)
Data de Estreia no Brasil: 23/10/2009
Ex-policial que agora vive como cafetão passa a perseguir o responsável pelo desaparecimento de várias de suas garotas de programa.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Na Hong-jin. Com: Kim Yun-seok, Ha Jung-woo, Seo Yeong-hie, Jun In-gi, Park Hyo-ju.

É realmente admirável que O Caçador seja o primeiro longa-metragem do sul-coreano Na Hong-jin. Não, mais do que isso: é impressionante, já que, embora à primeira vista possa ser encarado apenas como um exercício de gênero (serial killer é perseguido pelo herói), o filme alcança um equilíbrio surpreendente entre o drama, o suspense e, acreditem ou não, a comédia, revelando-se uma obra madura e complexa que insiste em desafiar as idéias pré-concebidas do espectador do início ao fim.

Escrito pelo próprio Hong-jin ao lado de Lee Shinho e Hong Won-Chan (também estreantes em longas), O Caçador gira em torno do ex-policial Eom Joong-ho (Yun-seok), que, demitido por atos de corrupção, agora trabalha como cafetão. Porém, quando duas de suas garotas desaparecem, ele se convence de que elas foram vendidas por um rival e decide usar a jovem Kim Mi-jin (Yeong-hie) como isca para atrair o responsável, mas sem imaginar que as outras foram, na verdade, vitimadas por um serial killer (Jung-woo). Quando Kim desaparece, deixando a filha pequena entregue à própria sorte, Joong-ho parte à sua procura – e é então que o roteiro nos surpreende pela primeira vez: se esperávamos que toda a projeção se ocupasse com a investigação/perseguição do ex-policial, isto logo chega ao fim quando o assassino Jee Young-min é capturado e confessa seus crimes – logo no primeiro ato da narrativa. E o que vem a seguir é algo que prefiro não revelar sob pena de arruinar a experiência.

Anti-herói até a raiz dos cabelos, Joong-ho é encarnado pelo ótimo Kim Yun-seok sem quaisquer concessões que possam tornar o personagem mais palatável para o público: já no início, o cafetão manifesta o desejo de machucar uma prostituta que julga tê-lo traído e, pouco depois, obriga Kim Mi-jin, mesmo adoentada, a sair de casa para atender um cliente. Além disso, mesmo depois que Young-min afirma ter matado várias garotas, o ex-policial permanece determinado a encontrar Kim não por temer por sua vida, mas por acreditar que o outro está mentindo e, portanto, ocultando o paradeiro da moça no qual investiu tanto dinheiro. Ainda assim, o ator consegue a proeza de humanizar o sujeito, tornando seu arco dramático plenamente convincente – e considerando que as mudanças sofridas por Joong-ho ao longo da narrativa são consideráveis, é admirável que as aceitemos sem estranheza. Como se não bastasse, Yun-seok emprega algumas sutilezas geniais em sua composição, como ao mostrar seu personagem com ânsia de vômito após uma perseguição desgastante pelas ruas íngremes de um bairro da cidade.

Enquanto isso, Ha Jung-woo evita qualquer tipo de caracterização exagerada ao encarnar o assassino Young-min: enquanto boa parte dos atores responsáveis por interpretarem personagens do tipo apela para olhares repletos de maldade e para um cinismo exagerado, Jung-woo adota a postura oposta, retratando Young-min como um sujeito estranhamente passivo que parece detestar a idéia de confronto. Ainda assim, gradualmente o rapaz surge como uma ameaça palpável, levando-nos a temer não só pela vida das prostitutas que persegue, mas também pela do próprio (anti-)herói. E se Seo Yeong-hie apresenta-se corretamente vulnerável, despertando nossa simpatia e preocupação, o restante do elenco secundário brilha ao ilustrar a falta de iniciativa e mesmo a preguiça irritante de policiais acostumados a uma existência mergulhada em trabalho burocrático e na necessidade de sempre puxarem o saco de seus superiores – e até mesmo a postura largada, preguiçosa, com que preenchem formulários e digitam depoimentos é indício desta frustrante letargia.

Com uma fotografia que ressalta constantemente a atmosfera urbana e hostil de Seul (ou de qualquer outra grande metrópole, vale dizer), O Caçador explora especialmente a geografia labiríntica do bairro no qual boa parte da ação se passa, empregando também com talento a chuva ocasional que despenca sobre a cidade, tornando o tom da narrativa ainda mais melancólico e claustrofóbico. Da mesma forma, o diretor Na Hong-jin e o ótimo montador Kim Sun-min (Memórias de um Assassino) freqüentemente nos surpreendem com planos-detalhe que realçam ainda mais a crueza e, de maneira curiosa, a verossimilhança daquele universo, como ao mostrarem um policial mexendo nas unhas do pé, o caderno usado por Joong-ho para anotar os compromissos de suas garotas ou o interessante momento em que uma policial, ao ser assediada pelo assassino (que diz sentir o cheiro de sua menstruação), cruza as pernas discretamente.

Neste sentido, elogios também devem ser feitos à direção de arte, que já ajuda a estabelecer as personalidades dos principais personagens através do escritório sujo, triste e amontoado do protagonista e do banheiro imundo, escuro e ameaçador usado pelo vilão como abatedouro. Além disso, o filme jamais hesita em retratar os atos de violência cometidos pelos personagens de maneira terrivelmente gráfica, empregando também uma fotografia que, justamente por investir pelo realismo, torna não só o suspense quase insuportável como também potencializa o surpreendente efeito cômico de várias seqüências.

E, sim, O Caçador pode ser estranhamente engraçado em vários momentos: em primeiro lugar, Joong-ho é um resmungão inveterado – e vê-lo sempre reclamando em voz baixa da incompetência de todos que o cercam é um dos grandes achados da performance de Yun-seok. E mais: assim como o sofrimento exagerado da família de O Hospedeiro causava risos, aqui o nervosismo dos policiais provoca efeito similar (e um dos planos mais hilários do longa é aquele que traz vários deles brigando em uma delegacia enquanto um dos policiais surge só de camiseta branca e sobre  uma mesa, absolutamente possesso de raiva). Por outro lado, a subtrama envolvendo um ataque ao prefeito acaba prolongando o filme desnecessariamente, por mais divertida que seja. Mas o mais importante é que o estreante Hong-jin, mesmo usando bastante o alívio cômico, jamais permite que deixemos de sentir o peso de outras seqüências mais sérias, como aquela em que vemos uma garotinha chorando dentro de um carro enquanto o som da chuva abafa seu sofrimento.

Embora traga boas referências a obras como O Silêncio dos Inocentes (a enganosa montagem paralela envolvendo uma campainha) e Se7en (o flash que pisca na tela enquanto um personagem procura tomar uma importante decisão), o filme que mais parece ter influenciado O Caçador é mesmo o soberbo Memórias de um Assassino, também da Coréia do Sul (sim, aquele mesmo montado por Kim Sun-min – que, diga-se de passagem, também trabalhou no já citado O Hospedeiro). Dividindo com aquela obra-prima de Bong Joon-ho a natureza obsessiva do protagonista e principalmente a visão pessimista sobre a força policial do país, O Caçador é um longa que certamente surpreenderá o público acostumado à estrutura formulaica da maior parte das obras do gênero.

O que não quer dizer que você sairá do cinema com uma sensação agradável. Aliás, eu estranharia muito se saísse.

15 de Outubro de 2009

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