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Polícia, Adjetivo
(Politist, adj.)
115 min - Policial - 2010 (Romênia)
Data de Estreia no Brasil: 07/05/2010
Policial entra em crise após se recusar a prender jovem que ofereceu drogas a dois colegas de escola.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Corneliu Porumboiu. Com: Dragos Bucur, Ion Stoica, Vlad Ivanov, Irina Saulescu.

Nos últimos anos, os soberbos A Morte do Senhor Lazarescu e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias foram responsáveis por apresentar para o mundo o “Novo Cinema” romeno: calcadas no realismo, as obras-primas de Cristi Puiu e Cristian Mungiu adotavam uma estética baseada em longos planos-seqüência, na utilização de sons diegéticos no lugar de uma trilha convencional e da contemplação como forma de observar e compreender seus personagens e o mundo que estes habitam. Pois Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu, não se afasta em nada desta lógica narrativa; a diferença é que, enquanto Puiu e Mungiu demonstravam saber empregar esta lógica em prol da história que queriam contar, Porumboiu parece utilizá-la como um fim em si mesma, como se assemelhar-se aos projetos de seus compatriotas fosse o bastante para colocar seu filme no mesmo nível. E ainda que o longa tenha saído premiado na mostra Un Certain Regard em Cannes, atrevo-me a sugerir que o júri talvez tenha se deixado levar pela lógica do “se parece um pato e soa como um pato, deve ser um pato” – sem notar que a ave em questão tinha chifres, dentes e tetas.

Girando em torno de um policial que recebeu a tarefa de seguir um adolescente denunciado por vender haxixe para os colegas de escola, Polícia, Adjetivo gasta a maior parte de seus intermináveis 115 minutos acompanhando, em planos longuíssimos, a rotina de trabalho de seu protagonista – que, neste caso, é limitada a caminhar lentamente alguns metros atrás de sua presa durante todo o dia. Sim, o propósito desta estratégia é claro: Porumboiu quer que o espectador realmente sinta a natureza entediante e frustrante do trabalho de Cristi (Bucur), especialmente para que percebamos o absurdo de tamanho esforço ser despendido em um caso sem a menor importância (nem mesmo o detetive acredita estar fazendo a coisa certa ao encurralar o jovem). Porém, mesmo depois que este objetivo é cumprido pelo cineasta, a lógica da montagem e da decupagem é mantida, transformando o longa num torturante exercício de paciência.

Com uma fotografia naturalista que usa com propriedade as luzes fosforescentes do ambiente de trabalho de Cristi como forma de conferir uma atmosfera de decadência e tristeza àquele universo, Polícia, Adjetivo conta traz alguns poucos momentos que indicam o potencial que aquela narrativa encerrava, como o instante em que, ao chegar em casa, o protagonista pede que a esposa abaixe o volume do som, sendo prontamente ignorando e resignando-se a isto exatamente como está habituado a resignar-se a todo o resto. Da mesma forma, a direção de arte é impecável ao retratar a sala ocupada pelo detetive como um lugar deprimente, envelhecido e com móveis e equipamentos desgastados pelo tempo.

Infelizmente, a fascinação de Porumboiu por sua própria estratégia de obrigar o espectador a seguir o policial enquanto este segue o adolescente acaba relegando todos os demais elementos ao segundo plano – e, assim, sempre que o filme dá mostrar de estar chegando a algum lugar, voltamos às entediantes caminhadas sem fim enfocadas pela câmera quase estática do diretor (ele se limita a algumas panorâmicas para acompanhar o protagonista; aparentemente, até mesmo os travellings exigiriam uma energia que o cineasta não estava disposto a gastar).

E o mais frustrante é constatar que, em seus 20 minutos finais, Polícia, Adjetivo finalmente ganha impulso numa longa cena que, situada na sala do chefe de Cristi, envolve um diálogo que não apenas justifica o título, como o filme em si (e não posso deixar de apontar que o delegado em questão é interpretado por Vlad Ivanov, o mesmo brilhante ator que encarnou o ameaçador aborteiro de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias). Focando uma discussão que envolve moralidade, ética profissional e, acima de tudo, semântica, a cena não apenas é impecavelmente desenvolvida como ainda serve de preparação para o curto plano que encerrará o filme de maneira irônica e reveladora.

Assim, é realmente uma pena que, para chegarmos a estes 20 minutos de excepcional Cinema, tenhamos que enfrentar uma longa e cansativa (e, de certa forma, literal) caminhada.

Crítica originalmente publicada durante a cobertura da 33ª. Mostra de São Paulo.

29 de Outubro de 2009

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