Bem-vindo!
 
Publicidade
Publicidade
30ª. parte: O medo do artilheiro diante do pênalti
por Redação Cinema em Cena

Loyengalani, 21/07/2004

Perder um pênalti em frente a um estádio lotado não é mole. Foi como me senti ao assistir montada a primeira cena rodada no Quênia, uma festa da embaixada inglesa em Nairobi. Ninguém gostou. Nem eu, nem o Simon e muito menos a montadora, Claire. O Simon me ofereceu, então, a possibilidade de refilmagem, traria de volta cinco atores que já estavam em Londres, Dublin e Paris, e rodaríamos novamente. Aceitei a oferta. No que sobrava de tempo livre entre as filmagens, trabalhamos em novas versões do roteiro para a cena, foram contactados agentes, reservadas as passagens para os atores, achamos nova locação e foi mudado todo nosso cronograma. A nova cena aconteceria durante uma corrida de cavalos. Quando tudo estava certo, três dias antes de rodar voltei atrás e decidi adiar a solução do problema e não refilmar. Um monte de trabalho para nada. O Simon compreendeu minha guinada ou disfarçou bem, educado como é. Sei que fui muito mala, mas achei melhor ter o filme todo montado primeiro e aí sim, se necessário, em outubro ir para Londres e fazer uns dois dias de filmagem adicional.

Refilmar depois do filme montado é bastante freqüente. O Woody Allen, por exemplo, quando orça um filme, coloca sempre 40% a mais de verba para refilmagens e de fato acaba sempre refilmando quase metade depois que assiste à primeira montagem. Há um filme em que ele trocou o ator principal depois de rodado, Setembro se não me engano.

Em The Constant Gardener, tivemos apenas duas cenas problemáticas: a primeira foi esta festa onde estava tudo errado, texto, interpretação, a lente usada, o movimento de câmera, figurino, produção, telecine. Um desastre de A a Z, errei em todas as decisões. Na outra, errei no tom. Era uma cena da Tessa seduzindo o Sandy. Filmamos uma Tessa decotada e irresistível dando mole para o colega do marido descaradamente. Achamos que seria interessante ela ir fundo, cruzar a linha, mas passamos do ponto. Ela acabou ficando meio biscate.

Falo na segunda pessoa do plural, pois a Rachel e o Danny Huston também gostaram da idéia a princípio e botaram pilha. O César cantou a bola quando estávamos filmando, mas eu quis correr o risco e banquei. Quebrei a cara. Esta cena foi refilmada na semana passada aqui em Nairobi. Para não errar de novo, sentei com o Danny e com a Rachel numa manhã de folga improvisando a cena e reescrevendo os diálogos a três. Não é por acaso que o Mike Leigh ou o Ken Loach escrevem seus roteiros com a participação dos atores. Os atores conhecem muito mais seus personagens, pois não têm sua atenção dividida como um diretor. Em pouco tempo, a Tessa e o Sandy começaram a falar através da Rachel e do Danny, era como o espírito do Dr. Fritz dando consultas. Fui anotando como o Chico Xavier fazia e dando muita risada. Uma manhã divertida. Mudamos bastante o tom, ficou menos dramático talvez, mas mais crível. Para minha surpresa, ontem recebemos o telecine desta cena já refilmada e, por alguma maldição inexplicável, dois rolos dos takes da Tessa estavam estragados, vazou luz no magazine. Para piorar, a maior parte do que sobrou está com problemas de foco. Vamos tentar montar com o que resta, mas sei que esta é uma cena candidata à refilmagem pela segunda vez.

É difícil lidar com este tipo de erro durante a filmagem. Sua cabeça tem que estar voltada para as cenas do dia e para frente, mas você sabe que tem aquele passado te condenando. Depois de ver estas cenas erradas, comecei a questionar tudo. Achar que tudo estava errado, que esta história não interessa, que os personagens não convencem, que o filme está muito certinho. Fora o César que me dá um ótimo feedback o tempo todo, sinto falta dos parceiros habituais. Quis estar em São Paulo exercendo outra profissão, prostético, por exemplo. Quando um prostético erra, basta por a culpa no material, refazer o molde e tentar novamente. Não estou reclamando, mas às vezes é pesado ter que acordar todos os dias e encontrar 150 pessoas esperando que você diga o que devem fazer: este vermelho naquela mulher está bom? Tiro os colares? Onde vai a fumaça? Quantos cavalos nesta cena? Devo fazer mais agressivo ou mais introspectivo? Depois deste plano fazemos o quê? Vai ter música nesta cena? O som não está bom para mim, rodo assim mesmo? Você já aprovou as novas páginas do roteiro para amanhã? Tal ator precisa de atenção, marco um jantar? Indiano ou italiano? Quer dizer: é duro.

Durante este período de crise, a Ciça e o Quico estavam comigo em Nairobi. Como estávamos filmando muitas cenas em interiores, só apareciam para almoçar no set e depois os encontrava a noite no hotel, entre uma reunião e outra. É ótimo ter um pouco de sua vida pessoal durante a filmagem, mas é difícil ao mesmo tempo. Muitas vezes você quer estar lá, mas tem que estar aqui. A Ciça trouxe uma pilha de CDs e compilações de música africana que vem fazendo há tempos. Isso já está sendo útil na montagem. Ela deu o apoio moral habitual, ficou uma semana e voltou para o Brasil. O Quico fica até o final da filmagem, ainda bem.

Por sorte estas últimas duas semanas foram especialmente estimulantes e espantaram os urubus. Saímos de Nairobi e começamos a rodar algumas cenas com mais ação ao ar livre. Ontem voltamos de Lake Magadi, onde filmamos uma seqüência de perseguição e o que pode vir a ser a seqüência final do filme. Visualmente é o melhor material até agora, o Justin parece mesmo uma outra pessoa como deveria ser. Este filme percorre mais uma vez o famoso mito do herói, o personagem que precisa empreender sua jornada em busca do seu objetivo, age além de seus limites e neste percurso se transforma e se redime. Nada de novo, este é o arquétipo que mais gostamos de ver e rever em suas milhares de versões.

Em Magadi, a equipe ficou hospedada em 45 tendas em condições meio difíceis, mas os ingleses, como já disse, nunca reclamam, no máximo comentam com fino humor. Este é um povo que aprendi a admirar neste trabalho. O nível de educação, respeito e consideração ao próximo que eles têm facilita muito a vida. Oitenta por cento dos problemas que poderíamos ter tido não ocorreram devido ao alto grau de tolerância geral. É verdade que não foi sempre assim, a história dos ingleses foi feita na base da intolerância, arrogância, destruição e pirataria em todos os cantos do planeta. Talvez isso tenha sido necessário para chegarem aonde chegaram. Hoje temos que reconhecer que são uma sociedade extremamente civilizada e que a civilização, afinal, tem seu lado positivo.

Fernando Meirelles

* Foto: Fernando Meirelles

29ª. parte: Duas mortes e um funeral
por Redação Cinema em Cena

Nairobi, 30/06/2004

É como brincar de Deus, modificando ao acaso o destino alheio. Uma mãe protetora para esse garoto, um pai aidético para aquele outro. É assim todos os dias na maternidade do hospital Puwmani, onde, por alguma razão inexplicável, eles não usam fitas de identificação nos recém-nascidos. Na minha frente, vi os enfermeiros colocarem sete bebês alinhados numa cama, as mães vieram dali a pouco e praticamente escolheram seus filhos.

- O meu era uma menina e tinha cabelo. É aquela.

- Não, este é um menino.

- Então só pode ser esta outra.

O funcionário, menos abismado do que deveria, estima em 40% a taxa de bebês trocados. É uma taxa próxima a da mortalidade infantil nesta maternidade. Foi aqui que a Tessa resolveu ter seu filho, Garth. Ele nasceu morto, claro. Apesar de muito movimentada, fechamos uma ala da maternidade por dois dias. Não sei quanto pagamos, mas deve ter sido significativo para eles terem aceitado o transtorno que provocamos. Só espero que o dinheiro fique no hospital mesmo. Estão precisando. Baldes cheios d’água fazem o papel de torneiras, pois já não há água encanada faz tempo. A sujeira do lugar impressionaria até numa estação rodoviária, é absurda num hospital. Nossa equipe passou dois dias limpando para que pudéssemos filmar. Como era uma cena difícil, filmamos num dia, a Rachel não gostou do que fez e pediu para refilmarmos no dia seguinte. Achei que seria perda de tempo, mas ela estava certa, mudou o tom e a cena melhorou muito.

Fora a morte do filho, filmamos nesta semana o enterro e o reconhecimento do corpo da própria Tessa. Esta foi outra locação complicada: o mortuário de Nairobi. Pela manhã, as mesas estavam lotadas. Conforme o combinado, a produção chegou às 11:00 para colocar os corpos de verdade nas geladeiras e dar lugar aos nossos figurantes. Cheguei a propor filmar com os mortos que estivessem lá, pagando algo para as famílias, mas a idéia foi considerada fora de propósito e desrespeitosa. Claro que não insisti, mas estou certo que os familiares gostariam de um dinheiro extra para um enterro melhor para seus parentes ou, se fossem mais pragmáticos, dinheiro para investir na parte viva da família.

As mesas foram lavadas e desinfetadas obsessivamente, a Tracey mandou acender 200 incensos antes da nossa chegada, mas não adiantou, o cheiro está impregnado nas paredes há mais tempo. Para ajudar os atores, combinei que não haveria ensaios, eles entrariam ali pela primeira vez como se estivessem mesmo procurando o corpo da Tessa numa daquelas mesas (Nota do editor: ler a parte 6 do diário). Preparamos algumas surpresas no caminho: um camarada muito magro e nu, um outro sem uma perna, que maquiamos de forma a parecer que tivesse perdido num acidente de carro, uma criança, e por aí a fora. Em nosso primeiro take, os atores, Ralph e Danny Huston, de fato fizeram muito bem, o problema foi o garoto na mesa de trás, que ficou curioso e no meio do take sentou-se para assistir à cena. Homenagem a A Volta dos Mortos Vivos. O Justin chorando na frente e um morto ressuscitando ao fundo. Tivemos que fazer uns seis takes para que tudo desse certo. Erros como esse acabaram tirando a concentração e irritaram, com razão, o Ralph. Mesmo assim, assisti às imagens, a cena está crua e intensa. Ninguém vai notar ao fundo o pezinho do moleque mexendo.

Depois de filmada a cena com os atores, filmamos mais uma vez esta chegada, mas do ponto de vista do Justin. Para rodarmos isso, pedimos ao próprio Ralph que operasse a câmera. Quase todas às vezes que filmamos o Justin chegando em algum lugar onde é preciso criar suspense, temos feito uma subjetiva e o próprio Ralph tem feito sempre a sua versão. O César é o grande incentivador desta idéia. Mas o que era uma brincadeira para a equipe acabou nos surpreendendo quando vimos o que foi filmado no mortuário. Ele fez com a câmera o mesmo raciocínio de quando estava atuando. Entrou meio lentamente no grande salão, olhou os primeiros corpos nas mesas com o canto do olho/câmera, dirigiu seu olhar para o chão e, ao chegar em frente à mesa da Tessa, foi para os pés, a mão, até chegar no momento de reconhecer o rosto. Como se a câmera quisesse ver o que estava ao redor, mas estivesse com receio. Como o seu movimento é muito estável, certamente as imagens entrarão no filme. Ralph é mesmo um ator completo, até seu ponto de vista tem sentimento.

Fora estas subjetivas com a A-Mínima, o filme incorpora também algumas imagens amadoras, às vezes em vídeo, às vezes com uma web cam gravando direto no laptop da Tessa. Aí, mais uma vez, temos deixado que o Ralph e a Rachel operem a câmera que seus personagens deveriam estar operando. São momentos mais íntimos, sem muito diálogo, apenas improvisação e clima. A textura destas câmeras vagabundas ajuda a dar um clima mais pessoal às imagens e, como não precisamos da equipe, os atores podem ficar sozinhos se gravando, conseguindo um tom realmente íntimo. O Dogma propõe que o ator faça seu próprio figurino e maquiagem, mas poderiam ter dado este passo à frente, propondo que os atores também fizessem a câmera. Tem funcionado.

No final desta semana, comecei a ficar um pouco disperso. A Ciça e o Quico vêm me visitar, chegam sexta-feira. O anúncio desta presença está me deixando nostálgico. Estou com vontade de acabar logo o filme e voltar para casa, mas ainda faltam quatro semanas. As mais difíceis por sinal. No norte do país, sem eletricidade e sem e-mail, a 40 graus na sombra, mas sem sombra. As preparações desta seqüência em Loiangalani estão parecendo uma operação de guerra. Nunca imaginei que seria tão complicado. Depois eu conto.

Fernando Meirelles


* Fotos tiradas por Fernando Meirelles em locação (Foto 1: Tracey Seaward e Ralph Fiennes; Foto 2: Fernando e Quico em Kiambu)

« Posts anteriores Posts recentes »

Últimas Atualizações

Variedades

    Publicidade

    Agora!