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18/04/13 - 18h49
por Luísa Teixeira de Paula

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Um livro infantil tem como premissa básica oferecer um mundo de encantamento aos seus leitores, não importa o contexto histórico-social em que foi produzido ou sua língua natal. Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, ilustra bem esta questão. Lançada em 1968, a obra foi traduzida para 52 idiomas e publicada em 19 países. Com mais de 6 milhões de cópias vendidas, ela chega, nesta sexta-feira, 19 de abril, aos cinemas brasileiros, em sua segunda adaptação para as telonas.

Com direção de Marcos Bernstein (O Outro Lado da Rua), o longa conta a história de Zezé e seu pé de laranja lima, em um cenário de pobreza e incompreensão: tido como o Menino Diabo na família, ele esconde em suas levadezas altas doses de imaginação e sensibilidade.

Belo Horizonte recebeu boa parte da equipe de produção e o elenco do filme em uma pré-estreia na última quarta-feira, dia 17. Ao público, ficou clara a paixão que une cada um deles em torno da mesma história: eles acreditam no que fazem.

Em uma das várias passagens do clássico infantil, Zezé afirma: “Eu preciso treinar porque eu vou trabalhar no cinema mais tarde”. O protagonista, que tem os heróis dos filmes de faroeste Fred Thompson e Buck Jones como companheiros em seus sonhos e brincadeiras, já havia sido levado às telonas na década de 70 pelo diretor Aurélio Teixeira, mas nada que se compare ao filme de Bernstein. Ele, menino do Rio, tem um sotaque agradavelmente carioca e falou ao Cinema em Cena como é a experiência de levar um livro tão marcante ao cinema, 45 anos depois de seu lançamento.

No livro, o cinema - principalmente com seus filmes de bangue-bangue, Fred Thompson e Buck Jones - faz parte do imaginário de Zezé e de suas brincadeiras. Como é levar para as telonas uma história em que as referências cinematográficas são tão importantes?

É um livro que falava de uma época em que essas referências eram muito presentes. Você tinha cowboys, tinha índio. A gente se propôs, no filme, a fazer uma adaptação levando para essa história, o universo do Zezé, um olhar de hoje, um olhar... O filme se passa numa época meio indefinida, mas que é por agora. Então qual referência equivalente uma criança dessas teria com a época do Zezé do livro? Não tem mais cinema no interior, né? Não tem mais cowboy, não tem mais índio. Então a gente foi buscar coisas que acontecem no entorno dele, então sei lá... Ele tá no zoológico dele, ele não tem necessariamente um galinheiro, mas tem um bambuzal que é o zoológico e ele busca os barulhos, o latido de um cachorro vira um leão, o que era um cowboy e um índio se tornam um campo imenso numa cavalgada que nos parece incrível. Então a gente precisou trazer no mundo daquele menino, que a gente tinha que retratar nos dias de hoje, o lado lúdico equivalente ao do Zezé no livro.

Meu Pé de Laranja Lima é um livro de 1968. Como é transpô-lo para os cinemas 45 anos depois? Quais mudanças na sociedade foram mais significativas a ponto de uma adequação da narrativa se tornar necessária?

Acho que são duas coisas, né? Não só o livro foi lançado há 45 anos como ele retratava também um mundo 100 anos atrás. É difícil dizer quais as mudanças são significativas porque o livro é um veículo tão diferente de um filme. E de certa maneira o filme tem uma evolução de linguagem – talvez nem tanto uma evolução, mas uma mudança de linguagem. Não é evolução, que pode ter sido para pior. Mas, uma mudança de linguagem talvez mais drástica que o livro. Os cortes mais rápidos; as histórias hoje em dia são contadas com muito mais pressa que antigamente. Antigamente, você tem um filme, você pega um épico: Lawrence da Arábia, são 15 minutos antes de acontecer o primeiro tiro. Você pega o Gladiador: no primeiro minuto já tem uma batalha enorme. E isso acontece no cinema. Então, o nosso filme talvez tenha uma dinâmica, busque uma dinâmica mais contemporânea. Ele tem um tempo de situar a história, estabelecer o universo do Zezé, a casa dele, do que ele está tentando escapar, mas acho que ele vai ganhando um ritmo que é um ritmo mais contemporâneo, que tem uma montagem dinâmica, que tem enquadramentos que ficam um pouco mais  estranhos porque também estão reproduzindo este olhar curioso do Zezé para o mundo. Então eu acho que é uma coisa assim. Por exemplo, teve o filme da década de 70, mas é um filme com um tempo muito mais próximo do livro, talvez. Ele tinha uma narrativa, talvez com o ritmo da época. E a gente já tem outro, uma outra linguagem. A gente busca ser muito mais fiel à história e ao personagem do que efetivamente a cada cena do livro. Então tem esse trabalho de reprocessamento.

Foram dez anos entre a ideia de adaptar o livro e sua estreia no cinema. Por que todo este tempo?

É que esse é um filme cuja ideia já teve vários formatos, um projeto com várias composições. Em um determinado momento a gente tinha uma coprodução muito grande com a França, o Portuga ia virar um francês, ia ser ainda de época, com efeitos especiais digitais, ia ser uma outra coisa... A parte da França entrou, mas acabou que no Brasil demorou muito, porque o financiamento de filmes no país é muito mais demorado e os franceses acabaram saindo do projeto. Aí a gente teve que reformular o projeto todo, fazer um filme só brasileiro e por isso foi tomando mais tempo: o filme que era de época passou a ser contemporâneo. Então foi toda uma série de reformulações que o projeto foi tendo ao longo dos anos e a gente foi tomando tempo.

Por falar nesta parceria francesa, a trilha sonora do filme foi composta por Armand Amar, francês de origem marroquina nascido em Jerusalém. A globalização da produção é uma característica marcante do cinema do século 21?

Não sei se é uma característica, mas é uma possibilidade, né? O Armand... A gente tava em busca de um compositor e a Kátia [Machado], produtora, tinha entrado em contato com ele para um outro projeto. Armand é um músico super premiado na França, fez filmes do Costa-Gavras [cineasta naturalizado francês, diretor de Z e Desaparecido - Um Grande Mistério, entre vários outros], do Radu [Mihăileanu, cineasta romeno-francês, diretor de O Concerto]. Já fez filmes muito conhecidos, já ganhou César, essas coisas. A gente a princípio não achou muito viável, mas a Kátia acreditou que se ele curtisse o filme ele poderia entrar e fazer uma composição em uma situação financeira que fosse interessante. Ele adorou o filme, foi super parceiro, fez a preço de banana pra gente e aí a gente trouxe. Ele tem uma música tão linda, tão sensível. É sempre maravilhoso trabalhar com o Armand.

O que ele agregou a uma obra essencialmente brasileira?

Uma obra essencialmente brasileira, mas uma obra que é adotada em dezenas de países, nas escolas. O livro foi super vendido na França, na Coreia, na Turquia, no Uruguai... Então ele é um livro multinacional nesse sentido, né? E acho que assim, eu quando chamei o Armand, eu tinha a referência das músicas que ele já tinha feito, da sensibilidade que ele tinha. Era mais ele entrar no universo infantil e do filme que uma nacionalidade específica, né? A composição é uma coisa do coração, né, e ele se encantou com a história. E botou a sensibilidade dele a serviço do filme.

Nossa, agora eu fiquei ainda mais curiosa.

É bem bonita [a trilha], eu acho ela bem bonita.

O livro foi lido por diversas gerações ao longo do tempo. Não só pelas crianças da década de 60, as crianças da década de 70... Ele foi lido pelas crianças, adolescentes e adultos de cada década que percorreu. Como é levar isso para o cinema? Existe uma preocupação em manter intacta a memória afetiva das pessoas que leram o livro ou é mais ou menos “estou tomando emprestada a memória de vocês para mostrar o que eu acho da obra”?

Não, acho que é difícil, você não tem como dar conta da imaginação de cada um, de cada pessoa. Acho que a proposta mais honesta que você pode fazer é tentar entender por que que este livro emociona e continua emocionando, continua encantando as pessoas depois de tanto tempo, em tantos lugares, realidades tão diferentes. E dessa compreensão, fazer o melhor filme que você consegue fazer, tentar e contar que as pessoas entendam e curtam a ideia de que o livro tem um universo próprio e o filme é uma outra experiência. São experiências próximas, que tem a mesma base, mas que são diferentes. E que talvez o filme possa complementar o livro, o filme possa te dar uma outra opção de leitura daquele livro e isso possa ser uma experiência tão legal quanto o livro.

Você disse ter a preocupação em fazer o melhor filme que conseguir. Você acha que conseguiu?

Ah, quem tem que dizer são vocês, as pessoas que assistirem ao filme. Espero que vocês curtam muito, que tenham um momento especial. E se encantem do jeito que nós nos encantamos.

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O Portuga 

Ao ver José de Abreu sentado no hall do Usiminas Belas Artes, em Belo Horizonte, não pude acreditar que era ele, aquele cara calmo tomando uma cerveja e comendo pipoca, o ator da Globo e polêmico militante do Twitter na minha frente.

Em um bate-papo que é tudo ao mesmo tempo, sobre a televisão, seus próximos projetos e o papel de Portuga em Meu Pé de Laranja Lima, ele mostrou que as descrições que lhe são atribuídas não são nada perto do que ele realmente é: “Desculpa, eu sou assim. Maluco.”

Em uma pré-estreia com mais gente que a sala suporta, como é pra você, um dos protagonistas do filme, estar em Belo Horizonte e ver esse monte de gente querendo ver seu trabalho antes de todo mundo?

Essas estreias normalmente a gente faz em salas maiores. Quando foi em São Paulo foram seis salas. Convidamos jornalistas e praticamente formadores de opinião, mas aqui não sei o que aconteceu, a sala é muito pequena. Eu tinha dez convidados de Minas que tive que desconvidar. A moça falou: “Olha Zé, tem 244 confirmados, a sala tem 140 lugares". É um filme baseado em um livro que vendeu seis milhões de exemplares, é muita coisa. Quem tem mais de 35, 40 anos leu esse livro...

Quem tem 20 também.

Você leu esse livro?

Li.

Ainda continua vendendo bem esse livro? Eu não sei. Você leu ele na escola uma coisa assim, não?

Não sei, li quando era pequena e li agora, por causa do filme. Mas a minha relação com o livro é de que ele marcou um pouco da minha infância.

Aí, que bom. Agora, pelo que a gente fez em São Paulo e Rio, anteontem e ontem [15 e 16 de abril], a reação da plateia foi excelente. Tô achando que nós vamos conseguir, apesar de ser muito difícil, enfrentar o cinema americano – isso é uma coisa que a gente sofre demais. Os cinemas não querem, não podem. Para ter um filme bom, os cinemas têm que comprar 20 filmes ruins americanos e aí não tem salas. Mas nós vamos estrear com 100 cópias em 100 cinemas do Brasil, o que é um número razoável para um filme nacional. A gente espera que consiga na primeira semana aumentar esse número de cópias. Vai depender muito do boca a boca. Porque nós não temos dinheiro para competir com o cinema americano. A gente conseguiu 25 chamadas na Globo, eles entram com 250.

Mas acho que tem essa questão de as pessoas estarem curiosas para ver, por mais que já tenha sido feita uma adaptação nos anos 70...

Mas era muito ruim, né... Foi uma fase em que o cinema brasileiro tava muito pobre... Eu assisti na época. Agora não vi de novo. Tiveram duas novelas, né? Na Tupi e na Bandeirantes, se não me engano.

Sua carreira, nos últimos anos, foi mais voltada para a televisão. Qual é a diferença entre fazer um filme como Meu Pé de Laranja Lima, que demorou dez anos desde a ideia inicial até a chegada aos cinemas, e uma novela, que se desenvolve junto com a reação do público e vai crescendo ou não, dependendo de sua aceitação?

Na realidade, os dez anos foram da produtora. Eu entrei no filme, acho que dois meses antes de lançar. Eu não sabia nada do filme.

Vou produzir um longa-metragem, contratei o Marcos para escrever o roteiro, a gente ficou amigo. Foi muito tranquila a nossa relação: ele aceitava as minhas ideias e eu aceitava as ideias dele com muita tranquilidade. Não sabia, mas depois ele disse: “Porra, nunca tinha feito um roteiro com tanto amor e com tanto carinho”, então a gente se deu muito bem. Eu ia dirigir o filme, desisti, quem vai dirigir vai ser ele. Porque ele gosta tanto do roteiro, acha um dos melhores roteiros que já fez. É um filme sobre a migração judaica no Rio Grande do Sul. Ficou muito cara a primeira versão, agora tô há cinco anos com esse filme. Já viajei o mundo inteiro fazendo pesquisas e tal. Agora a gente tá conseguindo uma sociedade com uma empresa americana, um produtor americano, pra ver se a gente roda daqui há uns dois anos. O filme vai ser falado em iídiche, uma língua judaica, você sabe, né? Quase morta, só os judeus mais velhos é que falam.

E televisão, essa coisa de novela no Brasil é... Acho que é um dos únicos países do mundo onde a novela interfere na política, na vida, no dia-a-dia da pessoa... Menos Avenida Brasil, que não mudou nada, porque quando nós estreamos, ele [João Emanuel Carneiro, o autor] já estava com 150 capítulos escritos. O negócio é personalidade. Ele não deu a menor bola. Não quis pesquisa, nada. Ele falou: “não, é isso que eu vou fazer. Se não der certo, acabou, não deu certo”. Mas deu muito certo, né... A primeira novela que eu não li sinopse, não sabia nada do meu personagem, do passado, do futuro. Foi um voo cego. Foi uma tentativa, que eles fizeram, os diretores [José Luiz Villamarim e Amora Mautner] e o autor, que no fim deu certo.

Sobre o filme: você faz o Portuga, que passa de arquiinimigo do Zezé ao pai que ele escolheu para si.

Na verdade ele não é um arquiinimigo, porque ele pega o Zezé tentando subir no carro dele – ele adora aquele Citroën. Então, na primeira cena ele bate no moleque, depois ele vê o moleque mancando na rua e vai e acaba vendo que o moleque seria hoje um hiperativo, não um moleque com o diabo no corpo. E a família acha que o moleque tem o diabo no corpo, mas não é isso, né? O moleque é hiperativo. O moleque é super criativo. E com essa coisa do moleque contar história e contar história e contar história, ele vê que o moleque pode vir a ser um escritor. E o símbolo disso é a entrega de uma caneta, não lembro mais como é no livro isso... Porque o Marcos proibiu a gente de reler o livro, falou: “Não, não, não. Se concentra no roteiro, não tem nada a ver com o livro. Você não vai querer fazer o personagem do livro, né? Nós vamos fazer no cinema, é outra linguagem.” Então eu não lembro. Li esse livro em 1970. Ontem eu ganhei um exemplar,  a capa agora é o cartaz do filme, ele estão fazendo uma edição especial. Vou começar a ler na semana que vem. Pra relembrar e tal. Mas é um filme muito singelo. A história do trem, que remete para uma coisa de infância. 

A conversa é interrompida pela chegada de Betão, um dos amigos de internet do ator na capital mineira. Ele, que é famoso pelas declarações ácidas no Twitter e que foi acusado de injúria e difamação pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, se despede da repórter com a promessa de uma amizade virtual.

Pelo visto não é só o Portuga que esconde um coração de ouro debaixo da fama de mau.

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