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29/04/13 - 15h48
por Larissa Padron

Thiago Mendonça

A banda Legião Urbana conquistou uma geração de devotos fãs (que se autointitularam como “religião urbana”) entre as décadas de 80 e 90. Tanto que, 17 anos após a precoce morte do seu líder, Renato Russo, e consequentemente o fim da banda, as músicas continuam a tocar e inspirar pessoas.

Prova disso são dois filmes que chegam aos cinemas neste mês. Faroeste Caboclo, inspirada na canção homônima da banda, estreia em 30 de maio. E Somos Tão Jovens, que narra a juventude de Renato Russo, ganha o circuito nesta sexta-feira, dia 3.

O longa tem direção de Antônio Carlos da Fontoura e acompanha a vida de Renato Manfredini Jr., posteriormente Renato Russo, do final da década de 70 - quando colaborou na construção da cena punk de Brasília, com a formação da banda Aborto Elétrico - até o início do auge da Legião Urbana.

O filme teve uma pré-estreia simultânea em dez capitais do Brasil na semana passada, utilizando um novo sistema de transmissão via satélite, e o Cinema em Cena entrevistou o ator Thiago Mendonça, que interpreta Renato Russo no longa.

Mendonça, que tem uma sólida carreira no teatro, já tinha outra experiência marcante no cinema antes de dar vida a Renato Russo, curiosamente, em outra cinebiografia musical: o ator interpretou o cantor sertanejo Luciano em 2 Filhos de Francisco, de 2005. Na entrevista, ele fala sobre sua relação com a música e a total imersão no novo papel. 

Cinema em Cena: A produção do filme atrasou um pouco, até a estreia, o filme foi adiado algumas vezes...

Thiago Mendonça: Algumas vezes (risos).

Quanto tempo você teve desde descobrir que ia ficar com o papel até a estreia?

Thiago Mendonça como Renato RussoA preparação começou quando a gente já tinha a data da filmagem. Mas o convite, a possibilidade de fazer o filme, apareceu em 2007. Eu me reuni com o Fontoura, a gente conversou e tudo mais e já surgiu a possibilidade de fazer esse filme, que seria para 2008. E assim foi, e aí depois 2009, 2010, até acontecer em 2011. Mas no finalzinho de 2010 realmente já estava acertado que em 2011 ele seria rodado. Então, quando foi janeiro de 2011, no comecinho do ano, eu comecei a frequentar o estúdio do Carlos Trilha, que é produtor musical do filme e produtor musical do Renato, de alguns discos solos do Renato, amigo pessoal do Renato.

E aí, de janeiro até maio, quando o filme começou a ser filmado, foi esse envolvimento com a música, para aprender a tocar os instrumentos, aprender a cantar o repertório do filme e viver esse universo da musicalidade, que pra mim era tudo novo, né? Se fosse uma coxia de teatro possivelmente eu ia ficar mais confortável, mas o estúdio de música, palco, como cantor, instrumento pendurado em mim... Isso era tudo novo. Foi esse tempo de preparação mais profunda, um mergulho mesmo. Eu até digo que eu entrei em órbita, porque o estúdio do Trilha se chama “órbita estúdios” (risos).

E eu ia para lá de segunda a sexta, ou sábado também, nem lembro, e era o dia inteiro. Chegava lá as 9 da manhã, almoçava, passava o dia, e saía de lá de noitão. E aí esse convívio não era só com o Trilha. Era o Trilha, o Fred Nascimento, que tocava violão nos shows da Legião, o Fernando Morello, a Carmem Teresa, irmã do Renato, Luiz Fernando Borges. Essa turminha tava sempre pelo estúdio, que já era um ambiente que me aproximava do Renato por si só, ainda estando cheio de pessoas que com ele viveram, isso era mais enriquecedor ainda. E eu comecei a aprender não só a música, mas a observar essas pessoas, ficar atento para as histórias que elas contavam. E todos foram muito generosos mesmo, de entrega, por isso que eu não tenho essa sensação de que esse filme é um mérito meu, é um trabalho meu. Não é um trabalho meu. É um “mosaiquinho”, dedicação de cada um, tem um pouquinho de cada um ali.

As músicas tocadas no filme foram todas captadas ao vivo, não? Vocês tocavam na hora...

Sim, sim.

E você aprendeu a tocar baixo e guitarra para o filme, ou já sabia? Teve alguma preparação para aproximar o timbre de voz? Ficou muito parecido...

Teve várias coisas. O Fernando Morello era mais focado nessa preparação vocal. O Trilha e o Fred Nascimento na coisa dos instrumentos, na musicalidade. O Trilha na música como um todo, porque ele é o diretor musical do filme. Mas eu tive que aprender tudo para o filme, sim. Eu não tocava antes, não.

Mas essa já é a segunda cinebiografia que você faz de músicos. Então, você tem alguma preferência ou experiência na área? Te ajudou em alguma coisa?

Thiago Mendonça como Renato RussoNão, preferência nenhuma. Cada filme vai te trazer um envolvimento diferente. E sem falar que eu já sou uma pessoa diferente. O 2 Filhos... eu fiz em 2004, tinha 24 anos, o Somos Tão Jovens eu fiz em 2011, já tinha 31. Só esse espaço de tempo de sete anos na minha vida já me faz uma pessoa diferente, então é claro que as experiências que eu vou ter, elas também serão diferentes. Porque eu parto do princípio que eu estou em todas elas. Eu estava fazendo 2 Filhos de Francisco, eu estava! Não tem essa coisa do interpretar distante, não. Interpretação é uma doação de corpo presente, você só cabe estar naquele momento. Eu sendo uma pessoa diferente, isso aí já modifica as experiências.

E são dois universos distintos, né? Um é a música sertaneja, o outro é a música mais urbana, de uma metrópole, da capital, da central do Brasil. São até próximos fisicamente. Acho que são uma hora e meia a duas horas dali, Distrito Federal fica no meio de Goiás. E até a música mesmo, eu acho que elas são parecidas, no sentido de cantar um sentimento genuíno, sabe? Da experiência das pessoas com o lugar. E se for pensar em letra, é até complementar também. O Zezé e o Luciano cantavam “É o Amor”, o Renato cantava “É Só o Amor”. Olha como é uma ideia parecida (risos). E é mesmo, né? “É só o amor que conhece o que é verdade”.

E você cresceu ouvindo as músicas da Legião? Porque existe uma “religião”, toda uma legião de fãs. Isso aumenta a responsabilidade? Você recebeu apoio dos fãs? Uma cobrança maior?

Olha, eu tenho a consciência, sim, de que esses fãs são fanáticos, tem todo esse envolvimento. Mas isso eu acho que é uma coisa... Porque você endeusar uma pessoa, eu não acho que é engrandecê-la. Engrandecer uma pessoa é você reconhecê-la como um ser humano e como um ser humano legal. Deus é Deus. Ou deuses, né? Eu respeito as crenças diferentes, eu acho que Deus está em cada um. Mas o bacana é você ser um ser humano legal, não um Deus. Então, essa relação que os fãs têm às vezes de endeusar o ídolo, isso eu não sei, eu não acho muito saudável, não. Agora, se você reconhece aquele mito como um artista, como uma pessoa, como um ser humano e dotado de um talento extraordinário, que comunica com as pessoas porque fala de um sentimento universal, aí eu acho bacana.

E eu nunca tive esse envolvimento passional de fã. Mas sou brasileiro, já fui adolescente, com certeza a música da Legião já me inspirou em muitos momentos da minha vida. Então, eu tinha consciência da importância da Legião Urbana. E do Renato Russo, com toda essa poesia que ele cantava. E da contribuição, tanto do Renato quanto da Legião, quanto de Brasília em si, para o rock nacional, para a criação de uma identidade nacional, sabe? Essa consciência eu tinha, sim, mas a minha relação era mais de ouvinte, não de fã, nesse sentido de fanático.

E a imersão na vida pessoal do Renato? A família dele te ajudou?

Totalmente, totalmente! A Carmem Teresa, irmã dele, estava sempre presente. Dona Carminha, a mãe dele, se fez presente em alguns momentos. O Giuliano, filho dele, generoso ao extremo. Sempre presentes, sim. E não só essa família de sangue, mas a família dos amigos também. Como eu te disse, eu frequentava lá, a gente almoçava junto, no próprio estúdio mesmo. Enfim, essas histórias contadas e quase revividas por eles com certeza me alimentaram na composição do Renato.

Aproveitando que estamos falando da vida pessoal dele, estamos em um momento político delicado para se falar de sexualidade, os artistas estão se posicionando em relação a isso. Isso interferiu para você na questão de falar da bissexualidade do Renato? Você acha que é um momento importante para isso?

Renato RussoOlha, o filme não fala disso, é um filme de rock, é um filme de música. E eu não creio que a sexualidade define o caráter de uma pessoa, ou a valoriza ou desvaloriza, a qualifica ou desqualifica. Eu não sou uma pessoa interessada com quem o outro se deita, eu me interesso com quem eu deito, e tenho cuidado em me deitar com pessoas que venham me agregar algum valor.

Agora, o que o outro faz ou deixa de fazer, isso aí eu acho uma perda de tempo, e quanto mais uma pessoa olhar para o outro, menos ela vai olhar para si. E essas pessoas que estão muito preocupadas com sexualidade, ou onde mora o prazer do outro, possivelmente elas têm uma má relação com seu próprio prazer, elas possivelmente não são felizes e aí, sim, vão ficar se preocupando com o que o outro faz.

Mas agora, o Renato... As pessoas são diferentes, as pessoas são como são. O filme é sutil ao abordar, mas ele já aponta ali um menino que gosta “de meninos e meninas”, está na música do cara. E, assim, “momento delicado para se falar disso”? Por que delicado? Enfim, não devia ser delicado nunca. E as pessoas não deviam se preocupar tanto com o que o outro faz ou deixa de fazer, sabe? Ou onde mora o prazer do outro. Tem que se dedicar a descobrir onde mora o seu próprio, né?

E o filme não levanta bandeiras. Em momento nenhum ele tenta ser um filme que levanta bandeiras. Ele levanta uma bandeira do rock n’ roll, isso sim.

Neste mês, além do Somos Tão Jovens, também está saindo o Faroeste Caboclo. Então, 17 anos depois da morte do Renato, ainda se fala muito sobre isso. O que você acha que leva as pessoas a lembrarem depois de tanto tempo da música da Legião?

É o valor das mensagens que são transmitidas, sabe? Porque são valores eternos. Tipo, quando ele canta “compaixão é fortaleza”, “disciplina é liberdade”, “ter bondade é ter coragem”, sabe? Essas coisas todas são mensagens que vão atravessar gerações, e que na verdade contribuem para que a gente seja um pouquinho melhor, para que acredite que realmente é só amor que vem a transformar. Isso é quase bíblico, né?

A gente tava falando de conflitos, dessa coisa toda que a religião às vezes impõe. O que Deus vem entregar é só o amor, e não o ódio e a intolerância. Deus curava desde os aleijados, os cegos, de quem precisava, ele nunca excluiu ninguém por ser diferente. Enfim, até à prostituta ele estendeu a mão. Ou a qualquer outra pessoa. Ele não era uma pessoa que desagregava ou que vinha a pregar o amor. Isso é a impressão que eu tenho. Quando eu leio a Bíblia é essa impressão que eu tenho, que ele veio se entregar ao amor, e esse sentimento maior ele é agregador, não segregador. Ele une. E se uma pessoa é diferente, ela deveria ser mais interessante para você, porque vai te mostrar outra possibilidade de vida, e não a você ficar fechado naquilo.

Então, o Renato ele cantava essas coisas que contribuíam para que nós fossemos melhores, como seres humanos, e como cidadãos também, né? Uma letra como a de “Que País é Esse?”, que faz a gente se perguntar por que essa sujeira está no Senado até hoje, ou por que a gente continua “vendendo as almas dos índios por um milhão”. Isso é muito importante. E que isso seja ouvido ainda.

Hoje em dia falta, talvez, atitude e coragem de cantar o que precisa ser cantado. Enfim... E com essa pegada do rock n’ roll ainda, ganha uma coisa mais vibrante ainda, mais forte.

Aproveitando que você falou do contexto político também, o filme se passa na época da ditadura, e foi filmado em Brasília, onde tudo ocorreu. Você acha que isso interferiu muito na sua imersão na vida do Renato? No peso que essa política tinha pra ele...

Thiago Mendonça e Laila ZaidBrasília é uma personagem do filme. E Brasília é muito presente na composição do Renato, e na música dele em si. Então, esse contexto político, eu tenho certeza que fazia parte do cotidiano deles, ali em Brasília. Ainda faz até hoje, a cidade é isso. A cidade foi criada para isso, ela é, enfim, a capital do nosso país. Então, se você vai falar de Brasília, se você vai cantar Brasília, se você vai viver Brasília, possivelmente essa questão política está envolvida. Ela vai ser narrada, ela vai ser citada. Brasília, em si, é isso.

Nas suas conversas com o Fontoura, o que você acha que foi decisivo para você ter sido a escolha para o papel? O que mais te aproxima do Renato?

Aí eu não sei, desculpa, você deve perguntar a ele (risos). Mas eu não sei não, não sei qual foi o momento em que eu o convenci que seria eu, ou se existiu esse momento. Eu acredito em um mistério muito maior porque os nossos caminhos foram se cruzando, e quando eu vi tinha acontecido.

Citando outro músico, Caetano Veloso diz que “é impressionante a força que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer”. Acho que esse encontro tinha que acontecer. Eu fui muito feliz, me sinto um privilegiado, um sortudo, tanto quanto artista, quanto ator por ter vivido essa experiência imensa de fazer esse filme lindo. E como pessoa também, de ter tido contato com essa “persona”, essa personalidade, esse ser humano que foi o Renato. E toda a família dele, todos esses amigos que ele veio a me apresentar.

O Fontoura te chamava de Renato durante as filmagens. Então, você já saiu do personagem? Essa imersão foi tão grande...

Sim, essa imersão foi grande. Ela deixou um vazio quando acabou. Mas o filme acabou em agosto. E quando ele acabou teve esse período que ficou um vazio mesmo. A vivência foi muito intensa, eu fui para Brasília e fiquei longe da minha casa durante muito tempo, convivendo com aquelas pessoas, e aí de um dia para o outro acabou. Acabou...

Foi quase uma catarse mesmo, no último dia, uma sensação de vazio, ela ficou. Mas foi! Essa é a profissão do ator, a gente não pode ter grandes apegos, não. Na verdade, não é saudável para nenhum ser humano ser muito apegado a nada. Porque tudo é passagem, está tudo em transformação. Eu estou em transformação, você está em transformação. A própria cultura, ela tem que ser viva, representar o tempo de hoje. A gente não tem que ser apegado a valores, pelo contrário.

Quer dizer, a gente tem que se apegar, sim, ao que nos faz bem, quando a gente tem a certeza disso, ou daquilo. Mas tem que ser disposto a mudar. Essa despedida de personagem, isso vai existir na vida de um ator durante todo o processo, eu penso... Deixou um vazio, é claro. Mas é um vazio que é preenchido com as memórias carinhosas que também ficaram, sabe? E as amizades que também ficaram, enfim...

Ontem foi lindo, rever todo mundo, estar com todo mundo, foi impressionante.

E o que a vida do Renato vai deixar para você, daqui para frente, como ator?

Set de SOMOS TÃO JOVENSEu acho que como ser humano. Eu não consigo separar muito o meu ator do meu humano, não. Porque até mesmo a ferramenta que o ator tem para trabalhar é o ser humano que ele é. É o que ele sente, é sentimento, é emoção. Ai, não sei... Eu já sou uma pessoa de natureza sensível, mas ele me criou outras atenções também. E eu já estou com 33 anos, e eu fiz ele no auge da juventude dele, então acho que o que ele me deixa é uma reforçada, um gás, naquela força que a juventude tem que a gente vai deixando que se dilua durante a vida, sabe? A coragem. Talvez seja isso, talvez ele tenha me reacendido um pouquinho mais a chama da coragem.

Para finalizar, quais são seus próximos projetos? Você pretende continuar no cinema?

Pretendo continuar no cinema, enfim, interessado em todos os trabalhos que  a mim possam chegar. Eu sou uma pessoa muito interessada na vida, e profissionalmente tudo me interessa, e quando não me interessa eu não faço. Eu acho que a gente tem que ter prazer naquilo que faz. Ainda mais nisso, quando você tem que estar ali, tem que estar de verdade, querendo estar.

E projetos futuros, o que eu posso te dizer... Eu faço parte, aqui no Rio de Janeiro, há oito anos da Companhia de Teatro Íntimo. Um coletivo de 18 pessoas, e há oito anos a gente existe, com repertório nosso, com as nossas peças. E em outubro agora a gente volta com Dorian, que é uma adaptação do O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde. Eu faço o Basil Hallward, o pintor que pinta o quadro.

Enfim, temos isso aí pelo futuro, além de toda a vida pela frente (risos).

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Confira o trailer de Somos Tão Jovens:

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