Bem-vindo!
 
Publicidade
Publicidade
12/08/13 - 18h19
por Luísa Teixeira de Paula

O cineasta Halder Gomes assiste ao seu Cine Holliúdy na Praça Tiradentes. Foto: Leo Lara/Universo Produção

Vinte e seis estados e um Distrito Federal distribuídos em uma área de 8.515.767,049 quilômetros quadrados, segundo o IBGE. Com tamanha dimensão territorial, não é de se estranhar que cada região brasileira apresente dialetos e características culturais singulares. Ainda assim, o anúncio de que o filme Cine Holliúdy seria exibido com legendas pareceu uma quase extravagância a muita gente.

Dirigido e roteirizado por Halder Gomes (As Mães de Chico Xavier), o longa é falado em "cearencês". "Chei dos leruaite", "aventura estrambólica", "boa da moléstia" são algumas das expressões utilizadas e podem assustar o espectador menos acostumado. Mas de acordo com Gomes, essa característica é, também, um dos grandes trunfos da produção. “Cine Holliúdy é um filme que tem tido uma receptividade grande do público por onde tem passado, independente de seu regionalismo e de suas diferenças culturais. Ele dialoga com qualquer cultura, com qualquer universo que tenha paixão com cinema”. E continua: “essa é uma coisa que a gente não atentou ainda. Na dimensão do Brasil, temos vários dialetos por aí afora e o cearencês é um deles. Se não colocar legendas, metade do filme vai se perder. E para não perder a originalidade do que é muito rico da nossa língua, desta diversidade, eu preferi manter a originalidade e a essência do projeto e colocar a legenda. Assim, nenhuma das duas partes perde em nada. Essa é a proposta”.

Com estreia em nove salas do Ceará na última sexta-feira, 9 de agosto, o filme rodou o circuito de festivais antes do lançamento. Ganhador do Edital de Longas-Metragens de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura em 2009, o projeto esteve nos festivais de Brasília e São Paulo, além do 10º World Bangkok Film Festival e 4º FESTin Lisboa. A oitava edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto – marcou o encerramento desta trajetória. Segundo o cineasta pernambucano, era o “encontro de um filme que resgata um contexto histórico de uma época em um lugar histórico”.

Cine Holliúdy é uma comédia nostálgica que se passa na década de 70 e fala dos cineminhas do interior do Ceará na época da chegada da TV. Ela colocou em xeque essas pequenas salas e resgata memórias do universo que eu vivi”, conta Halder. Nele, Edmilson Filho é o protagonista Francisgleydisson, um apaixonado pelo mundo das histórias e do cinema que luta para “manter essa grande paixão que é exibir filmes” em um tempo em que a chegada da televisão aparenta ser uma ameaça. Ainda segundo o diretor e roteirista, “é um filme que fala de cinema – uma metalinguagem de cinema –, principalmente de voltar... Quando o cinema é obrigado a voltar nesta forma mais primária que é uma contação de histórias. A forma mais primitiva de se narrar um filme, que é a grande magia”.

A premissa básica do enredo é um assunto que não sai dos pilares de discussão em relação ao tema. Com o aprimoramento da tecnologia ao longo dos anos, as salas de cinema foram perdendo e reconquistando espaço, na medida em que precisaram se adequar aos novos tempos.  “Desde que o cinema surgiu se criam ameaças a ele. Não sei que complô é esse de tentar matar o cinema. Foi o cinema falado, na época do cinema mudo. Depois a chegada da TV, teve o rádio... Depois a chegada do VHS, do DVD, da TV a cabo... Hoje é a internet. Mas o cinema tem resistido. Tem se transformado, tudo tem se reinventado. Justamente para conseguir superar essas ameaças que são continuamente inventadas”, afirma. E continua: “O que eu acho que acontece é o seguinte: cinema tem a coisa mágica que é a emoção compartilhada. Ir ao cinema é diferente de você ver... Nada vai proporcionar o que é essa exibição em salas – o tamanho da tela, a qualidade de projeção que melhora cada vez mais... Os recursos de filmagem que também melhoraram muito: a tecnologia, o acesso, a facilidade dos equipamentos que podem te dar imensas possibilidades de câmera e tudo. Então a relação do passado com esse filme é muito próxima ao que estamos vivendo agora. E é isso que eu acho interessante nesses ciclos que o cinema vive. Ele está sempre se reinventando”.

Diretor do documentário Loucos de Futebol, de 2007, o cearense compara este universo ao mundo do esporte: “Se ameaçou o futebol com a TV, mas mesmo assim nada é igual à ida ao estádio. O som é diferente, o cheiro é diferente, no campo a amplitude de visão é diferente. Então apenas se separou quem vai em busca dessa emoção e quem prefere ficar no comodismo. O cinema também está na mesma situação, tenho esta mesma leitura. Acredito que ele vai sempre existir, embora não seja mais a maior diversão como se falava antes – embora eu considere que sim, né? Mas o cinema divide, hoje, espaço com outras formas comodistas de tentar ver um filme. O futebol foi no caminho contrário, entrou em uma situação onde essas mega arenas tiraram a graça, o charme e o tesão. Virou uma coisa em que tudo parece um joguinho de Playstation Fifa, né?”

É justamente indo ao contrário deste mundo generalizado e esteticamente parecido dos videogames de futebol que ele apresenta novas possibilidades para o cenário fílmico. As cores e a popularidade de Bollywood é um caminho que pode servir de inspiração para o Brasil, segundo ele. “Os exemplos de sucesso nós temos em vários lugares e a Índia é o maior deles. Cinema na Índia é algo popular. O Brasil tem a maior discrepância no número de salas por população. Temos aproximadamente 80% de uma população que nunca foi ao cinema, 2.557 salas e uma população de quase 200 milhões de habitantes que nos dá este índice assombroso. As pessoas querem ir ao cinema. Não vão porque não tem. Acredito que muito do sucesso do cinema em se manter vivo passe pela interiorização. O interior é carente de entretenimento e as pessoas não querem só beber cachaça e ouvir forró, como é no Ceará. Elas querem ir ao cinema também. Então acredito que mais cedo ou mais tarde [os responsáveis pela indústria de exibição] vão entender a dimensão que este mercado tem de potencial e começarão a pensar no cinema de uma forma mais ampla. Não necessariamente voltando ao que era antes, do tipo de salas que existiam e tudo, mas em complexos menores que não fiquem necessariamente atrelados à existência de um shopping. Acredito que isso é uma coisa que vai acontecer e o cinema vai se tornar mais democrático e mais acessível, principalmente”.

Palavras de quem tem experiência no ramo. 

Coment�rios

comments powered by Disqus
Publicidade

Redes Sociais

Últimas Atualizações

Variedades

    Publicidade

    Agora!