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15/02/14 - 20h18
por Manoella Barbosa

direto de Berlim, especial para o Cinema em Cena

Crédito: Berlinale
Ao fundo, à esquerda, o ator Liao Fan; à direita, o
diretor Diao Yinan, ambos de Black Coal, Thin Ice.

A surpresa foi grande entre os muitos jornalistas que se acumulararam hoje, 15 de fevereiro, em frente ao auditório onde mais tarde haveria a coletiva de imprensa com os vencedores da 64ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Em uma grande televisão de tela plana, os representantes da imprensa podiam assistir ao vivo à entrega dos prêmios.

O filme chinês Bai Ri Yan Huo (Black Coal, Thin Ice), do diretor Diao Yinan, é um excelente thriller sobre um policial que, anos após sobreviver a um acidente, decide investigar por conta própria uma série de assassinatos. O filme levou também o Urso de Prata de Melhor Ator para Liao Fan.

Durante a coletiva de imprensa, Yinan falou sobre os desafios de se fazer o filme na China. “Trabalhamos oito anos no roteiro para este filme, escrevi três diferentes versões para ele”, disse o cineasta, que também assinou o roteiro do longa. “O mercado cinematográfico chinês é muito grande, mas valoriza filmes comerciais. Tentei com Bai Ri Yan Huo fazer um filme que fosse ao mesmo tempo um filme de arte, um filme arthouse, mas comercial o suficiente para conseguir espectadores.”

O diretor é conhecido na Europa principalmente por seus filmes indie, com baixo orçamento. “Este foi o meu primeiro projeto com uma verba maior, bem maior”, disse Yinan, e confessou: “Quanto mais verba você tem para um filme, menos liberdade você tem, isso é claro. Enquanto se faz filmes independentes com pouco dinheiro, a liberdade artística também é maior. Por isso só tenho a agradecer a outros grandes cineastas chineses que abriram caminhos para nós, os que estão tentando agora fazer filme de arte, mas com sucesso comercial.”

Perguntas de cunho político foram inevitáveis. Uma jornalista iraniana interessou-se pela liberdade artística na China. Para Yinan, a censura no seu país está diminuindo, o que só contribui com o sucesso e reconhecimento de filmes chineses no Ocidente: “Só o fato de termos tido permissão para viajar para Berlim, eu e grande parte da nossa equipe, é um sinal de que o governo chinês está se abrindo. Desejamos a todos os artistas chineses que tenham essa liberdade de poder mostrar seus trabalhos onde quer que seja.”

Crédito: Berlinale

Um jornalista africano quis saber se o diretor estava tão surpreso quanto ele com o prêmio. Yinan enfatizou: “Ser imprevisível é uma característica da Berlinale. Não me lembro de nenhum filme que tenha sido agraciado com o Urso de Ouro e que tenha ido exatamente ao encontro do que as pessoas estavam pensando.” E complementou, sobre o espírito vanguardista do festival: “Pode ser que com essa imprevisibilidade a Berlinale esteja na vanguarda do cinema, de modo que em dois anos todos os que estão espantados agora acharão que o nosso filme foi a escolha certa para esse prêmio.” O diretor referia-se ao fato de Boyhood, de Richard Linklater, ter sido apontado desde o dia de sua primeira exibição, no último dia 12, como  favorito ao Urso de Ouro.

No total, três chineses sairam de Berlim este ano levando um prêmio. Além do ator Liao Fan e de Diao Yinan pelo melhor filme (o Urso de Prata de melhor direção ficou com Linklater), a fotografia de Tui Na ("Massagem Cega", em tradução livre) também foi premiada. A última vez que um filme chinês ganhou o Urso de Ouro foi em 2007, com O Casamento de Tuya, de Wang Quan'an.

Crédito: Manoella Barbosa/Cinema em Cena
Richard Linklater ergue seu troféu na sala de imprensa.

Muito americano para a Berlinale?

Antes da entrada do diretor e parte do elenco do filme chinês, Richard Linklater, o diretor de Boyhood, já havia passado pela coletiva de imprensa, arrancando aplausos calorosos dos jornalistas presentes. Um repórter polonês não disfarçou seu descontentamento com o fato de o filme, um projeto de 12 anos, não ter levado o prêmio principal da Berlinale: “Acho que eu sei que o filme errado levou o Urso de Ouro. Será que o seu filme é muito americano para a Berlinale?” Enquanto o polonês falava, outros jornalistas gritavam ao fundo: “Eu também sei! Eu também sei!”

Munido de muita diplomacia e um simpático sorriso no rosto, Linklater respondeu: “Eu não sou um atleta, isso aqui não é uma competição esportiva, com perdedores e vencedores. Eu sou um artista. E prêmios nada mais são do que uma percepção externa de um projeto, de uma obra de arte”, e foi mais uma vez muito aplaudido.

Confira a lista completa de premiados no 64º Festival de Berlim.

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